(Bruno Vicentini)
1.
Você sente o toque gelado do metal da maçaneta.
Com meio giro do teu pulso, você libera o trinco e empurra a porta, que abre com um rangido e não encosta na parede porque encosta antes numa galinha de crochê cheia de areia, que serve de peso de porta.
O primeiro indício de que você entrou no apartamento errado podia até ser essa galinha (de crochê e cheia de areia, que serve de peso de porta), mas não é. O primeiro indício de que você entrou no apartamento errado é o cheiro que você sente ali dentro, antes mesmo de erguer os olhos da galinha e de encarar a cena que te espera no interior do apartamento, seja ela qual for. O cheiro não é o da tua casa, o cheiro familiar e hospitaleiro da tua casa, dos teus, das tuas coisas; mas sim um outro, um cheiro estranho.
(Quando você era criança, ia brincar na casa dos teus amigos e cada um dos apartamentos tinha seu próprio cheiro. Cada andar desse prédio, onde você nasceu e cresceu, tinha um cheiro diferente do cheiro dos outros andares. Você saía do elevador e já sabia onde estava. Podia se guiar de olhos fechados.)
Esse cheiro que você sente agora não é o cheiro da tua casa, nem da casa dos teus amigos. De quem, então?
Você vê a galinha de crochê cheia de areia, que serve de peso de porta, mas é como se não a percebesse. Você fecha os olhos e puxa o ar com força. O cheiro tem algo de doce e qualquer coisa de podre. Não é o cheiro da tua casa, nem da casa dos teus amigos.
2.
Você percebe que, pensando bem, o cheiro inquietante do interior do apartamento não tinha sido o primeiro indício.
As portas dos apartamentos são todas iguais, é verdade, talvez por isso você possa ter se enganado. Mas os tapetes não, os tapetes que ficam na frente das portas são todos diferentes, e não há no prédio inteiro um tapete igual a outro. (Também não há uma única porta sem um tapete na frente.)
Você não reconhece o tapete sobre o qual agora está de pé. Devia ter percebido antes de abrir a porta. Não foi você quem o comprou.
(Você se lembra, só agora, de que os teus sempre deixam a chave da porta sob o tapete da entrada.) Você mexe os dedos dos pés, tenta tatear uma chave que talvez estivesse debaixo do tapete, mas não consegue sentir nada, porque esse tapete é grosso demais. Pensando bem, agora que a porta já se abriu, uma chave seria um acessório inútil. Você podia talvez usá-la como um pingente, pendurá-la num cordão junto ao pescoço, algo que você viu num filme uma vez, um adereço que suscitaria mais dúvidas do que traria respostas.
3.
Antes disso, no entanto, o porteiro do prédio já tinha sido um indício, você sabe agora. Ora, você nem mesmo o conhece. O que talvez signifique que ele também não conheça você, mas não necessariamente. Você conhece muita gente que não te conhece de volta.
Mas ele te deixou entrar, não deixou? É um mau porteiro, devia ter te barrado. Ele te olhou de um jeito ameaçador, é verdade, como quem fosse te interpelar, te perguntar o destino, mas no fim ele não disse nada. Enquanto você esperava o elevador, ele não tirou os olhos da sua nuca, você podia sentir. Você deu as costas e fingiu que não era contigo. Evitou o olhar questionador do homem como pôde, ou seja, ficou o tempo todo de costas, com as mãos nos bolsos. Você até assoviou, baixinho.
(O porteiro é um mau porteiro. Você quase não o percebe como um indício.)
O elevador chegou depois de um bipe. Você se lembra de abrir a porta com uma calma estudada, um gesto que se pretendia livre de qualquer suspeita, enquanto tentava não andar muito rápido, nem muito devagar, como num passe de dança de quem não sabe dançar e não quer que ninguém no salão perceba, quer respeitar o andamento da canção, não quer pisar no pé do parceiro.
4.
Voltando mais um pouco: um amigo teu escreveu um conto, que se passa na rua da tua casa. O nome do conto é algo como: Os Crimes da Rua-da-Tua-Casa. É claramente inspirado no Edgar Allan Poe, Os Assassinatos da Rua Morgue.
(Não, inspirado não, é antes uma paródia. O conto do teu amigo é uma paródia.)
Sempre que você caminha distraída pela rua da tua casa, você gosta de imaginar que está andando pela rua do conto do teu amigo, muito embora as duas, a rua do conto do teu amigo e a rua da tua casa, não sejam na verdade a mesma rua. Uma delas realmente existe. A outra é só a rua da tua casa.
5.
Voltando ainda mais: você sabe que nesta cidade, em algum outro lugar (um lugar, de certa forma, anterior à tua rua, no sentido temporal ou geográfico, considerando-se a tua caminhada distraída), há outro indício de que hoje, dia nove de abril de 2022, você entrou no apartamento errado. O fato de você não o perceber não é tão importante assim. O importante é não se perder na contagem.
6.
Você sente o toque gelado do metal da maçaneta.
Com meio giro do teu pulso, você libera o trinco e empurra a porta, que abre com um rangido e não encosta na parede porque encosta antes numa galinha de crochê cheia de areia, que serve de peso de porta. Você fecha os olhos e respira fundo. Não reconhece o tapete sobre o qual agora está de pé. O porteiro é um mau porteiro. A outra é só a rua da tua casa. O importante é não se perder na contagem.
Talvez a tua mãe, que já foi confundida tantas vezes com você, tenha resolvido cozinhar uma jaca na panela de pressão, tenha levantado de manhã cedo e comprado na feira bananas maduras demais e um tapete novo, além de uma galinha de crochê cheia de areia, que serve de peso de porta, tudo isso antes de você chegar da tua caminhada distraída. O porteiro é novo, ele não te conhece. Mas pode já ter conhecido a tua mãe, e te deixou entrar porque achou que você fosse ela.
Você não leu o conto do teu amigo, Os Crimes da Rua-da-Tua-Casa, apesar de se lembrar do título. Você não sabe de que crimes ele trata, mas, seis ou sete indícios depois, você sente medo de abrir os olhos e encarar a cena que te espera no interior do apartamento, seja ela qual for.
