(Angélica)
Ao sair para caminhar, ainda não havia amanhecido. Apenas um ou outro gato pingado perambulava pelas ruas, nem prestei atenção neles, estava mais preocupada em travar meus joelhos para não rolar ladeira abaixo. Assim que pus meus pés no parque Ibirapuera, uma luz fraca, como se alguém tivesse apertado o interruptor de um abajur com uma cúpula amarelada, iluminou o céu. Peguei a trilha de terra à direita, colada às grades e que acompanhava toda a extensão do parque. Só parei depois de completar a volta toda e de ter suado umas cinco xícaras de café.
Antes de encarar a subida para casa, resolvi descansar um pouco num banco na beira do lago. Eu estava olhando três urubus que tinham acabado de pousar numa estrutura de concreto que saía da água, quando um senhor sentou ao meu lado. Por não ter visto ele se aproximar, me assustei e também senti um certo incômodo, nos outros bancos não havia ninguém. Permaneci com os olhos fixos nos urubus, que agora mexiam as patas tentando se acomodar e balançavam o corpo feito três sinos invertidos. Até que um movimento na margem do lago chamou minha atenção: de um buraquinho começaram a sair umas formigas grandes e gordas e o pior, vinham em fila na direção dos meus pés. Coloquei as pernas em cima do banco soltando um gemido. O senhor, que como pude constatar não tinha nada de surdo, se virou para mim perguntando se estava tudo bem, só aí pude observar sua aparência, que por sinal, era bastante peculiar.
Nesse momento um vento frio sacudiu as folhas das árvores e fez com que eu sentisse seu cheiro: uma mistura de gorgonzola com jaca. Confesso que prendi a respiração. Apesar de idoso, tinha a cabeça toda branca e marcas de expressão de quem passou a vida toda no sertão do Cariri, seus olhos eram tão vivos que se de uma hora para outra eles resolvessem pular das órbitas e atravessar o lago nadando crawl, borboleta e peito ao mesmo tempo, eu não iria me espantar. O nariz aquilino não dizia muita coisa, nada além de enorme. Já a boca, essa sim, a todo instante ele prendia um lábio no outro e permanecia desse jeito por um tempo, primeiro pensei que talvez faltasse algum dente, mas depois cheguei a conclusão de que ele tinha adquirido esse tique para segurar a língua, só que não adiantava, o velho era linguarudo. Extremamente magro, parecia que estava um século sem comer, para os urubus, sua carniça ia servir de aperitivo. Usava um casaco preto puído com as mangas curtas e uma calça também preta que além de ser justa, a barra parava no meio da perna, deixando à mostra dois cambitos com a pele muito ressecada e umas meias vermelhas. Nos pés, um tênis fluorescente, desses que brilham no escuro e com a sola macia, mais tarde soube, sofria de hérnia de disco.
– Estou bem, não se preocupe.
– O gemido foi por causa das formigas?
– É que não aguento mais olhar para uma formiga, imagina um formigueiro…
– Elas têm perturbado você tanto assim?
– Demais – Disse isso inspecionando o pé do banco para ver se alguma formiga mais atrevida tinha subido nele.
– Ah, que coincidência! Tenho uma coisa aqui comigo que pode ajudar.
Neste instante, um cachorrinho minúsculo que passeava com uma garota ruiva começou a latir, como não parava, tivemos que esperar os dois se afastarem. O senhor tirou um frasco pequeno do bolso do paletó e ao me entregar, suas unhas rasparam na palma da minha mão me deixando extremamente aflita.
– É bórax, borato de sódio, uso nas micoses do meu pé, elas coçam, sabe? Um pozinho excelente. Também serve para matar formigas, é só misturar no açúcar e depois jogar onde elas passam, em pouco tempo vão desaparecer.
– Bórax? Nunca ouvi falar. O problema é… é que… não consigo ver as formigas. Essas aí do chão, sim, mas as que andam pelo meu corpo…
Ao falar isso, fiquei constrangida, não havia contado para ninguém o que eu vinha passando.
– Se é assim, esquece tudo o que falei, já vi um caso como o seu, só um minuto, preciso buscar na minha memória – Ele segurou a cabeça com o polegar e fechou os olhos levantando a sobrancelha direita. Enquanto pensava, coloquei o frasco ao seu lado.
– Tenho ótimas notícias, minha filha. Como é mesmo o seu nome?
– Nina.
– Encantado, Nina, me chamo Delfino. Veja, não são as formigas que vão ter que tomar alguma coisa, é você, entende?
Ele quer me dar inseticida? Me deu vontade de sair correndo, esse tal de Delfino não batia bem.
– Inseticida? – Delfino soltou uma gargalhada e depois disse – Não, não, posso até ter alguns defeitinhos, poucos, viu? Mas não estou fora da caixinha. É isso, é exatamente isso que quero falar para você!
– Isso o quê? – Na mesma hora meu queixo caiu. Como ele sabia o que eu estava pensando? Uma mosca aproveitou a deixa para entrar na minha boca, nossa conversa teve que ser interrompida outra vez, não conseguia parar de tossir.
– Moscas são seres fascinantes, contaminam regurgitando.
Cuspi a mosca e depois gritei – Que nojo!
– Caixinha! Caixinhas de remédio, é disso que você precisa. Eu mesmo tomo mais de trinta comprimidos por dia. Uma maravilha. A maioria é para rebater algum efeito colateral. Sofro muito com a minha hérnia de disco, para não sentir dor, tomo um analgésico. O uso prolongado desses remédios ataca o fígado, fora o estômago. De tanto antiácido meu intestino fica solto, aí preciso de algo para prender. Agora se a região lombar estiver inflamada, só com um anti-inflamatório, a lista aumenta que é uma beleza, os rins são bombardeados…
Realmente a língua dele não parava quieta na boca – O senhor vai me desculpar, eu sei que estou interrompendo as minúcias do seu prontuário, mas é para eu fazer o quê?
