Trombetas do Apocalipse, buzinas de carros anunciam o fim dos tempos. Enquanto escova os dentes, Irene se inclina na sacadinha para enxergar o pedaço de rua visível entre seu prédio e o esqueleto em construção bem ao lado. Só nesse trecho, há vários automóveis e a traseira de um ônibus articulado, todos parados e tão colados um ao outro que nem um entregador de comida consegue passar no corredor com a moto.
É isso. Acabou.
Ah, não seja dramática.
Heloísa choca sua caneca de café no ninho de suas mãos, sentada no sofá, de pijama e as meias brancas de solado encardido, talvez as mesmas que arrasta pelo studio desde a demissão do jornal, há sete semanas. Nesse tempo, não fez um trabalhinho como freelancer nem mandou currículo ou conversou com colegas atrás de oportunidades. Pegou o dinheiro da rescisão, aplicou em um fundo recomendado pela gerente do banco e se acomodou a essa fonte para cobrir as despesas, inclusive o restante das parcelas do imóvel. Ela dá um gole e começa a bolar um cigarrinho de maconha.
Dramática, é? Fácil pra você dizer. Não vai a lugar algum.
Irene, liga pro escritório. Você não é a única pessoa ferrada pela greve do metrô.
Se pudesse escolher, preferia te fazer companhia aqui a dirigir sua lata-velha.
Até que é bom você sair com ele, coitado. Não tem rodado muito.
Quero ver essa bosta ligar.
Cuida bem do meu Celtinha. Gosto dele, cabe em qualquer buraco.
Sorte sua. Em volta, só tem tanque de guerra estacionado em volta.
Na última reunião do condomínio, a síndica sorteou de novo as vagas da garagem e elas saíram do segundo subsolo para o primeiro. Por um lado, haviam se livrado do teto mofado, afetado por algum vazamento da canalização pública. A Sabesp até havia aberto o asfalto na saída da garagem para averiguar, mas fechou rápido, sem dar satisfação. Ainda tem água pingando sobre os veículos. A desvantagem era precisar mover a carruagem de outros moradores sempre que quisessem sair com a sua carroça.
Ao sair do elevador, Irene constata que sua prece não foi atendida: o Opala SS do Andrézinho do sétimo continua barrando a saída do Celta. Não bastasse ter o carro bloqueado, ainda precisa ser por um sujeito que aluga outras três vagas para guardar as preciosidades que reforma e revende. O único no prédio que se recusa a deixar a chave no contato, apenas o freio de mão solto. São sete e vinte da manhã e a publicitária está com a bolsa no ombro e as mangas da blusinha arregaçadas, colocando o peso do corpo nos saltos dos sapatos enquanto empurra um esportivo com motor de seis cilindros e 125 cavalos de potência. Com cuidado, pois nem pensar em riscar aquela lataria.
Agora, só precisaria tirar seu carro e empurrar o do vizinho de volta. Se conseguir entrar no Celta, espremido entre dois SUVs que fizeram o favor de parar próximos demais das faixas divisórias. É impossível abrir as portas dos dois lados. A moça suspira, antes de apertar o botão de abrir no chaveiro. Levanta o porta-malas, atira a bolsa dentro, puxa um pé na altura dos glúteos para alongar, depois o outro. Está na hora das sessões de pilates se pagarem. Ela entra no espaço de 260 litros e começa a forçar o encosto do banco ao mesmo tempo em que tenta liberar as travas laterais. Ao ouvir o clique, acessa o interior do automóvel, rastejando-se. Até ri quando se senta ao volante.
Um buzinaço se instala na garagem. Há outro carro tentando sair, mas o Opala atravessado na passagem não permite. Foda-se, que espere. Ela gira a ignição, uma, duas, três vezes até o motor acordar. Dá ré, o suficiente para encaixar o esportivo de novo no lugar dele. Ao sair, vê que quem está impaciente dentro de um Gol é a intragável da síndica. Irene sorri e acena, ciente de que isso vai deixar a velha ainda mais nervosa.
