Horrores da guerra

As fotos acima são de Isaac Bábel logo depois de ser sequestrado e um ano antes de ser fuzilado. Stálin não gostava do estilo de sua literatura: cru, crítico e cruel com a idealização do regime soviético, além do fato de ser judeu (Stálin planejava mandar todos os judeus russos para um campo de concentração). De 1940, ano de sua morte, até 1957, quando foi reabilitado pelo governo de Kruschev, Bábel foi persona non grata na URSS. Apesar de ter ficado famoso, em 1926, com a publicação d’O Exército de Cavalaria, livro aclamado mundialmente pelo pioneirismo em retratar a guerra de modo mesquinho, concreto e atroz como ninguém havia feito antes. No caso, a Guerra Polaco-Soviética, quando Lênin liderava a novíssima União Soviética para alargar os domínios do comunismo sobre a Polônia (perdeu).

Não é exagero afirmar que Bábel inaugurou a ficção de guerra escrita do ponto de vista do soldado raso. Nesse sentido, ele influenciou toda a literatura de guerra do século 20. Dentre as várias qualidades deste livrinho amado por Rubem Fonseca (grande influência sobre o romance Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos), Jorge Luis Borges e Harold Bloom, estão a concisão, o olho para o detalhe original, a descrição viva de personagens menores, a linguagem que contrasta a brutalidade extrema com o lirismo mais diáfano. É ainda uma importante peça de testemunho, praticamente pioneiro do jornalismo literário, uma vez que Bábel, como soldado raso escrevendo em pleno campo de batalha, foi um dos primeiros escritores a relatar uma guerra sendo soldado.

O volume de contos de Bábel também pode ser lido como um grande romance, uma vez que alguns personagens vão e voltam de vários contos. Outro ponto original é a frieza e o distanciamento emocional do narrador em relação ao que conta, ao mesmo tempo em que consegue contar episódios violentos com uma ironia muito sutil.

Vejamos por exemplo o conto abaixo, “O sal”. Sua forma é a carta. Um soldado cossaco resolve escrever reclamando do comportamento das mulheres contrabandistas de sal, uma preciosidade em tempos de guerra. Ao mesmo tempo em que o personagem ressalta as qualidades do seu batalhão, demonstra como a malandragem das mulheres, que pedem a proteção dos soldados, pode corromper seu caráter. Curioso é que o escritor da carta não esconde os atos de brutalidade cometidos pelos soldados contra as mulheres, e ao fim da história confessa candidamente um assassinato.

O texto é a demonstração cabal da frase “Numa guerra, a primeira vítima é a verdade”. Ao enfatizar um lado da narrativa – o fato de ser enganado por uma mulher, o que desonraria o fervor revolucionário  -, o cossaco oculta misoginia, crueldade, corporativismo, falta de empatia e desapreço pela humanidade. Ele simplesmente parece estar cego a esses valores – e aí reside a grande ironia oculta do relato.

Quem quiser se aventurar pela imensa fortuna crítica de Bábel, aqui tem um ótimo ensaio da Maria Rita Kehl: “O duro de ler em seus contos é a ausência completa de qualquer fantasia, qualquer ilusão romântica a respeito da vida. Não há heroísmo em suas histórias, há pessoas aterrorizadas tentando não se atolar na enxurrada de merda e sangue que cobria o mundo. Não há beleza ou nobreza na guerra, não há causa que justifique a miséria de cada vida particular dilacerada, destruída, mutilada”, escreve a filósofa.

PROPOSTA

Pois é isso o que você vai fazer. Vai escrever uma carta, na primeira pessoa, denunciando um fato que, a seu ver, é desonroso, vil, nojento.

Ao mesmo tempo em que faz esta denúncia, acaba confessando pecados dos quais não parece se dar conta. Portanto fique de olho no contraste entre a intenção e a narração do fato: use a ironia.

Portanto, há um personagem (o narrador) falando para outro personagem (o destinatário) a respeito de um terceiro personagem (o denunciado). Pelo menos três personagens.

Atenha-se aos fatos. Prefira contar histórias, fazer descrições, detalhar personagens, em vez de estabelecer juízos de valor.

Prefira usar uma história que tenha acontecido com você ou com alguém que você conhece. Ou seja, baseie sua carta em fatos reais.

O destinatário da carta pode ser:

  • um chefe direto
  • o pai ou a mãe
  • um amigo íntimo
  • um colega de trabalho
  • um policial conhecido
  • uma autoridade distante
  • um personagem inexistente
  • um amor do passado

Em uns 8 mil toques.

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