– Ah sim, me desculpe, sempre me empolgo com esse assunto. A senhorita provavelmente vai ter que tomar uns remedinhos ótimos. Também tomo alguns, mas você não me deixou chegar lá, se quiser eu posso…
– Não precisa. O senhor é um tanto hipocondríaco, não é?
– Não me elogie tanto assim que eu fico sem graça.
– Seu Delfino, o senhor tem mais alguma coisa aí no bolso?
– Ah, não, não posso dar os meus remédios e ficar sem, em hipótese alguma, os tarjas pretas são preciosos, alguns com tarjas vermelhas também funcionam muito bem. A senhorita precisa procurar um médico para ter os seus.
– Eu entendi bem? O senhor quer que eu vá num psiquiatra? Eu-não-estou-louca! Já o senhor…
– O mundo é que está louco, não se preocupe com esse detalhe. Uma vez fui num psiquiatra, ele errou meu diagnóstico. Cismou que eu era esquizofrênico, coisa que eu nunca fui, diga-se de passagem. Só porque eu caí na besteira de dizer que ouvia vozes e quem não escuta a própria consciência? Aí sim eu fiquei um pouco perturbado, a medicação bagunçou a minha cabeça. Passei a escutar a consciência da vizinha. Para minha sorte, ela havia roubado o marido da amiga e não possuía lá muitos escrúpulos. Se fosse a outra, a que levou o chapéu, com certeza eu ia pirar de vez, imagina ficar escutando mimimi o dia inteiro?
Levantei de supetão. Quem ia enlouquecer era eu, Delfino podia passar as próximas duas horas tagarelando. Talvez para mostrar que eu estava muito bem, obrigada, pisoteei algumas formigas.
– Está vendo, só de conversar com o senhor, já estou melhor. Preciso ir. Foi um prazer enorme, enorme não, gigante.
Mal acabei de falar, quase todo formigueiro cercou os meus pés. Pulei de volta para o banco estapeando algumas formigas que tinham subido no tênis e tentavam como loucas alcançar meus tornozelos.
– Ia pedir para você esperar, nem foi preciso – Dessa vez ele vasculhou o bolso de dentro do paletó e estendeu o braço segurando um cartão. Em vez de pegar pela ponta, marquei bobeira e suas unhas espetaram meus dedos. Cheguei a pensar que eram as garras de um dos urubus, mas eles continuavam no mesmo lugar, imóveis como três gárgulas vigiando o lago. Quando li o que estava escrito em voz alta, soltei uma gargalhada.
“Sigmund Freud
Straße Berggasse 19
Wien”
– Nina, me desculpe! Esse senhor já morreu, foi um pequeno engano. Só um minuto, por favor.
Ele puxou um outro cartão, de uma cor diferente, e disse – Agora sim, esse é um dos melhores médicos que me consultei nos últimos meses.
O engraçado era que ele pegava os cartões sem ao menos olhar para eles.
– Muito obrigada, seu Delfino. Dá para se ver que o senhor é uma pessoa muito boa.
– Não diga isso nem de brincadeira, mas não sou de todo o mal – Ele puxou a gola do paletó para cima e fez um certo charme.
Olhei o cartão já esperando algum desatino, mas não achava que fosse tanto: estava escrito em cirílico. Além do mais era poliglota. Da minha parte seria moleza ter um médico russo ou eslovênio.
Achei melhor nem questionar, disse que ia marcar a consulta assim que chegasse em casa e agradeci muito. Ele sorriu satisfeito e que sorriso! Se eu não estivesse louca para ir embora, tinha ficado para contar quantos dentes havia em cada arcada dentária, imagino que uns vinte e sete, ao todo cinquenta e quatro.
Não sei se pelo tempo ter fechado, o lago agora era de um verde petróleo quase preto. Os carrinhos que vendiam água de coco começaram a circular pelo parque e aos poucos foram estacionando embaixo de alguma árvore.
– Tenho que ir, seu Delfino. Mais uma vez, muito obrigada – Antes de colocar os pés no chão, procurei pelas formigas, nem sinal. E nem sinal também do buraquinho de onde elas vieram. Me despedi acenando com o cartão e saí antes que ele me estendesse a mão ou quisesse notícias de como tinha sido a consulta e quais remédios o médico havia me receitado. Mas pensei isso bem rapidinho, não queria que Delfino tivesse tempo de ler os meus pensamentos e ficasse magoado comigo.
– Ando sempre por aqui, Nina, se precisar de mim… Até breve!
Ao me afastar, percebi o quanto eu estava com sede. Parei no carrinho perto da saída e pedi meio litro de água de coco. Ao descer o zíper do bolso da minha calça para pegar o dinheiro, pensei se devia guardar o cartão ou não. Melhor jogar na lixeira. Quando estiquei meu braço para alcançar o cesto de metal, foi que eu vi, talvez pela distância ou por o cartão estar de ponta-cabeça, uma frase que além de conseguir ler, me fez respirar fundo.
“A escuridão pode ser o elixir do sono ou das trevas. Tente dormir mais.”
Era verdade, eu andava dormindo cada vez menos e também passando algumas noites em claro. Procurei por Delfino, mas meus olhos não encontraram nada, nem a silhueta dele ao longe nem a sua sombra, havia desaparecido, ele e os urubus.