Dona Esther, esqueceu que não é permitido barulho antes das oito?
O que não pode é interditar a via, menina.
Não sou boa manobrista. Mas aguenta aí que já vou tirar.
Antes que a moça chegue atrás do Opala, o segurança Joelson se aproxima no trote e no grito, ajeitando a camisa para dentro da calça.
Pode deixar, pode deixar. Eu empurro o carro do André de volta.
Sua função é outra, Joílson. Não pode abandonar o posto por qualquer besteira.
Joelson, dona Esther. E meu turno não começou ainda não. Valdécio tá lá.
Obrigada, Joelson. Preciso ir ou me atraso pro trabalho.
Tem certeza, dona Irene? Tá tudo parado aí na rua.
É o fim. Obra pra tudo que é lado. Quanto mais prédio, mais gente. E mais trânsito.
A publicitária entra no carro e acelera rumo à saída. Pelo retrovisor, vê o segurança movendo o Opala enquanto a síndica fala sozinha, balançando os braços. O primeiro portão se abre e ela sobe a rampa devagar, parando logo em seguida, antes do segundo portão. O de trás se fecha e o Celta fica engaiolado, seguro pelo freio de mão. A demora para liberá-la se justifica pela barreira de automóveis na rua. Não há para onde ir.
Irene liga o rádio. Perdeu o hábito de ouvir notícias anos atrás, quando adotou o transporte público e começou a preferir livros no caminho para o escritório. Nem sabe em qual estação sintonizar para se atualizar sobre a greve e descobrir o trajeto menos carregado até o Itaim. Gira o botão sem muito critério. Hoje em dia, as pessoas só escutam rádio no carro. Identifica a palavra “quilômetros” e para. O locutor explica que o engarrafamento é recorde. Então, parabéns aos envolvidos. Pega o celular e manda uma mensagem para Heloísa.
Conseguimos. Acabou o mundo.
Com um áudio, a companheira responde em seguida, como se já estivesse colada ao aparelho, esperando notícias suas.
Falei… Pelo menos, virou a esquina?
Não saí nem do prédio, fofinha.
Tem helicóptero de TV zanzando direto. Mais de um. Com certeza, Vinte e Três travada também.
Nunca mais esses veículos vão se mexer. Morreremos aqui e as próximas civilizações vão construir uma nova cidade pouco acima das nossas cabeças, como em Roma ou na Grécia. Quando os arqueólogos do futuro escavarem, meu esqueleto ainda vai estar com as mãos no volante.
Hahaha Você é mesmo uma drama queen.
De novo, uma buzina se sobressai no meio da barulheira geral. Lá vem a síndica, antes do primeiro portão, desprovida de qualquer bom senso, esmurrando o painel, como se possuída por um demônio. Mas sua performance funciona para o porteiro acionar o segundo portão e colocar a responsabilidade do que acontecer a seguir nas mãos de Irene.
Putz, Ary, pra onde você quer que eu vá, meu filho?
A moça solta o freio de mão e avança até o ponto no qual o Celta fica quase no plano, a metade da frente já invadindo a calçada. Mas ela não pode ir além disso. Os carros não se mexem para que possa enfiar o seu. E ainda tem muita gente circulando. Uma procissão de trabalhadores. Vão a pé mesmo, uma prova de devoção à empresa. Talvez os motoristas devessem seguir o exemplo, largar os carros e sair andando. Se todos fizerem, será normal. Irene podia ter entrado na onda das bicicletas, mas nunca sentiu segurança de pedalar entre os veículos. As pessoas que passam tocam no capô. Uma mulher chega a dar duas batidas leves com as costas dos dedos. Tudo para sinalizar que foram obrigados a se desviar da máquina. Valdécio, o segurança no fim do turno, surge do nada na janela.
Que susto, Val. Achei que era assalto.
Foi mal, dona Irene. É que o carro não pode ficar aí.
Como assim? Onde ele pode ficar?
