por Américo Paim
Prezado Sr. Serafim.
Tá tudo bem aí na capital? Aqui tá tudo indo. Deve ser surpresa pro senhor receber uma carta com meu nome no envelope. É que não me dou bem com e-mail, rede social, essas coisas. Aproveitei que Everaldo foi fazer compra pra loja dele e pedi o favor de lhe entregar em mãos. Mandei pra empresa porque o amigo podia ter mudado de hotel. Tenho precisão de contar umas coisas daqui de Pedra Velha, tudo de seu interesse.
Deve recordar de Guaraci, sobrinho do Seu Nivaldo da imobiliária. O moderninho magrelo, do nariz grande e olho de peixe. Aquele mesmo, fortão, do sorriso de propaganda. Uns dias antes da viagem do senhor ele teve no Cabeça Quente com os primos. Ficaram no canto, com uma ruma de mulher. O senhor tava lá naquele dia na mesa de Seu Demétrio, lembra?
Pois bem, o homem que chegou aqui sem dinheiro nem pra sujar as calças, agora é outro. Precisa ver. Mora bem, carro do ano, tá se achando. Já se fala que vai mandar na empresa. É só Nivaldo se aposentar ou bater as botas. Nunca vi tamanha ligeireza. É sério, o homem é cachorro grande, só que ali tem catinga de carniça, dinheiro sujo feito pau de galinheiro. Não vou falar tudo aqui. O povo da cidade sabe e finge que não é da conta porque ele molha a mão de todo mundo. Mas é que tô besta como ele tá passando o rodo na mulherada.
O senhor pode até pensar assim que não é nada demais. De primeira traçava as desavisadas, tudo solteira. Até aí, tá certo. Ah, vou dizer ao senhor – não pegava puta. Desculpe o palavreado, mas é verdade. Os amigos levaram ele lá na Maria Pimenta e foi mais de uma vez, só que o cabra resistiu. E quem me contou foi o próprio Galo Preto, o rei do brega por aqui, como o senhor deve saber. Só que o menino acho que enjoou ou não encontrou o que queria e começou a se engraçar em terreno cercado, o senhor me entende. Partiu pras prometidas e até as casadas. Como é bom de prosa, se deu foi bem. Ninguém fala. Eu é que não posso deixar quieto e o senhor já vai compreender.
É que o tal Guaraci tem muito conhecimento. Fuçando com um e outro, já descobriu que seu amigo aqui tem informação do interesse dele. Aí, me procurou com aquela fala macia e tal e coisa. Eu não sou traíra, o senhor deve imaginar. Ele queria saber de mim, o que eu fazia – falei que tava sem trabalho – onde eu morava, se eu tinha mulher, essas coisas. Fui dizendo sem muito detalhe. Aí ele mudou a prosa, atrás das histórias daqui de Pedra Velha. A do contrabando de jegue do Antônio Remendado eu não neguei. O mundo inteiro já sabe. O corno de Genovevo também confirmei, até porque o pobre já morreu e nem faz mais diferença. A gente tava tomando uma, ele pagando tudo, então eu fui ficando mais solto, ganhei uma confiança, não vou lhe mentir. A conversa esquentou. Quis saber se a filha de Dona Ermelina era mesmo de um caso com Dr. Osvaldo da livraria. Falou até que ouviu falar sobre a mulher ter descoberto e cortado o negocinho do pobre numa viagem que fizeram até a capital. E que foi com faca de serra, óia que história. Não sei se é verdade que agora o home tá capado.
Como eu tava foi curioso, perguntei qual a razão pra tanto assunto. Ele só disse que queria conhecer mais da cidade, que talvez se estabelecesse por aqui. Queria se casar e constituir família, aquele leriado todo. Perguntou pelos homens direitos e de quem já tava na boca do povo ou tinha sido preso, coisa assim. De mim não falou nada. Eu sou piaba, né? Ele quer saber de tubarão. Aí me veio o amigo. O senhor sabe que sou de confiança e não falei foi nada pro homem, mas pensei que a gente podia fazer um acerto, uma colaboração simples da sua parte.
