Falta o sentido (por Carol Schettini)
Abre o dia. Seus olhos abrem. Não está mais inchada. Quando foi dormir, seu corpo parecia um balão. Por pouco, não estava todo roxo. Talvez, tivessem atendido a seu pedido de mudar de mundo. Onde não lhe faltasse fígado, nem rins, nem coração. Passar um mês toda verde ou azul ou amarronzada não era nada bom.
Consegue se mover normalmente, segue até a cozinha, passa um café novo. O aroma ocupa todos os espaços do ar, moléculas escuras soltas no universo. Ao levar a xícara à boca, surpresa!, falta-lhe a boca. Sem boca, sem café para tomar. Não preciso me preocupar com o almoço.
Como ainda lhe sobra algum tempo, pesquisa na internet como seria viver sem boca. Alimentar-se por sonda estava fora dos seus planos. Vou viver de luz. Aprender a fazer, assim como uma árvore, minha própria fotossíntese. Olha pela janela. Dia de sol. Sem nuvens.
No espelho, não gosta da sua imagem. Com um lápis vermelho faz um delineado criando uma boca falsa. Pinta com uma cor mais clara por dentro. O tom degradê lhe agrada. Se puxar um pouquinho os cantos, vou parecer alguns anos mais nova.
O dia passa sem que precise se comunicar verbalmente com alguém. Palavras saem de seus dedos para o teclado. Posso escolher minha voz. Posso ser homem, posso ser mulher, posso ser Lady Gaga. Divertia-se brincando com sonoridades. Foi um dia tranquilo. Sem mais. Quantos dias consigo viver na inédia? Há relatos de um homem que ficou vinte e um dias sem alimentar-se. Bastante tempo.
No outro mundo, a falta de um órgão durava uma semana, quiçá, um mês, e no mundo de agora? Era esperar para ver. Quando o órgão era vital, como um coração, por exemplo, às vezes, com poucos segundos, ele era realocado em seu corpo. Dava tempo de falar palavras ásperas (mas verdadeiras) a quem passasse pelo caminho. Lembra-se de quando lhe faltou parte do cérebro, passou horas em tranquilo transe de felicidade, uma droga muito poderosa. Quando faltou o cérebro todo, ao contrário, não se lembra de ter sorrido ou aberto os olhos.
O telefone toca. Você não vem? Não vou? Está escuro. Escuro? São quase meio dia! Não vejo nada, sério, está escuro! Coloca as mãos no rosto. Não vê. Mas, fala. Tem boca. Perdeu os olhos. Não vê sentido em desenhar olhos ou colar cílios postiços. Ficariam tortos. Seria o político corrupto de um mundo redondo. Usa as mãos para encontrar óculos escuros e o corpo todo para mostrar o caminho.
Até que enfim uma utilidade para a bengala de Compostela! Nunca fiz o caminho, mas sei que ele está lá. Sem olhos, fica fácil enxergar para dentro. Para o passado. Para o outro tempo. Foi rápido dessa vez. Um dia sem boca, um dia sem olhos?
O sol a acorda. A luz. A luz que foi alimento e que fez falta. O despertador toca longe, longe. Acorda sem orelhas. Menos mal, desde darwin descobrimos que orelhas não fazem a menor falta. Não tenho que usar seus músculos para afiar meu ouvido. Engraçado, ouço sons, mas não tenho equilíbrio. Ela não consegue caminhar sem se encostar nas paredes do corredor. Fora isso, ao descer à rua, leva um susto. Os sons não são abafados, chegam sem um funil que os impeça de invadir seu organismo. Grita. Por sorte, tem em sua bolsa, um fone de ouvido e consegue encaixá-los no buraco descoberto ao lado de seu rosto. Um dia. Só um dia. Não sei se é pior um dia, uma hora, uma vida ou um mês.
Hoje tenho olhos, tenho boca, ouvidos e nariz. Nariz? Cadê o meu nariz?! No espelho, não tem como disfarçar. O café sem cheiro. O perfume desimportado. Em outra época, penara com nariz entupido, nariz congestionado, mas sem nariz! Começa a respirar pela boca, como se engolisse um tufão. Falta ar! Dá um passo, puxa o ar com força. A boca aberta ao máximo. Senta. Outro passo, senta. Que cansaço! Já vivi um mês com a falta de um pulmão. Era difícil, mas eu tinha o outro. Seria melhor faltar um buraco e ter outro. Seu rosto desalocado. Quando alguém faz plástica, a primeira coisa que reparam é no nariz. Não teria como desenhar um novo com canetinha. Vou usar uma faixa, não, não, a máscara! Posso usar uma máscara, fingir que estou numa China poluída. Sem espirros, sem poeira, sem cheiro de bolinhos quentes nem água sanitária.
Luz da aurora. Despertador. Cheiro de chuva. Pois bem, hoje estou normal. Em frente ao espelho, sem roupa, se examina. Nada falta, nada parece de outra cor. Cansou de ter veias estouradas porque pulavam para outro caminho. Veias misturadas que ora corriam em roxo, ora em azul pálido. Seu corpo sem marcas. Sente, entretanto, pequenas fisgadas nas plantas dos pés. Dormências ora nas mãos, ora nas costas, ora na pele toda. Ao andar pela casa não sente o chão. Não segura objetos. Não tem sensações. Oba! Um bom dia para brincar com fogo, tomar banho pelando, entrar numa banheira lotada de gelo.
Criou-se, então, uma rotina nada monótona, pois, ao contrário do que ela pensava, não existia uma sequência de faltas, eram faltas misturadas. Podia faltar-lhe o nariz e pulando um dia, ficar sem nariz de novo. Quem liga? Tenho hábitos divertidos.
Mundo que é mundo, porém, tem um monte de fofoca. Alguns diziam: ela é muito louca. Para outros, uma hipocondríaca lunática. Quando não escuta, lhe falta educação. Quando não responde, um poço de arrogância. Nossa! Ela é cheia de não me toques! Deixa ela, se a vida é cheia de esquisitice, qual problema em viver sem sentido?