A gente tem ordem de não largar o portão aberto muito tempo, sabe?
Mas foi o Ary que abriu. Quer que eu volte? Se for mais pra frente, fecho a passagem dos pedestres.
A gente só pode abrir o outro portão se esse fechar. E dona Esther tá ali, né?
Ah, ela que vá pro inferno. Eu não tenho como subir naquele carro ali.
Péra que eu vou dar um jeito.
Valdécio se aproxima do motorista de um Audi, um tiozão de camisa polo listada e óculos aviador. Eles conversam, o segurança indica com a mão para a frente, depois para trás, mas só arranca um sorriso do sujeito quando aponta o dedo para Irene. Os dois homens balançam a cabeça, não, não, sim, sim, fechando a negociação com um encolhimento de ombros. O cinquentão tira os óculos e coloca a cabeça para fora da janela, conferindo o veículo atrás dele. Agora, Valdécio está de papo com o outro condutor, fora da vista da moça, encoberta pelo tronco de uma árvore. De repente, o Audi encontra um espaço para manobrar na ré.
Então, vou pra frente, Val?
Isso, dona Irene.
E espremo meu carro naquela brecha?
É só embicar ali. Assim, quando o trânsito andar, fica fácil pra senhora.
O funcionário faz movimentos de flanelinha, de forma aleatória, não que ajudem em algo. E sinaliza para um grupo de pedestres esperarem. Irene segue o plano, invade de vez a calçada e coloca a frente do Celta no asfalto. Bem ali, há uma semana, havia uma cratera enorme aberta pela Sabesp. Ninguém entrou nem saiu da garagem por um dia inteiro. Ainda se nota o remendo que deixaram quando foram embora. O segundo portão é fechado. Logo, os faróis do Gol da síndica aparecem no espelho do retrovisor.
A publicitária faz um gesto rápido com as mãos, agradecendo a gentileza do tiozão do Audi. Melhor nem olhar muito à direita para evitar que qualquer interação seja mal interpretada. Enquanto isso, os pedestres continuam demonstrando sua insatisfação por dar a volta no carro, agora dedilhando o porta-malas. Não pode se virar para trás ou para o lado. Muda de estação. Chega de notícias. Precisa de música para abstrair a situação, não pensar demais no trabalho, na pasmaceira de Heloísa e, principalmente, no trânsito. Caetano. Ainda toca Caetano nesse mundo de sertanejos. Nem sabe o nome da música, nem lembra da letra, mas fecha os olhos e cantarola por três segundos.
A buzina do Audi resgata a mulher do sonho. O fluxo de veículos se mexeu um pouco, liberando espaço suficiente para fazer parte dele. Irene acelera de leve e, enfim, está com as quatro rodas na rua, em teoria, indo a algum lugar. Seu celular vibra. Mensagem da companheira.
Avisa quando chegar. Tomei uma decisão.
Helô, se eu te contar onde estou, você não acredita.
Vou tirar um tempo pra escrever um livro. Sobre especulação imobiliária.
Irene tira uns segundos para respirar. Olha para o caminhão encostado alguns metros adiante, onde um dia ficavam duas casas e agora brotou um prédio, ainda em construção. Lembra da poeira e do barulho que suportam há meses. E de como a vista foi se fechando e relaxar na sacadinha tomando um sol perdeu toda a graça. Cada quarteirão em volta tem dois ou três canteiros de obras. E a maquete de todos parece idêntica ao próprio edifício onde elas moram. Então, manda uma mensagem de voz.
Tá, fico feliz que tenha descoberto um projeto que te deixa mais animada. Mas um livro-reportagem sobre esse tema, que foi tão caro pra você no jornal? Pensa bem, Helô. Não tem mais nada que te motive a escrever?
