Casas geminadas

Na cidade grande, apenas quem mora na cobertura tem horizonte para ver o sol se por. Não são nem dezoito horas quando os gêmeos Rosário e Feliciano deixam o número 263 e já se faz noite à sombra dos edifícios que cercam a viela de casas geminadas. De olho nos paralelepípedos, a senhora se apoia na bengala. A borracha na ponta está tão gasta que o som de marteladas marca os passinhos. Lado a lado, seu irmão coreografa um caminhar em câmera lenta, interrompido ora para conferir a ponta raspada do sapato preto, ora ao espiar sobre seus ombros. Menos de dez minutos separam seus nascimentos, mas ninguém diz que dividiram um útero. Ela, uma Dona Benta compacta. Ele, um Visconde de Sabugosa grisalho.

Para de enrolar, homem. Quero chegar em casa pra tirar o gosto daquela torta da boca.

Ué? Endoidei ou você até repetiu?

Enrolei a segunda fatia no guardanapo e guardei na bolsa.

E posso saber o que vai fazer com isso?

Rosário para diante da única lixeira, cheia de papelão, sacolas plásticas, restos de frutas e duas garrafas de long neck, e joga fora o pedaço do quitute. Feliciano se encolhe e confere se alguém os vê. Ainda há outros moradores por perto, vindos do mesmo endereço, dirigindo-se aos seus portões.

Ai, Rosinha, o que os vizinhos vão pensar?

E eu ligo pro que esse povo pensa?

Tá chateada porque ninguém tocou na gelatina que você me obrigou a levar.

Odeio ir à casa dos Almeida.

Preferia reunir todos na nossa casa? Duvido. Nem pipoca ia servir pra eles. 

Deus me livre! Esse bando de enxerido mexendo nas minhas coisas.

Ah, vai, até que o papo foi bom. Cada um disse o que acha dessa história, acertamos os próximos passos.

Ah, que comunidade unida… Deixa de ser besta. Quando viu essa gente pensar no bem comum? O traste do Cléber ali. Pensa se ele se importa com os nossos ouvidos na hora de tocar a bateria dele.

De calças jeans larga e camiseta preta do Motörhead, um sujeito barrigudão, calvo de mullets e barba, desce para sua garagem girando uma baqueta na mão direita.

Não é assim, minha irmã.

É assim, sim. A outra lá, a Cidinha. Tomou cinco cervejas na reunião. Eu contei. Quer apostar que daqui a pouco vai fazer escândalo? Aquela gritaria de sempre com o filho.

Uma mulher de quarenta e poucos anos, todos bem marcados nas olheiras, carrega um pote com sobras de comida em uma mão enquanto, com a outra, puxa a orelha de um menino de boné. Ainda chuta o skate dele a esmo.

Não é fácil, Rosa. Marido pulou fora e…

E o Olavo? Tô cansada de catar o cocô do pulguento na nossa calçada.

O homem fecha seu portão e passeia com um cão pretinho na coleira. Enquanto o animal batiza um tronco de árvore, ele alonga a lombar, tentando alcançar as canelas sem dobrar as pernas.

Ele jura que não é do cachorro dele.

Deixaram um cartão da construtora na caixa de correio de cada morador. Quando oferecerem uma montanha de dinheiro por essas casas velhas, só vamos sobrar você e eu nessa rua.

Os irmãos passam pela placa de “vende-se”, caída em frente às ruínas do falecido Estebán. O portão da garagem segue contorcido, desde que a polícia o arrombou, há mais de um ano. Os moleques da região já terminaram de estilhaçar os vidros de todas as janelas. Ainda há sacos espalhados pelo quintal, apesar de alguém ter escrito à caneta um aviso de que aquilo não é lixão – o papel também descansa no chão, do outro lado da grade. O cano que desemboca na sarjeta jorra como uma fonte, criando um córrego até uma boca de lobo. Bitucas de cigarro formam um mosaico nas rachaduras do calçamento. Uma morte lenta, como a do antigo proprietário, que não deixou herdeiros, mas abriu caminho para os corretores de imóveis.

É, Dona Rosário, essa região mudou, não é mesmo?

