Silvia Argenta
Caríssimo Teixeira,
Muito me emociona em saber que chegastes bem em casa depois de tantas aventuras e desventuras em terras estrangeiras. Imagino seu semblante ao voltar a sentir o cheiro do café mineiro da própria lavoura. Quem diria que isso seria possível depois de tanto tomar Nescafé com água fria… Espero logo também receber notícias de Antenor, direto de Mossoró.
Assim como você, não tenho tido noites tranquilas. Custo a acreditar que um dia conseguirei dormir bem novamente. Tanto durante o sono quanto ao longo do dia, a voz alta do comandante Ferraz surge do nada na minha cabeça, dando ordens como se eu ainda fosse pracinha. Ontem dava comida para as galinhas quando ouvi: “sargento Mendes, termine logo a distribuição das munições porque estamos atrasados”. Até dei risada e associei as balas das espingardas aos grãos de milho que jogava no chão do poleiro.
Os berros do comandante são constantes no meu imaginário porque ainda não acredito no que ele nos fez passar. Mandar que a gente entrasse naquela floresta escura, nos arredores de Lucca, sem a menor estratégia e noção se o inimigo estava por perto. Só depois que descobrimos a quantidade de minas ali do lado. Os tedeschi colocavam os artefatos no chão, se mandavam e a gente corria atrás. Ainda tenho dúvidas se foi ignorância ou premeditação. Nessas horas agradeço o quanto Nosso Senhor estava do nosso lado.
E ainda teve o caso do Agripino Vargas para piorar a situação. Aquilo foi uma bobagem dele… Ficou louco na trincheira e saiu correndo contra o inimigo. Morreu daquela forma, atingido por rajadas dos alemães, bem na nossa frente sem que pudéssemos fazer nada. Mais uma vez o comandante Ferraz se absteve de sua condição de nos orientar. Foi muita covardia o que fizeram com a gente. Tão jovens… Apesar de eu não ser loiro de olhos claros, me identificava com os soldados inimigos. Éramos rapazes iguais nos sonhos e esperanças, creio eu. Gastamos nossa energia da juventude para atender interesses que não tínhamos nada a ver.
Por outro lado, a gente não podia vacilar porque os tedeschi eram muito astutos. Como a ordem, como se diz, era matar para não morrer, nós de dupla fizemos algum estrago por lá. Ainda tenho a lata de manteiga cheia de cordões de ouro que tiramos dos inimigos mortos pelo chão. O que mais tenho é pingente de cruz e do rosto de Jesus. Aqueles garotos até podiam ter tido uma educação cristã, mas não sabiam aplicar o bem. Também peguei algumas alianças com os corpos ainda quentes. Depois que esfriavam, era mais difícil de retirar os anéis dos dedos inchados. Alguns que encontrei nessa condição, taquei-lhe o facão nos dedos porque não tinham mais serventia.
Na minha lata também tem uns dentes de ouro que devem valer um bom dinheiro. Lembras de um alemão falecido que desenhamos um bigode acima dos lábios com a ponta da faca? Esse cabra parecia mais velho do que a maioria dos combatentes porque, além de algumas rugas no rosto, tinha uma pequena barriga saltada para frente. Provavelmente recebia ordens da alta cúpula. Ficou de bigode e banguela.
Até as placas de identificação e umas insígnias tenho guardadas. Não entendo uma palavra. Enfim, catamos tudo que eles tinham, igual galinha atrás de milho. Não sobrava nada quando encontrávamos um defunto inimigo. O que fizestes com as joias que pegastes por lá? Ainda não sei o destino das minhas… se faço uma doação para a igreja ou se arranjo uma joalheria para vender. Talvez em Guarapuava eu consiga fazer isso, mas ainda não tive cabeça para mexer nessas coisas.
Teixeira, Teixeira… minha tristeza é compreender agora o quanto fomos iludidos. Antes disso tudo, só tinha ouvido falar em Solano López, mas nem entendia direito o que tinha acontecido no Paraguai. Depois que fui recrutado, fiquei dois anos confinado no batalhão da Lapa e o que aprendi sobre guerra? Eu só jogava carteado e dava umas voltas pela cidade nos horários de folga. Depois, no Rio de Janeiro, quando te conheci, nós ficamos enclausurados feito animais. Todos os dias era aquela expectativa de embarcar, mas isso só foi ocorrer em dezembro de 1944. Quatro meses nesse chove não molha, o que nos deixou em estado de aflição pelas incertezas. Dentro de uma aglomeração, uma quantidade de gente assim, os temperamentos são variados. Tem o covarde, o bandido, o medroso, tem de tudo. Ali o comandante Ferraz já mostrava que não entendia nada de controlar as emoções dos elementos da tropa.
Agora com toda a situação mais nítida na cabeça, me sinto tranquilo para te contar que por diversas vezes o comandante Ferraz citou o seu nome para as atividades mais arriscadas, não pela sua valentia e coragem (características essas que ninguém pode refutar), mas pela sua cor de pele. Quando ficamos encurralados nas trincheiras por três dias perto de Livorno, ele sugeriu que o ‘negrinho invocado’ deveria se expor ao inimigo para encontrar uma rota de fuga para o resto da tropa. Não tinha o menor cabimento essa proposição, já que ali havia oficiais de alta patente com mais conhecimento do que a gente para agir numa situação daquelas. Na minha ingenuidade na época, achava que eles saberiam o que fazer melhor do que qualquer um dos pracinhas. E, além disso, com tantos soldados inexperientes, por que escolheram justo você? Eu, na qualidade de sargento, fui prontamente contra a determinação e avisei que se arriscassem qualquer um da tropa, todos os soldados deveriam se expor juntos no campo de batalha. Por sorte, uma das nossas granadas atingiu o comandante inimigo e as tropas alemãs recuaram, o que nos permitiu sair dali sem grandes percalços.
Não poderia prever qual seria sua reação a um fato como esse. Só lhe digo isso agora porque sempre admirei sua determinação, mas fiquei com receio de que pudestes extrapolar e causar algum dano ao comandante Ferraz. Seria legítimo de sua parte, no entanto entendi que naquele momento poderia provocar problemas ainda maiores para toda a tropa. Espero que o amigo compreenda.
De fato, concordo com você, no Brasil não tem ninguém preparado o suficiente para instruir soldados a ir para uma guerra. Fomos sacrificados por conta dos nossos naviozinhos bombardeados por submarinos alemães. Isso foi uma maneira de forçar o Brasil a entrar na guerra. Tenho para mim que na verdade foram os americanos, mas a desculpa do interesse de Hitler em exterminar os índios brasileiros e fazer predominar o sangue azul por essas bandas até fazia sentido na ideologia deles. Graças a Deus não conseguiram executar seus planos por aqui. A gente não tinha nada que ver com guerra.
Aguardo ansiosamente um novo contato seu. Na próxima carta, conto como estão os preparativos para o noivado e as novidades aqui da fazenda. Já adianto que tudo está indo conforme o planejado.
Abraços do seu estimado amigo Zico.
Palmas/PR, setembro de 1946.