Eu não comentei, por exemplo, sobre o dinheiro que a prefeitura pagou pra empresa do senhor fazer a reforma da pracinha da estátua do Coronel Soriano e que foi mais da metade pro seu bolso. Eu tô falando o que ouvi. Santinha me contou dia desses na mesa de bar. Tava chorosa, magoada que o senhor prometeu largar a mulher e viver com ela e não cumpriu. Não é da minha conta, agora, que foi feio, isso foi, o senhor me permita dizer. Falou que o senhor pagou o aborto e tudo e ela queria a criança, que o senhor teve medo do escândalo. Mas fique tranquilo. Não vou falar pro tal do Guaraci.
Tem a outra história, dos desvios na vossa empresa, que o senhor manobrou e botou a culpa no Dr. Renildo. Ele foi mandando embora sem direito nem aos tempos. Não leve a mal, mas eu soube por que no dia que o coitado se matou, quem achou o corpo fui eu. Tava lá fazendo um bico de jardineiro na casa dele. Aquela mansão bonita. Tudo com dinheiro podre, agora era uma coisa, tem que se falar. Pra polícia eu contei que encontrei ele morto, escondi um pouco a história, num sabe? Ele me deu foi uma carta, que me fez ler na frente dele pra ver se eu tinha entendido. Tava lá a escrotidão que o senhor fez. Desculpe falar assim, é que foi como o finado disse. Tinhas uns recibos com sua assinatura: Serafim Antônio Lima da Silva. Esperei essas semanas e achei que era hora de contar da carta.
Mas vou falar uma coisa pro senhor: nada disso tava me incomodando. É tudo coisa menor. Eu fiquei chateado foi quando Guaraci falou que ele quer mesmo é a casa do senhor, aquela lindeza. É pra construir um prédio grande, chique. Disse que já se apalavrou com seus vizinhos porque precisa do terreno inteiro. Ele vai ganhar é dinheiro e tudo sozinho. Com essa coisa de sair por aí perguntando da vida dos outros, ele agora tem podre de gente pra dar com o pau e vai comprar no preço que quiser. Agora, do senhor ele pouco sabe. Não sei como ele chegou até a minha pessoa e agora não quer me largar. Encasquetou que eu sei de coisa sobre o senhor. O amigo não vai acreditar é agora. No fim da nossa conversa me ofereceu R$20 mil por qualquer informação quente sobre o senhor. Uma ou outra história cabeluda.
Não disse nada a ele, só que me lembrei logo do caso do Morro do Coentro. O senhor me desculpe o mau jeito de lhe falar assim de estalo. Enquanto ninguém nem desconfiava que o senhor, com todo respeito, andava comendo a mulher do prefeito, Dona Gracinha, eu sabia de tudo. Naquele tempo eu tava enrolado com Dirce, a moça de confiança da madame, o senhor sabe. Ela tava por dentro de muita coisa. Então naquele domingo que vocês tavam no bem bom no barraco da construção do condomínio lá do bairro alto e o Felisberto pegou no flagra, eu tava ali pertinho com a nega. Veja só a coincidência. Pensei que a gente tava sozinho. Acho que o senhor pensou igual. Bertinho faz isso em tudo que é obra que ele se mete. Toma cachaça depois do expediente e fica escondido na obra. Tem medo de voltar pra casa e apanhar da mulher. Aliás, tinha, né? Que deus o tenha na glória eterna. Eu ouvi as vozes e o barulho alto e fui olhar. Pois é, deu tempo de ver o senhor arrastando o corpo do desgraçado pra vala. Só não sei como foi, mas tinha muita ferramenta por lá e o senhor é forte. A polícia não descobriu até hoje o paradeiro de Bertinho. É pobre, o senhor sabe, eles desistem logo. Dirce não viu nada, lhe asseguro. Eu fiquei quieto porque eu tinha uma dívida com Bertinho. Acontece que a mulher dele morreu faz um mês (não sei se o senhor soube) e meus problemas acabaram. E o passamento de Dona Gracinha, coitada? Aquilo ali foi acidente? Aonde… Veja bem, não sou de criar confusão. Acho que uns R$50 mil que o senhor me fizer a gentileza resolve tudo.
Estou fora esses dias, mas pode deixar sua resposta lá no Cabeça Quente. Fale com Firmino.
O senhor fique em paz.
Ah, quase esqueci. O tal do Guaraci, tá muito interessado na senhora sua esposa. É que ela ficou aqui na cidade e o senhor na capital, sabe como é. A pessoa fica assim desassistida e o gavião cresce o olho. Ele me pediu o telefone dela. Me deu até um trocadinho. Não falei nada ainda. Achei melhor saber o que pensa o amigo. Fiz bem?
