por Américo Paim
– Conta aí, véi.
– Ô, Virso, de novo?
– É aqui pro cumpade Joça. Ele num conhece. Quequecusta?
– Então, bota mais uma gelada.
Ô, Joça, isso tem uns cinco ano, mais ou menos. No tempo que me prenderam. Eu já tinha tomado um monte de sopapo. Tava de algema no pé e na mão naquela sala pequena e fedorenta no fundo da delegacia, numa cadeira meio bamba. Apostei que os meganha ia cansar de me bater. Que nada. Entrava um e saía outro. Eu num guentava mais. Tudo me doía. O delegado voltou e achei que eu ia acertar minhas conta com São Pedro.
– E então, o galo cantou?
– Inda não, Dr. Leite. Ele gosta de um tabefe.
– Você tão é moles.
– O senhor autoriza os brinquedinhos?
– Eu o quê? Você nem me viu aqui, sua besta.
– Sim, senhor.
– Cidadão, facilite as coisas.
– Mas eu já disse o que sei.
– Quer proteger quem?
– Ninguém não senhor.
– Você pode desaparecer e nem vão saber…
– O senhor tá me ameaçando?
– Eu? Nem vim aqui. Você é surdo?
Me encarou, veio por detrás e começou a dobrar meus braço pra cima das costa. Gritei e me deram foi mais broca. Desisti e pedi pra falar. O delegado sentou de frente para mim, suando. Cuspiu no chão, acendeu um cigarro e me soprou a fumaça na cara. Apagou a brasa na minha coxa e eu segurei o berro. O riso dele cheio de dente podre me dava nojo. Se pudesse, matava o fidiputa ali.
– Eu tava no mato, pros lado da serra, doutor.
– Isso eu já sei.
– Chovendo muito, já tudo escuro.
– E foi parar na cabana abandonada de Cabaço. E daí?
– Pois é.
– Tá me pirraçando, rapaz? Quero o resto.
– Tinha mais gente lá.
– Ah, agora sim. Quem tava com você, precioso?
– Um home roliço assim feito o senhor.
Ele me deu foi um murro na boca e eu caí com cadeira e tudo. O sangue correu na hora. Os ajudante dele caíram no riso e ele deu uma bronca. Me endireitaram de novo. O gordo tava brabo.
– Que confiança é essa, condenado? Tá louco?
– Eu só tava contando.
– Pense bem no que vai falar, idiota.
– Pois era um home assim que nem eu disse e tinha uma tatuagem de flor no braço esquerdo.
– Como era a cara dele?
– Era redonda. Sujeito cabeludo e ficou o tempo todo de óculos escuro.
– Mas não era noite?
– Apois, eu bem que estranhei, vou falar pro senhor…
– É pouco. O que mais?
– A voz dele era baixa e tava com um trabuco na mão.
– Como foi a conversa?
Já que eu tava sem saída, contei logo foi tudo.
Que eu entrei na cabana e tomei um susto da desgraça com a lamparina acendendo. Que de fora não dava pra saber que tinha alguém ali. Olhei pro cabra e ele falou foi calmo.
– Sente.
– Eita susto. Achei que aqui tava foi vazio.
– Tá perdido?
– Eu…
– Não sou polícia, pode falar. Conheço de longe quem tá encrencado.
– Precisava esconder. Tem uns cara no meu pé aí…
– Fez o quê?
– Um eu tô devendo dinheiro e o outro eu peguei a mulher.
– Que beleza…
– Foi culpa minha não. Ela é siboteira mermo.
– E o dinheiro?
– Foi no jogo. Apostei, perdi e vazei.
– Vai sair da cidade?
– Oxe, pra onde? Nunca saí de Pedra Velha não, senhor.
– E a região aqui? Conhece bem?
– Não tem segredo pra mim não.
– Ótimo. Veja, essa questão do dinheiro se resolve.
– De que jeito?
– Você me faz um serviço, um leva e traz.
– E como chama o senhor?
– Meu nome é Francisco Oliveira Prazeres.
– É daqui?
– Sim. Estive fora muito tempo. Qual é o seu nome?
– É Antônio José da Silva.
– Então, está interessado?
– Oxe, se nem falou o que é?
Eu ia perguntar como ele chegou ali, mas danou a falar das viagens dele por aí pelo estrangeiro. Contou sobre um tanto de lugar e que acabou na China. Ficou um tempo grande, tudo escondido, ilegal. Disse sobre as coisa que o povo faz por lá, que descobriu que se come de um tudo. É inseto, é cachorro, é cavalo e por aí vai. Deu nojo e até achei estranho. Ele falou que tinha como ganhar muito dinheiro com um bicho que tem aqui no Brasil e lá tem pouco. Eles usa pra fazer remédio e essas coisa de mulher, maquiagem, creme e não sei mais o quê. Uns nome que eu num decorei não. E comem o pobre também. Ele me explicou.
– O que eu preciso tem aqui.
