Modulações


O corrimão de ferro estava decorado com festões. Ao lado da escada, Núbia dobrava o corpo sobre o piano e apoiava o queixo com as duas mãos no tampo fechado da cauda. O piso de porcelanato refletia a árvore de Natal. As luzes coloridas ficavam empalidecidas pelas lâmpadas brancas do lustre pendente. Elvira fazia as fotos.
– Filha, este seu cabelo claro morre no branco da blusa. Jogue tudo sobre o ombro esquerdo. Devia ter comprado uma cor mais viva – a mãe mudou o foco para o pratos com filetes dourados, guardanapos com motivos de neve e uma cesta de palha com talheres. Depois, os copos distribuídos entre o balcão do bar e uma mesa lateral.
– A outra era vermelha. Não lembra? – a filha conferiu a maquiagem na tela do celular, leu e enviou uma mensagem.
Elvira deu um sorriso. Ela sabia que, por questões políticas, a filha não gostava da cor.
– Olha aqui as fotos. Você está linda! O batom escuro deu vida no rosto.
Núbia pegou a câmera e conferiu as imagens.
– Esta que esconde a barriga e os braços gordos ficou melhor.
– Bobagem. Todas boas, depois você escolhe a nova pro seu perfil.
Núbia dava aulas de música, cantava em eventos corporativos, casamentos e festas sem distinção de credos religiosos ou políticos. Sabia que para seu trabalho era fundamental dissimular convicções. O seu ponto de vista político expunha nas redes sociais sob o apelido de Lena Retrete.
A família não conhecia Lena Retrete, ela era a Nubinha. Núbia dos Santos, nascida e criada num condomínio fechado em Barueri a poucos quilômetros de São Paulo. Um texto, na página para a divulgação do seu trabalho, contava que era formada em música, professora de piano, cantora e multi-instrumentista.
– Vai conseguir fotografar todo mundo?
– Pelo menos uma com todos ali na escada.
– As minhas já estão garantidas – ela se sentou ao piano e aqueceu os dedos com um “Noite Feliz”.
Do meio de novembro até o final do ano, as músicas de Natal eram as que ela mais tocava. Núbia fez parte de “As Pequenas”, uma banda cover de sucessos pop. O grupo de quatro meninas tocava em festas de frutas e exposições de gado pelo interior de São Paulo no final dos anos 90. Dividia as apresentações com duplas sertanejas e grupos de pagode.
– Vou fazer só mais estas – era visível a emoção de Elvira com a música de Natal. Ela circulou o piano e os movimentos do corpo com os cliques da câmera acompanhavam a música.
Núbia bem que tentou, mas não conseguiu conciliar a vida de estudante e filha única com as viagens da banda. Os conselhos dos pais fizeram com que aceitasse uma vida regrada. Ela deixou “As Pequenas” sem sua participação no baixo. Tinha saudades da casa, de Charminha, a mini poodle branca e de Bento, o namorado desde os treze anos. Não esperava que, logo depois da sua decisão por uma agenda de eventos mais tranquila, Bento rompesse com ela, abandonasse a faculdade e a família para trabalhar com esportes radicais na Austrália. Tem trinta e cinco e continua a viver com os pais.
– Devem estar chegando – Núbia parou a música e em seguida Elvira desligou e guardou a câmera. Maurício vinha descendo as escadas ajeitando a gola da camisa pólo amarela sobre as bermudas bege que sempre eram bege e combinavam com os mocassins um tom mais escuro. Elvira achava que se o marido usasse calças, combinaria melhor com seu vestido longo e brilhante sobre a cinta modeladora.
Assim que a portaria anunciou os primeiros convidados pelo interfone, pai, mãe e filha se posicionaram diante da porta de madeira escura da entrada. Repetiram os mesmos gestos e sorrisos de gentileza a cada uma das vinte e cinco pessoas que foram tomando os sofás e cadeiras da sala que se abria para um pequeno jardim com piscina. Os três iguais e ensaiados. Todo ano, por interesse comercial ligado a sua empresa de administração de condomínios, Maurício convidava alguém novo para se juntar ao grupo.