A voz rouca e metálica arrepia as nucas de Rosário e Feliciano, que demoram a varrer a escuridão atrás da pessoa. Por um instante, o som parece sair do bueiro. Não, há alguém ali, na sarjeta, de cócoras. O sujeito, alto e magricela, se levanta, como se brotasse, girando em seu próprio eixo, uma das mãos sob o queixo. Ele usa um terno preto, por cima de uma camisa cinza, camuflado no breu. Olhos de fogo, que refletem a iluminação pública de tom amarelo. O bigode fininho, desenhado sobre os beiços proeminentes, dança de um lado para o outro conforme ele esfrega a língua nos dentes de cima, sugando a saliva entre os vãos.

Mudou… eu acho.

Mudou muito, eu que o diga.

Ele não está segurando o queixo, mas um aparelhinho que pressiona contra o lado direito do pescoço, desses que decodificam a laringe e emitem uma fala robótica. Ao mesmo tempo, os velhinhos voltam um passo e olham ao redor. Os vizinhos já se enfiaram em seus lares e, como se o relógio andasse mais rápido à noite, as trevas são dignas de umas dez horas.

A senhora deve lembrar. Antes nem passava carro, as crianças chutavam bola aqui fora. E quando tinha Copa? Bandeirolas pela rua, todos viam os jogos na telona do Estebán. Que época boa.

Sim, boa.

Os irmãos trocam olhares, um tentando ler a mente do outro. Conhece? Nunca vi mais vivo. E o estranho deve ter o quê, uns cinquenta anos, talvez menos. Mesmo com os moradores mais antigos dando lugar a outras famílias, Rosário e Feliciano reconhecem a cara até de quem nunca dá bom dia. E alguém com tal condição de saúde já teria chamado a atenção. Só se morar no quarteirão seguinte, onde já tem prédio.

E seu churrasco, Seu Feliciano? Não fez mais, que pena. Também, pudera, as pessoas nem se falam. Mudou muito, de fato, demais.

Ah, é. Fiz não, meu filho. Aquela grelha até enferrujou, sabe?

O tempo é cruel. Dez anos atrás, isso era uma cidade do interior metida dentro da metrópole.

O perfume do pós-barba do moço coça os pelos das narinas de Feliciano. Ele interrompe um espirro no meio e repara na pele lisinha do homem, como se tivesse acabado de passar a lâmina. As riscas da passagem de um pente nos cabelos também são recentes. Vai saber se não molhou ali mesmo, na água que escorre pela boca de lobo, jogando os fios para trás. A testa e orelhas ficaram descomunais.

Logo o trator passa por cima da gente, meus amigos.

Tá mal informado, rapaz. Os moradores acabaram de se reunir. Ninguém quer vender.

Ah, Seu Feliciano, vocês são das casas geminadas. Desse lado da rua vai tudo pro chão.

Como assim, moleque?

Ora, a senhora não ouve esse barulho?

Sem a bateção de Cléber ou a gritaria de Cidinha, o silêncio da vizinhança é quebrado apenas por um chiado constante. Se largar um cego ali sem orientação alguma, ele poderia achar que está, não no meio de uma cidade de pedra com milhões de habitantes, mas sozinho no mato, perto de uma cachoeira. Dia e noite, o som da corredeira de um rio preenche o ambiente. Todos sabem que sob seus pés passa um lençol freático, há muito tempo oculto pelo concreto. Alguns falam até em uma nascente, o que explicaria os pontos empoçados, mesmo sem chuva. Nos últimos meses, porém, o barulho das águas se intensificou. 

É a construtora secando o subsolo no lado oposto da quadra.

Rosário se apoia no braço de Feliciano e ambos se aproximam do cano. Ele sempre esteve ali? Virando a esquina, Olavo e seu vira-lata surgem, voltando do passeio.

Já compraram a casa do Estebán. Quem mais compraria isso se não fosse pra derrubar? E só vale a pena pra eles se ficarem com tudo. Na reunião, tinha algum morador do lado de cá?

Antes que o irmão responda, Rosário o contém com um puxão no braço. O estranho sorri pela metade, deixando escapar uma microfonia no aparelho, um sorriso fora de sintonia.

Então, colocaram até dois imóveis pra alugar. Veja só as placas. Pessoal saiu de fininho.

Que seja. Do nosso lado, teriam que comprar o conjunto todo de casas geminadas. E concordamos hoje que ninguém quer se mudar.