– Em Pedra Velha?
– Jumento.
– Epa, o senhor não vem ofendendo não. Só porque viajou pra fora…
– Não, rapaz, espere. Não falei de você. É o bicho.
– O burro?
– Não, o jegue. É diferente.
– E é?
– O burro vem do jumento, do jegue.
– Óia que eu não sabia. E vai levar isso daqui é como?
– Aí é comigo. Me arranje os jumentos.
– O senhor fala trazer os animal?
– Isso. Você leva pro lugar que eu vou dizer e eu lhe pago.
– E a como é?
– R$20 por cabeça.
– Mas é muito pouco.
– É o começo. Se der certo vai ficar rico, Antônio. É muita coisa.
– Então vou precisar é de ajuda.
– Não. Faça sozinho. Se contar pra mais alguém, vai ter problema.
Ele aí abriu um mapa e mostrou um terreno ali perto da lagoa, pros lado do Carneiro Gordo, mais distante da vila dos matuto. Pouca gente conhece. Combinou toda sexta na cabana pra me pagar. Me deu um dinheiro de cara, uma merreca. Mandou eu ficar longe da cidade. Aí comecei a reunir os bicho. De primeira foi fácil. Tem muito jeguinho largado por aí, no mato. Arrumei uns trinta assim. Ele me pagou. Quando já tinha mais de mês, escasseou e fui falar pra ele que tava difícil e tal e coisa. Ele disse que o acerto era cem jumento e eu tinha que cumprir. Os comprador não ia gostar e ia tudo bater na minha porta. Fiquei com medo, não vou mentir. Falei com ele.
– Mas Seu Francisco, tô achando mais não.
– E as fazendas?
– Oxe, aí têm dono.
– Nem vão perceber. Tira um aqui, outro ali.
– E se me pegarem?
– Problema seu. Não tem mais volta.
– Isso num tá certo.
– Já expliquei: os homens não têm muita paciência.
– Não dá pra pagar mais?
– Vou lhe pagar R$22 por cabeça. Seja rápido. O prazo tá acabando.
– O senhor não falou de tempo.
– Agora já sabe.
Fiquei sem dormir. Fui longe que só atrás dos bicho. Pegava um ou dois por lugar, bem na moita. Quando já tinha arrumado pra mais de oitenta jumento, disse a ele que já tava com três meses naquilo e num guentava mais não. Ele ameaçou. Disse que ia sobrar pra mim, que descobriu que tinha um peão me ajudando e que iam apagar nós dois. Eu num acreditei, só que aí apareceu o corpo de Severino no matagal, pouco tempo depois. Eu gelei. Não demorou, a polícia veio atrás de mim e eu procurei o home na cabana. Ainda faltava uns dez jeguinho pra cumprir o trato.
– Vá buscar os que faltam.
– Mas tá difícil.
– Não sabe onde tem?
– Só sei de Cansanção e eu não vou roubar o sustento de Seu Jozélio não. É padrinho de minha irmã.
– Você viu o que aconteceu com seu peixe.
– Foi maldade matar Severino. Que mal ele fez?
– Eu avisei. Não tem moleque aqui.
– Mas Seu Francisco…
– Como é? E os dez?
– Ah, num guento mais não. Eu desisto.
– Você é muito burro. Quer morrer?
Mal ele se mexeu, eu derrubei a lamparina. Ele deu uns disparo, mas escapuli e corri dali. Já tava longe, só que no desespero escorreguei e caí do penhasco, na beira da estrada. Um povo dali me catou no chão, todo desmilinguido. Fiquei mais de mês no hospital, até operação teve, me costuraram todo. Depois a polícia me prendeu.
– Foi isso, doutor. De lá pra cá só tô tomando essa surra de gato morto.
– A gente já tava de olho nesse contrabando.
– Apois. Então é só pegar o home.
– O problema é que não tem ninguém com esse nome que você deu.
– Oxe, seu delegado, ele tava lá, em carne e osso. Eu vi!
– Até acredito, mas o nome dele não existe.
– Ué, era fantasma?
– Não. Era esperto, profissa.
– E agora?
– Eu quero saber é das pedras.
– Que edras?
– Não me provoque, seu animal.
– É o quê, meu jesus?
– As pedras preciosas que eles mandavam pra fora do Brasil.
– Eu num sei o que é isso não.
– Misturavam na carne dos bichos. Tudo lá no tal do terreno.
– Eu tô é bege, doutor.
– Tu vai ficar é roxo se continuar com a palhaçada.
– Pelo que há de mais sagrado que eu não sabia de nada disso.
– Vamos continuar a nossa conversinha.
– Num me bate mais não, por favor. Já tô todo quebrado, doutor.
– Isso é verdade. Sua ficha tem fratura em costela, calcanhar, cotovelo, perna. E ainda essa cara feia.
– Se fosse só isso… E a esculhambação?
– Como assim?
– O povo agora só me chama de Antônio Remendado.
