Ela existe?

Ela existe? (de Carolina Schettini)

Existir é verbo intransitivo. Não precisa de complemento. Eu existo. Você existe. Ela não existe. Quer dizer, ela não tenho tanta certeza. Algumas vezes existir é questão de oportunidade. Querem ver?

1- Um ou dois?

— Não me lembro que horas você chegou ontem.

— Foi tarde.

— Tarde?

— Bem tarde.

— Quero te mostrar uma coisa.

Duda anda até o banheiro e volta com uma camiseta rasgada. Mostra a Du. 

— O que foi isso?

— Uma briguinha de nada.

— Uma briguinha?

— Não se lembra?

— Não.

— Você é esquisita.

Duda faz um muxoxo e mostra uma mensagem no celular a Du.

— Mamãe quer vir aqui.

— Aqui?

— É.

— Quando?

— Não sei.

— Melhor você se encontrar com ela.

— Tá bom. Da última vez foi você mesmo.

Duda dá de ombros. Tanto faz. Desde que não tenha que se maquiar para ir ao casamento no domingo.

— No casamento, vai você, então.

— Eu?

— Você tem um terno novo.

— Poxa.

— Eu vou aguentar mamãe.

— Verdade. Vou ficar te devendo.

Duda desliga a luz para dormir. Du puxa a coberta. 

— Tá tarde demais.

— Boa noite.

— Amanhã, sai eu ou você?

— Vai você. Ando muito cansada.

Os dois nunca saiam juntos. Porque um era um. O outro era o um também.

2- Dois ou um?

— Acha que compro uma chaleira?

Milena procura por preços na internet.

— Uma chaleira faz barulho. Uma chaleira apita. Apita mais que um trem.

Milena sente o silêncio em volta. Ela nunca diz nada. Não responde. De que adianta uma companhia que não completa? Uma companhia não companhia. 

— Uma chaleira apita quando a água esquenta.

Milena continua falando alto. Fazendo propaganda. O poder do convencimento sendo aplicado ao vivo. As aulas de marketing. As lives do Instagram.

— Adoro chá. Fervo a água na quieta da panelinha. Se eu comprar uma chaleira, vai apitar, apitar, apitar, apitar e apitar. 

Uma mudança e tanto. Um apito no silêncio. Ela nada diz. Deve estar de acordo. Milena coloca a chaleira no carrinho virtual, tira, coloca, tira e compra.

Um chá de camomila, um de hortelã, um de melissa e outros tantos de valeriana depois, toca a campainha. Elas se assustam. Ninguém as visita. Milena abre a porta, recebe uma caixa grande. Bem grande. Vem embrulhada em um saco prateado. Uma caixa encantada. Milena espia dentro da embalagem, antes de puxar o prêmio para fora: a chaleira. Segura como um troféu. Milena vai direto para a cozinha. Coloca a chaleira sob a pia. Seu coração palpita enquanto a água a completa. Ela continua quieta. MIlena liga o fogão. O fogo mais alaranjado do que um cabelo de curupira, sopra. Um minuto. Dois minutos. Outro minuto. Piiiiiiiiiiiiiiiiiii.

Milena respira de boca aberta. Seu peito enche e solta o ar em respiração de ioga. Milena não está mais sozinha. Um barulho. A solidão foi embora. 

3- Um? Nenhum?

Cristina e Ana Paula descansam após horas dançando marchinhas antigas de carnaval, tomando um ar do lado de fora do salão. Cristina começa:

— Pensei em ligar pro Fábio.

— O Fábio tá morando em Bariloche.

— Eu sei. Posso ligar de zap.

— Pra quê?

— Pensei que eu combino com ele.

— Você?

— É.

— Ele tá namorando.

— Namorando?

— Firme.

— Ele te disse?

— Disse. Estão firmes.

— Como ela chama?

— Não sei.

— Você não perguntou?

— Não. Ele disse que ela era modelo, saía em capa de revista.

— Ele te enviou foto?

Ana Paula nem responde. Puxa a amiga pelo braço para dentro do baile, justo na hora que toca “se você fosse sincera, ô,ô,ô, Ana Paula”. Não falaram mais sobre o assunto. Nem em Fábio. Nem em namorada de Fábio. Páscoa, festa junina. Se encontram no desfile de Sete de Setembro. Sentadas na arquibancada assistindo à parada, Cristina comenta:

— A Maria viu o Fábio numa livraria em Bariloche e ele estava sozinho.

— Quando?

— Nas férias.

— Ela foi esquiar?

— Foi ver neve. 

— Você não sabe o que aconteceu.

— O quê?

— O Fábio viajou com a namorada para esquiar. Ela, metida a esquiadora profissional, desce numa montanha pra expert, no meio de uma nevasca, cai do esqui e quebra a perna. Em um monte de pedaços. Era osso pra fora, fratura exposta, sangue e tal. Maior transtorno. Ele me ligou e me falou por horas: tiveram que ir embora antes da reserva acabar, maior prejuízo. Foi difícil sair de lá, chamaram helicóptero, ela acabou operada, engessada, blá, blá, blá. No final, tá morando na casa dele. Vão ficar noivos até.

— Nossa. Rápido assim?

— Pra você ver. 

— Ele te liga sempre?

— De vez em quando.

— Ele vem pra festa da escola?

— Se ele vier pro aniversário da mãe , capaz.

— Será que vai trazer a noiva?

— Se ela já estiver sem gesso, andando sem ser em cadeira de rodas, provável, né?

Pronto. Assunto encerrado. Proclamação da República. Dezembro. Festa da escola. Ana Paula chega primeiro. Encontra Fábio.

— Presta atenção. Se a Cristina te perguntar, você está noivo de uma modelo e sua noiva não veio porque quebrou a perna esquiando. Prestou atenção?!

Viram? Está provado. Existir é verbo intransitivo. Eu existo. Você existe. Ela não existe. Na gramática. Na vida real, tudo depende da conveniência e oportunidade. 

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