Enquanto aguarda a resposta, Irene percebe uma movimentação pelo retrovisor. Olha para trás e há uma ambulância com a sirene ligada, abrindo caminho entre os carros. O Audi já está quase subindo na árvore da calçada. Ela é a próxima. Com calma, gira o volante e, ao dar ré, percebe que está puxando o painel inteiro do Celta, tamanha a força que faz para colocá-lo com as duas rodas coladas na guia. O veículo ao lado também consegue se afastar e, por milagre, o carro de socorro consegue passar. A moça abre a porta para constatar que não causou nenhum dano e olha para o portão de sua garagem, ainda fechado. De dona Esther, só se vê a testa franzida. De volta ao celular para ouvir o que Heloísa respondeu.
Não decidi ainda se será um livro-reportagem. Talvez eu invista em ficção.
Não dá nem tempo de reagir à informação. Um guardinha da CET dá uma batidinha no vidro, que Irene abaixa por reflexo.
Pois não.
Pode estacionar aqui não, moça.
Oi? Eu não estou estacionada. Estou parada. No trânsito.
Mas aqui é saída de garagem.
Eu sei que é saída de garagem. É a minha garagem e eu acabei de sair daí.
Até abriu a porta depois de fazer a baliza. Pra mim, isso é estacionar.
Puta-que-me-pariu! Você quer que eu meta o carro onde agora? Não posso ir pra trás nem pra frente, com certeza não vou sair voando com ele. Não tem pra onde ir.
Às sete e onze da mesma manhã, um terremoto de magnitude sete-ponto-sete da escala Richter atinge o norte do Chile. Cerca de seis minutos depois, às oito e dezessete no horário de Brasília, edifícios altos do centro expandido de São Paulo sentem o abalo, reflexo do tremor no outro lado do continente. Do sofá, Heloísa fica mareada e acha que a maconha a faz ver a estante de livros balançar de forma sutil. Ansiosa, pega o celular e liga para a companheira.
Ocupada berrando com um guarda de trânsito, Irene não percebe o aparelho vibrar. Na verdade, também demora a se dar conta de que o carro inteiro está tremendo. Até o homem se jogar para trás e o chacoalhão dentro do veículo ficar tão forte que o cinto de segurança fere seu pescoço. A moça se segura no volante com as duas mãos. Um solavanco, como um soluço monstruoso, só na parte da frente. De uma hora para outra, o Celta está sendo engolido pelo asfalto, na posição vertical. Pedras, muita terra e água entram pela janela. O vidro da frente trinca inteiro, sem estourar. Quando o airbag é acionado, a publicitária não sabe mais se está acordada ou sonhando, viva ou morta.
Em algum lugar, seu celular ainda vibra. Mas Irene o ignora. Sua mão direita busca a trava do cinto de segurança. A esquerda ainda se apoia no volante. A gravidade funciona diferente no centro da Terra. Barulho de água corrente, mas ela só sente respingos. Desajeitada, consegue colocar os pés, sem os sapatos de salto, sobre o painel. O rosto dói um pouco, talvez o impacto do airbag. Tenta escalar o encosto, chegar à parte de trás e alcançar as travas do banco. Alguém está forçando do outro lado. É de Joelson o primeiro rosto que vê quando o encosto cede. Seguro por outros dois homens pela cintura, ele estende os braços e consegue segurar os braços da moça e puxa-la pelo porta-malas.
Cenário de filme-catástrofe do lado de fora. Na guarita da portaria, envolvida pelo paletó de Valdécio, Irene observa a traseira do carro, tragado quase inteiro pelo solo, que cedeu como se fosse uma paçoca erosada. O guardinha da CET passa uma fita em volta e a prende em três cones, formando um triângulo ao redor do novo cânion. A síndica grita, sabe-se lá com quem, reclamando que os impostos pagos não impediram a garagem de ficar inundada. Chorando, ainda de pijamas, Heloísa chega correndo.
Meu deus. O que aconteceu? Irene, fala comigo. Você tá bem?
Tô ótima.
Como ótima? Você caiu com o carro em um buraco. E fica aí, com esse sorriso estranho na cara.
Ah, Helô. Bateu um alívio. Por um momento, achei que nunca mais fosse sair do engarrafamento.
