Gol Contra (por Carolina Schettini)
Pô, Mano, qualé!
Me arrumou uma encrenca na sexta, puta que pariu. Onde você encontrou um funcionário igual o Ivan? Um encosto! Faz tudo ao contrário. Não dá uma dentro. Pra começar, marca a festa numa boate de quinta. O buraco caindo aos pedaços, maior pé sujo, nenhum conhecido, nenhum influencer, nada. Ele vem com papinho, a banda é boa, o bairro é top, o cacete!
Quem tá pagando? Sou eu. Não sou eu?! Pô! Ele diz: ‘guenta, ‘guenta, daqui a pouco você vai amar demais. Vai nas nuvens. Que porra de nuvem? Nuvem de tempestade?
Mano, o que a gente tinha combinado? Que não era mais pra trazer nem puta nova nem puta árabe. Que era pra ele pegar figurante de novela, segundo escalão de emissora, modelo de banca, sei lá. Essas meninas não profissionais dão problema. E não falam nada. Quer dizer, não falam nada com nada. Nem palavrão em português. Nem em inglês. Muito broxante a mulher ficar falando fuck, fuck com sotaque esquisito. Tá doido.
Sei que você disse, essas moças mais qualificadas dão trabalho, foda-se. Pega o contrato do Júnior, o borboleta. Ele é vira-casaca, mas esperto pra caralho. Ele tem um contratinho pronto, faz a mulher assinar antes. É só as mina colocar o dedinho e pronto, tudo arrumado. Carimbo, irmão, carimbo. Dedinho, almofada, papel, pronto. Não gasta tinta de bic gasta nem Mont Blanc.
Aí, o que você faz? Vai na onda do babaca do Ivan. O Ivan traz as mesmas piranhas velhas de sempre. Quer dizer, não são velhas, são ultrapassadas, tá ligado?
E ele erra o timing. Não espera minha mulher ir embora pra chegar. Não espera a madame ir pra casa. Aparece com as árabes de shortinho, salto alto, top curto, cheias de brilhos, cabelo pra lá pra cá. Arruma elas na mesa ao lado. Ao lado! Porra! Pensa na dor de cabeça que me dá. E a lábia pra patroa ir embora sem encrencar comigo? Faz charme, chora, me custa uma bolsa de dois mil dólares. Desconta do Ivan. Anota aí. Desconta da comissão dele. Nunca mais ele vai errar o horário. Nunca mais, aquele puto.
Vou te dar a resenha do que aconteceu. Logo que a madame foi embora, as putas ficam loucas, loucas, loucas. Muito magras, tomam whisky com energético ou sei lá o que, vai ver estão cheias de bola. Começam a dançar em cima da mesa, embaixo, deitam no chão, uma coisa Anitta de ser. Show.
Uma das terroristas fica me olhando e chamando com o dedinho. Ela é das antiga, Mano, dá pinta em monte de bodega. Dedo no copo, dedo na boca, doida pra dar. Tava no bolso. Ela some. Falo pro Paulo, o Paulo, sabe?, meu parça, falo: vou dar um jeito na piranha.
Quando entro no camarim, camarote, no quadrado, ela tá toda louca, louca, louca. Não fica em pé. Cai pelos cantos. Bêbada, bêbada. Um gambá. Eu ali, com o mulherão na minha frente, não ia ramelar por causa de uma bebidinha de nada. Meti pra caixa. Ela encosta no sofá, meio deitada de lado, meio pra cima, sei bem não. Tiro o pau pra fora e nada. A vagabunda da mulher não colabora. Uma boca murcha. De coisa murcha, tô fora. Não tem pau que sustente! Piranha boa faz o serviço até com avc. Trabalho é trabalho. Ou trabalha direito ou arruma outra profissão, caralho. Onde o Ivan arruma essas mulheres sem classe? Puta que pariu!
Todo mundo sabe que sou pokopika, dou bem com todo mundo, mas tem limite. Tem que meter o pé no Ivan. Fico puto, desisto da mina, Ivan entra, vê a puta lá, deitada, com pinta de piranha mal-amada, ele diz: ela tá paga, vou aproveitar. Eu quis nem saber, casquei fora.
Volto pra pista, danço, danço, danço e a mulher sai chorando, Ivan atrás, uma quizumba. A garota grita: vou na polícia, no jornal, na televisão, no papa. Quero nem saber dessa merda.
Eu fui porque ela me chamou com o dedinho, meu pau nem colaborou, fiz nada, bola fora. Nem gol contra, nada. Nada, nada, nada. Essas putas sem contrato, só problema, só extorsão. Sou casado, irmão, posso meter nessas roubadas não.
Pior, sou chique e rico, vão querer tirar dinheiro de mim. Aviso logo: não pago mais nada, tira do seu, do Ivan, do rabo de outro, não pago mais nada, tô fora.
Na verdade, o Ivan tá fora. Você, Mano, se não fosse meu parça, ia dançar junto. Fica a dica: segue o script, carimbo, contratinho, profissa e pronto. Fica tudo bem.
Abraços irmão. Até mais.
Carta anexada como prova no processo em que o Ministério Público move contra Mano e seus parças por crime sexual.
