(Bruno Vicentini)
Tal como Deus, que, de vez em quando, quando lhe dá na veneta, vagabundeia pelo mundo travestido de indigente, a fim de pôr seus filhos à prova e de testar-lhes a caridade, também o Diabo, e isso muitas e muitas vezes, perambula por aqui como um impostor – sem que se saiba, no entanto, qual é o seu disfarce, ou mesmo suas intenções.
(Papai Noel do Bar do Zé)
Em certa altura lhes apareceu um rapaz muito magro de cabelos compridos, o rosto oleoso de dormir na rua, vestia uma camisa verde de botões e tinha uma sacola de supermercado cheiinha de biscoitos da sorte. É um real cada biscoito, ele disse, é o biscoito da sorte chinês, sabe aquele? É pra me ajudar.
Camargo não viu nos olhos de Tuco um resquício sequer da razão que havia levado os dois até aquela mesa de bar, do assunto que eles vinham até então evitando – aqueles não eram os olhos de quem fosse morrer dentro de no máximo seis meses, de acordo com o exame cujo resultado Tuco trazia dentro da mochila, passou a carregar a pasta com os laudos pra onde quer que fosse, como um amuleto desgraçado. Tuco quis saber quantos biscoitos da sorte tinha ali dentro da sacola, então o rapaz entornou os biscoitos por sobre a mesa e eles se espalharam até quase a beirada. Camargo viu o símbolo de, pelo menos, três restaurantes chineses diferentes. Achou curioso. Tuco começou a contar. Quarenta e seis, sete, oito. Vamos fechar em cinquenta. Tó, cinquentão. Mas calma, senta aí um minuto, disse, toma um amargo com a gente. Você pode pagar, né, agora você tem dinheiro.
O rapaz queria queimar o chão, disse que a grana tinha destino certo, mas Tuco não quis saber, ameaçou desfazer o negócio. Fez sinal pro garçom trazer mais um rabo de galo. Camargo só observou, coçando a barba. Abre um biscoito aí, Magrão, disse Tuco, lê a minha sorte aí pra mim. Cê sabe ler, né? O rapaz puxou uma cadeira, se sentou, envergonhado. Abriu um biscoito da sorte, quebrou e leu: como se pratica a esgrima sem espada?
Mas que merda é essa, que porra de sorte é essa, disse Tuco. Esgrima? Eu não sei, parceiro, eu só vendo os biscoitos, não fui eu que escrevi isso não, disse o rapaz. Bebericou com cuidado o copinho de fundo grosso que o garçom tinha trazido, tão cheio de um líquido escuro que quase derramava. Camargo interveio, abre outro aí, pô, olha o tanto que tem aí. Quem sabe a nossa sorte não melhora. Mas as frases eram todas assim, sem muito nexo. Os três seguiram lendo as sortes, uma a uma. Qual era o seu rosto original – aquele que você possuía antes de nascer? Qual é o som do silêncio? Suba uma escada de 99 degraus até o último degrau. Agora, suba mais um degrau. Conhece-se o som de duas mãos que batem palmas. Mas qual é o som de uma mão que bate palmas?
Camargo ficou lembrando de quando mais cedo ele tinha estacionado o seu carro, uma Parati vermelha e temperamental, quase em frente àquela mesma lanchonete. Naquele momento o lugar ainda não estava totalmente aberto e ele ficou assistindo de dentro do carro ao velho trazendo as mesas e as cadeiras pra fora, montando as mesas na calçada, enquanto pensava se devia sair do carro e ajudar o homem. Ele na verdade gostaria de ajudar, gostaria mesmo, mas temia que seu gesto fosse mal interpretado, fosse visto como um atrevimento. As mesas do bar eram pesadas, de madeira, um tipo de mesa que hoje em dia quase não se vê por aí. Aguentava os socos e tapas dos bêbados mais efusivos, recebia as marteladas dos copinhos de dose com sonora dignidade e não podia ser arremessada muito longe numa briga. (Além do mais, eram daquele tipo de mesa perfeita pra se cobrir com biscoitos da sorte partidos ao meio, biscoitos da sorte já velhos, meio murchos, que não estalavam quando eram quebrados e que não iam mesmo ser comidos, uma vez que a intenção dos participantes era apenas ler as mensagens dos papeizinhos que os biscoitos continham.)
Ficaram os três ali por algum tempo, quebrando biscoitos compulsivamente, e fizeram três pilhas em cima da mesa – uma com as embalagens de plástico vazias, outra com os biscoitos quebrados e uma bem menor, com os papeizinhos. Era como se esperassem que, em meio àquela sabedoria de restaurante, houvesse uma mensagem definitiva, que afinal pudesse salvá-los – aos três, e não só a Tuco. No fim, o rapaz muito magro se levantou, pagou a sua parte da despesa e foi embora, deixando os dois amigos ali sozinhos, cada qual acompanhado apenas por si mesmo e também pelo outro.
