Flop flop flop

Silvia Argenta

O barulho foi inesperado. Do nada, flop. Acordou assustado, olhou para o teto do quarto e notou de rabo de olho a cortina branca fina balançando com o ar da manhã gelada. Como não tinha deixado a janela aberta quando se deitou na noite anterior, resolveu virar o rosto e viu algo voando. Ouviu o mesmo som de novo, agora mais ritmado. Flop flop flop. Esfregou os olhos com as mãos e se sentou na cama. O ser voador havia desaparecido e o flop flop foi se afastando.

Decidiu ir até a janela para encontrar o animal barulhento que interrompeu seu sono. Não podia afirmar que acordou por causa dele, mas o som alto de desentupir pia deixou um vácuo na sua cabeça. Mal conseguia pensar. A imagem do ser voador ficou gravada na mente. Estática, a silhueta preta de asas abertas o fez considerar que era apenas uma borboleta. Era das grandes, só que inofensiva.

A vista da janela dava para a colina, que, lá no alto, abrigava uma oliveira solitária. Era difícil chegar até ela por causa das rochas e da areia fina. O terreno seco parecia ser fértil só naquele ponto onde estava a árvore. Sua única companhia aparecia todo final de tarde, quando uma gaivota pousava em um de seus galhos para se recolher um pouco antes do pôr do sol. Naquela hora da manhã, a oliveira ficava sozinha, assim como Manuel em sua casa.

Seus pais já haviam saído para trabalhar. A mãe era professora e o pai, fotógrafo.  Manuel, ainda estudante, era tão inteligente que às vezes se dava ao luxo de não ir para a faculdade. Preferia ficar em casa descansando, normalmente depois de uma noite em claro jogando videogame. Não havia impasse algum na família por causa dessa decisão do filho. Aliás, era o que mais os unia. Quando a mãe chegava em casa, Manuel já tinha um chazinho com mel pronto para restaurar a voz dela. Adorava ver os movimentos da boca da mãe contando histórias de forma didática. Queria falar como ela e observava os movimentos dos lábios e da língua, que a ajudavam a ter uma dicção perfeita, apesar dos dentes não tão alinhados. Ela não conseguia largar a profissão mesmo em situações triviais em casa. Se pegava a forma de gelo, detalhava como se dão todos os estados da água. Se encontrava uma barata, não se abalava e sabia classificá-la no reino dos animais pela estrutura das patas, asas e antenas. Tudo ela explicava, arrumando as coisas com as mãos rechonchudas e nervosas por organização.

Já o pai estava prestes a se aposentar. Os fios da sobrancelha grossa e pesada não se alinhavam no rosto e caíam desajeitados na frente dos seus olhos, o que atrapalhava o seu trabalho. Por várias vezes, Manuel e sua mãe tentaram aparar com uma tesoura, marcar horário no salão, passar gel… Enfim, foram diversas tentativas, mas o velho ranzinza não aceitava que tocassem nele. Aliás, Manuel nem saberia descrever como é a textura da pele seca e enrugada do pai. Não se lembrava se alguma vez chegou a encostar no seu rosto. Mesmo assim, conhecia a ternura do pai pelos olhos castanhos quase cinzas, afiados em distinguir e destacar cenas pela máquina fotográfica.

Na manhã do flop flop, Manuel foi até o banheiro depois de se convencer que uma borboleta o havia acordado. Quando foi escovar os dentes e levantou o rosto para se olhar no espelho, a mandíbula quase alcançou os pés. As suas sobrancelhas haviam desaparecido! Com receio de ficar com a aparência do pai, ele cuidava muito bem do seu rosto, deixando os pelos sempre aparados com um formato grosso e espesso que não tirava sua masculinidade e ao mesmo tempo evitava a zoeira dos amigos por causa da monocelha. Ver seu rosto sem as taturanas numa ligação direta entre cílios e cabelo o deixou desconcertado. Esfregou os dedos indicadores várias vezes no lugar onde as sobrancelhas deveriam estar e não conseguia reconhecer a textura da própria pele. Poderia ser áspera tipo depilada com gilete, mas não. Parecia bundinha de nenê. Pelo menos não havia a marca de sol.

Manuel tentou a todo custo entender o que aconteceu. Pensava se as sobrancelhas haviam fugido porque ele as machucava demais com pinças e tesouras ou porque elas queriam ter a autenticidade da monocelha ou ainda porque, mesmo com todo o cuidado, se recusavam a envelhecer como os pelos do seu pai. Mas e se não foi nada disso? De tão bonitas, foram sequestradas por invejosos que não sabem se cuidar. De fato, Manuel só tinha duas pistas: a imagem do ser voador na janela e o barulho alto do flop.

Vaidoso, o jovem não quis mais sair de casa até que encontrasse uma forma de recuperar suas sobrancelhas ou de fazê-las crescer novamente. O médico chegou a suspeitar de uma doença em que a pessoa perde os pelos, mas não era o caso de Manuel porque só lhe faltavam as sobrancelhas. De resto, continuava peludo igual. Seus pais passaram a se incomodar porque o filho permanecia no quarto. Nem fazia mais o chazinho da mãe, que pela primeira vez não conseguia explicar alguma coisa, e agora admirava as sobrancelhas rebeldes do pai.

Sem conseguir resolver o problema, Manuel se recusou a crescer. Por causa disso, de jovem adulto foi virando adolescente de novo e não demorou muito para voltar a ser criança. No mesmo quarto desde a primeira infância, sempre observou a solidão da oliveira. Foi só um tempo depois que a gaivota apareceu para lhe fazer companhia nos finais de tarde. A ave devia ser míope porque errava a altura dos galhos e precisava fazer a manobra algumas vezes até acertar. Manuel, como filho único, admirava a companhia solitária que as duas se faziam. Parecia um acordo não acordado que aconteceu espontaneamente. Durante todo esse tempo, imaginava se a árvore e a ave sentiam a presença dele ali, mesmo que no sopé da colina. Dizem que existem oliveiras com mais de dois mil anos. Gaivotas não chegam aos cinquenta. E Manuel duraria quanto tempo invertendo a lógica do nascer, crescer, reproduzir e morrer?

Desde o acontecido, todas as noites dormia com a janela aberta. Rezava pedindo para o seu deus trazer as suas sobrancelhas de volta. Não importava mais se elas viessem desconjunturadas no rosto de menino. Só assim ele via algum sentido em tocar a vida para a frente. Até que uma noite acordou com a gaivota no parapeito. Ela parecia menor do que imaginava, pois só a via de longe. Ela abriu as asas e só então ele reconheceu a silhueta do animal que fez flop flop. Percebeu que suas sobrancelhas cresceram e, arqueadas, ajudavam a gaivota a voar. Emocionado por tê-las reencontrado, entendeu que nunca mais as teria novamente porque elas estavam perfeitas auxiliando a ave como suas asas.

Conformado com a situação, passou a considerar sair de casa para tentar viver sem um pedaço seu. Voltou para o colégio disposto a superar as brincadeiras dos colegas com sua aparência. Passou um ano e, num sonho, soube que as suas sobrancelhas estavam cansadas de voar e queriam voltar para casa. Nessa noite, Manuel dormiu feliz. Acordou quando ouviu um barulho diferente de flop. Ao se olhar no espelho, a mandíbula quase alcançou os pés novamente. Ainda bem que a moda agora era ter fartos bigodes.

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