Seu Feliciano, tem que pensar com cabeça de construtora.

E quantas cabeças tem esse monstro?

Ao ver Olavo passar por eles puxando o cão, o homem descola o aparelho da garganta, censurando-se. Todos trocam leves acenos com a cabeça, com exceção de Rosário, que nem se dá ao trabalho de fazer contato visual com o vizinho. Assim que este se afasta, a voz de metal volta a funcionar.

Seu Feliciano, me escuta. Se erguem um condomínio nessa quadra, lógico que a entrada não vai ser por uma ruela de paralelepípedos como essa.

Nem pode, acho. Por lei.

É, vão projetar a portaria na rua ao lado, mais movimentada. Aqui será as costas, uma grade feiosa, talvez nem isso, um muro, um paredão bem alto, sem vida.

Ah, mas aí, acabou.

Sim, a rua morre, um pouquinho por dia. Alguém vem aqui e picha. Depois, o caminhão do lixo não passa mais, abandono total.

Hmmm, isso é verdade. Veja só, Rosinha, a sujeira que já fazem.

A irmã solta o braço do irmão e se vira para trás, em tempo de flagrar Olavo espiando de sua porta.

O preço dessas casinhas geminadas deve estar ok hoje. Mas vai desvalorizar quando ficar meio perigoso.

Perigoso?

É, Dona Rosário. Que nada aconteça a ninguém, Deus me livre. Só acho que uma rua esquecida no mundo, com muito idoso… Velhinho não oferece resistência e ainda guarda coisas como joias e prataria, sabe? Isso atrai vagabundo. E as pessoas estão loucas, são capazes de cada maldade…

A senhorinha segura a bengala com força e a ergue como se embainhasse uma espada. Feliciano chega perto dela, segurando seu braço e cochicha no ouvido.

Minha irmã, não arruma briga. Ele tá certo. De uns tempos pra cá, encheu de pedinte na região. O larguinho parece uma favela. Que segurança a gente tem?

E esse? É vizinho de quem, homem?

Feliciano coça a testa. Faz sentido. Quem é esse fulano? Eles se esbarraram na rua por acaso, já chegou de conversa, com intimidade demais. O velho se volta ao estranho, procurando deixar a coluna ereta para enaltecer sua altura.

Vem cá, amigo. Você mora mesmo onde?

Ah, sempre estive por aqui. Não troco essa área por nada. O clima de camaradagem. Acho muito bacana a rua se unir, juntos na resistência. Claro, não pode ceder ninguém. Casas geminadas. Se um topa vender, coloca pressão nos demais e…

E nada. Talvez a bateria do negócio tenha acabado. O homem perdeu a voz e começa a dar umas palmadinhas no aparelho. Será a pilha? Ele sorri de boca fechada, indica com os braços que vai seguir seu caminho e acena com um tchau, caminhando apressado na direção do cruzamento. Os irmãos esperam que ele contorne a esquina e recomeçam os passinhos curtos, chegando ao seu portão. Na fechadura, balança o molho de chaves.

Rosário do céu, como foi esquecer as chaves esse tempo todo?

Eu? Essas são as suas.

Sim, mas você trancou. Eu estava carregando seu pote de gelatina.

Pote que você largou na casa dos Almeida.

Amanhã eu pego. Vamos entrar. Melhor não dar bobeira a essa hora.

Mas são nem sete da noite.

Eles entram e acendem as luzes. Todas, um cômodo depois do outro. Feliciano ainda verifica as janelas e a porta da cozinha, que sai no quintal da churrasqueira. Cada um vai se deitar em um quarto. Mas nenhum deles dorme pesado, agora que o som das águas correndo pela sarjeta lá fora ganhou um contexto diferente. Parece até mais forte, com um zumbido maquinal ao fundo. Ao despertar de manhãzinha, Feliciano tira o sono dos olhos no banheiro e vai até a cozinha passar um café. Preso com um ímã na porta da geladeira, está o cartão genérico da construtora. Não custa sondar quanto estão dispostos a oferecer pelo imóvel, só por curiosidade. Os demais moradores devem ter feito a mesma coisa. Quem não fez, vai fazer. Pega o celular e digita o número. Após três toques e uma musiquinha de introdução, cai em uma gravação. Uma voz metalizada lista um menu de opções, para digitar de zero a nove.

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