por Américo Paim
Fazia muito calor às dez da manhã em Pedra Velha e Joça ainda dormia. A noite anterior tinha sido abusiva. Nada o acordaria, mas por morar no primeiro andar do Edf. Sardenha, um pipoco na descarga de um caminhão troncho que passava pela rua o despertou. Demorou uns segundos para entender que não havia tomado um tiro e recuperar o fôlego. Sentou-se na cama com os pés sobre o piso de madeira desgastada e uma farpa lhe pinicou. Acordou mesmo. Se levantou e a mão foi logo à cabeça – a ressaca lhe deu bom dia. Fez uma careta e foi ao sanitário. Aliviou a pressão, lavou o rosto chapado que nem ferro de passar desamassaria, reparou nas olheiras fundas, se assustou com um corte superficial na bochecha direita perto do bigode ralo. O banho foi rápido – nunca gostou de água fria, mas a resistência do chuveiro seguia quebrada. Escovou os dentes apoiado com uma mão sobre a pia, penteou os cabelos curtos e desistiu de fazer a barba. Era domingo. Se permitiu relaxar. A sede do mundo lhe fez caminhar para a cozinha. Não conseguiu entrar. Algo prendia a porta.
Não estava trancada. Estranho. Ele forçou e abriu. Seguiu-se um barulho seco, de batida no chão. Um esforço a mais e entrou. O susto foi enorme. Havia uma mulher deitada no chão da cozinha. Não parecia com ninguém que conhecesse. Como ela entrou? Chamou: “moça”, “dona”, “ei” e não teve resposta. Joça deu um toque de leve nas pernas dela. Nada. Olhou para a barriga, esperando o sobe e desce da respiração, que não veio. Colocou a mão sob as narinas da desconhecida e não sentiu nada. Tocou o braço da mulher, apenas para se assustar com a frieza. Olhou aqui e ali e concluiu: estava morta. Havia um cadáver na sua cozinha.
Saiu dali tenso e foi à sala para telefonar. Melhor falar com o síndico! Ou a polícia direto? Ou uma ambulância? Hesitou, porém. E se o acusassem de algo? Quem garantia que não achariam que ele era o assassino. NA verdade, será que alguém matou essa mulher? E se ela morreu de causas naturais? Ninguém pode me responsabilizar. Voltou à cozinha para olhar de novo a criatura e enfim reparou que ela usava um pijama seu! Que diabo é isso? Como aconteceu essa merda? A coisa estava mais complicada do que parecia. Pegou água. Bebeu dois copos. Examinou a moça.
Era uma mulher jovem, vinte e poucos, da sua idade. Bonita, apesar de alguns arranhões no rosto – lembrou do que viu no espelho mais cedo. Os olhos, fechados, lhe deixaram curioso. Estava com maquiagem não tão pesada e a boca lhe pareceu muito atraente. Véi, a mulher tá morta, tá maluco? Isso é hora de se interessar por ela? Suas pernas eram longas e bonitas, com uma tatuagem de peixe em uma delas. Lhe veio de Clóvis, o peixinho que sua mãe mantinha no pequeno aquário sobre o móvel da sala. Coisa da infância. Ao lado da defunta, perto da porta, sandálias de salto médio com detalhes metálicos. Havia pulseiras e anéis nas duas mãos, com unhas pintadas em vermelho parecido com o do batom. Os brincos discretos combinavam com um belo colar e um pingente com motivos de mar. Ficou ali no chão, à deriva, pensando no que fazer. De toda a farra da noite anterior, a primeira coisa que vinha à sua cabeça é que tinha começado na casa de Moringa. Ligou tentando manter a calma, já bebendo o terceiro copo d’água.
– Véi, tudo bem?
– Fala, Joça! Tá vivo, desgraça! Do jeito que saiu ontem…
– Porra, não lembro de nada. Onde a gente foi?
– Sério?
– Tô lhe dizendo. Me conte aí, vá.
– Primeiro teve o esquenta no bar de Pirulito.
– Rapaz, até aí tudo bem…
– Mundinho chegou com a turma e foi todo mundo pra casa de Cirino.
– Fez o que lá?
– Bebeu, ué.
– E daí?
– Chegou uma mulherada e a coisa foi se ajeitando.
– Eu peguei alguém?
– Que porra é essa? Nem isso?
– Diga aí, véi.
– Se atracou com Dina.
– Dina da Venda? Não, não, não…
– É verdade!
– Véi, qual é… Que amigo da porra… Tu deixou isso?
– Queria que eu fizesse o que, peão? Tu lá no mó trampo de língua…
– Puta que pariu. Para, pode parar. Como é que isso acabou?
– Em nada.