– Fique à vontade – os três anfitriões faziam questão de repetir a frase a cada um dos novos convidados, bem como de apontar lugares da casa como um reforço ao acolhimento.
Nos intervalos das gentilezas, Núbia voltava ao perfil de Lena Retrete para consultar e enviar mensagens . Esperou todos chegaram, para se acomodar na banqueta do piano e continuar a escrever .
– Nubinha, toca as de cinema? – tia Élida, irmã de Elvira deu início aos pedidos.
Ela deixava o aparelho por uns minutos, tocava e logo voltava às mensagens. Na festa familiar, sem o compromisso profissional, a música servia só para preencher os vazios nas conversas. Núbia, assim, tinha tempo para Lena.
No pequeno teclado tocava as letras para compor e enviar a palavra de sempre. Lúcia Retrete era uma criatura conhecida no mundo virtual. Tinha desenvolvido um bordão ofensivo e de desprezo composto por duas sílabas que distribuía, em letras maiúsculas, pelas publicações contrárias a suas crenças e conceitos. Há pelo menos cinco anos, frequentava salas de bate-papo virtuais recomendadas por ex-colegas de colégio e amigas do clube .
Aos olhos de Núbia a festa seguia um roteiro previsto e gostava de tocar para sentir distância dos convidados. Aos olhos de Lena, ninguém da sala interessava. No mundo virtual, a sensibilidade com a música cedia espaço à compulsão de comentar em posts. Quem prestasse mais atenção, via seus esgares de prazer ao enviar a mensagem padrão de Lena Retrete. O gozo de Núbia era ser a personagem.
A noite de Natal, no entanto, era desfavorável em manifestações. As mensagens de afeto e paz superavam os debates. Lena, bastante contrariada, voltava-se à Núbia que, sentada ao piano, intercalava as músicas de filmes, chorinhos, clássicos populares com alguns copos de uísque. O telefone pousava ao lado. Vez ou outra, alegrava-se com uma notificação, mas era pouco para Lena Retrete.
À meia noite, após renovados cumprimentos com troca de presentes, músicas incompletas e improvisos substituíram o burburinho das conversas.
– Vamos fazer uma foto na escada? – Elvira chamou os convidados. Núbia derrubou a banqueta do piano ao se levantar, mas conseguiu seguir em linha reta com seu salto alto até o primeiro degrau da escada. Para esta foto, sua mãe armava o tripé e um disparador automático. Foram três fotos até a sonolência tomar conta da sala e os convidados começarem a se despedir. Um a um recebiam dos donos da casa, os mesmos gestos delicados da chegada. Núbia, mesmo embriagada, mantinha-se firme como a filha atenciosa.
Tia Élide foi a última a sair. Elvira e Maurício trancaram a porta, acenaram de longe para a filha e subiram para o quarto. A sala sem convidados e sem os pais tinha se esvaziado também de ruídos. Ao lado do piano, Núbia esquadrinhou o ambiente e os resquícios da festa. Checou mais uma vez as suas fotos como Núbia, amassou os guardanapos, recolheu talheres, pratos, apagou as luzes coloridas, encheu um copo com o que tinha restado de uísque, pegou o celular e subiu as escadas. Subiu descalça, apagou a luz branca do lustre pendente no comutador da antessala de cima e seguiu tateando a parede até o quarto.
Foi Lena Retrete quem abriu a porta, fez os exercícios vocais de Núbia e gargarejos com o uísque, conferiu as notificações do celular e disparou algumas vezes sua ofensa padrão. Não tinha sido uma boa noite. Abriu a janela para a ampla visão do jardim e a vizinhança distante. Apoiou-se ao parapeito, sentiu um bafo morno e percebeu clarões anunciando chuva. Tomou mais bebida, mirou a escuridão e, com a fala pastosa, gritou seguidas vezes, as duas sílabas do seu bordão:

  • CA-GUEI, CA – GUEI, CA -GUEI
    A voz, ainda afinada, parou nas cercas do condomínio.

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