– Ufa. E daí?
– O povo foi embora. Ficamos eu, você, Sapo e Luizão. E Cirino, claro. Você ficou mal.
– Tá na cara, né?
– Colocamos você no uber e Luizão foi junto.
– Por que logo ele, mermão?
– Porra, tu ainda reclama?
– Não é isso. É que tem umas paradas aí…
– Qual o problema?
– Aquela história antiga que eu peguei a namorada dele. Tudo mentira, cê sabe.
– Ainda isso?
– Ele é pilhado com aquilo.
– Oxe, deixa quieto. Vamo toma uma?
– Eita, não dá.
– O que foi?
– É que tem uma mulher aqui em casa.
– Ah, garoto…
– Não é isso não. Eu nem sei quem ela é.
– Porra, tu ainda pegou mulé ontem? Cabra bom da porra…
– Ô, véi, eu tô dizendo. Se peguei, danou-se, não sei quem é e nem o que aconteceu.
– Ué, pergunta.
– Ela tá… dormindo.
– Ah, entendi.
Joça foi até a mulher e a descreveu para Moringa. Preferiu não fazer foto de celular. Não poderia se expor, afinal ela estava morta. Não adiantou. O amigo não lembrava de ninguém assim, nem na balada. Desligou e voltou para a sala. Suava e esfregava as mãos. Andou de um lado a outro, olhou para a rua pela janela. Aí ele lembrou que a falecida deveria ter uma bolsa. Voltou correndo para o quarto. Nada. Banheiro, área de serviço, cozinha, nada. Por pura sorte, achou atrás do sofá da sala, as roupas da mulher e a bolsa, mas nada de documentos. Pensou que transaram ali mesmo e riu. O que é que rolou com essa gostosa? Véi, peguei uma mulher dessa e nem lembro o que aconteceu… Só pode ser mandinga uma porra dessa. Nem adianta ir na portaria. Essa porcaria de prédio nem porteiro de sábado para domingo. O tempo passando. E se eu levar pro topo do prédio e jogar o corpo de lá? Vão pensar que ela se matou. Desistiu – além de ter que trocar a roupa da morta (ela não ia pular com o pijama dele!), uma trabalheira que ia deixar digitais. Imaginou que a polícia na certa ia descobrir que ela já tava morta antes de cair. Viu isso em um filme. Considerou empurrar a pobre pelo duto de saco de lixo que ia até o porão, mas achou que ela poderia entalar. Desistiu e voltou à cozinha.
– Ô moça, acorda aí. Diz que é pesadelo, por favor. Fala aí quem é você, na moral. O que cê tá
fazendo aqui, minha filha? A gente trepou? Foi bom?
Teve a ideia de abrir os olhos da pobre. Quem sabe reconhecesse pela cor, mas faltou coragem. E se ela começar a feder aqui, papá? Tô lascado, tô fudido. Preciso fazer alguma coisa. Sem alternativas, ligou para Luizão. Não era a melhor, porém concluiu que era sua última chance.
– E aí, grande Luizão?
– Joça? Olha só, não morreu…
– Que é isso…
– Tu tava acabado…
– Tô sabendo… Veja só, uma dúvida.
– Diz aí.
– Tu me trouxe com alguma mulher pra cá?
– Num foi bem assim. Foi parecido.
– Entendi não.
– Quando o uber chegou no prédio, Sirlene tava na porta.
– Quem?
– Ela disse que lhe levava pra cima.
– Oxe, é nada. Cê tá brincando.
– Foi o que ela falou. Achei que lhe conhecia ou morava no prédio. Qualé a de mermo?
– O quê?… Não, nada. Me diga, cê conhece ela de onde?
– Só de nome. É a namorada de Tuba.
– Oxe, quem é? Home ou mulé?
– Rapaz, é um cara do morro aí perto.
– Que papo é esse?
– Ele é amigão do chefe do tráfico.
– Agora lascou. Como é mesmo o nome dele?
– É Marcos, mas o povo chama de Tubarão, Tuba. Diz que é escroto que só.
– Que ótima notícia.
– Ele já chegou aí?
– Oxe, tá maluco?
– É que hoje de manhã na padaria, disseram que ela tá sumida. Aí mandei lhe procurar.
Joça desligou o telefone. Foi até a cozinha e sentou no chão de novo. Ficou ali admirando a beleza daquela mulher morta, pensando que tinha se dado bem com ela. Ficou com aquele sorriso meio leso, desconectado e demorou a perceber as batidas fortes na porta do apartamento. Ele não conseguia se mover. Apenas se perguntava por que só agora havia reparado que as barbatanas da tatuagem eram grandes demais para um peixinho.
