Silvia Argenta
É início de tarde de uma quarta-feira e decido me dedicar à esbórnia para evitar um dia produtivo. Me preparo com um banho, que, ao contrário do que deveria, não me dá uma sensação de alívio e relaxamento. Isso porque mais de cinquenta unhas saem do chuveiro, percorrendo, como a água, meu corpo nu. São todas grandes, pontudas, bem lixadas e sem cutículas nem esmalte. De fato, não consigo afirmar quantas são. O chuveiro é novo e ainda não pude contar quantos furinhos tem. De cada um deles sai uma unha, que desce me arranhando toda, fazendo sangrar cada pedaço de pele. Depois disso tudo, no chão do box, aparece uma bola peluda de uns dez centímetros, que promete me proteger, sem que eu tivesse pedido nada para ela. Se apresenta dizendo que se chama Godówisky. Não parece se importar de ficar de pé, pisando o sangue que escorre do meu corpo e gira até o ralo. Sinto uma aura divina rondando o banheiro.
Apesar de toda arranhada, consigo me secar e me vestir. Já na sala, o grito da vizinha acorda todos os pelos do meu corpo. “Vou chamar a polícia”, diz ela, repetindo a frase umas cinco vezes. Vou até a sacada do apartamento e dou o primeiro gole de vodka. Godówisky me acompanha e lambe o resto de bebida que fica na borda do copo. Vejo que a vizinha está na calçada na frente do prédio, se dirigindo para um homem alto parado no meio da rua. As mãos apoiadas na cintura fazem com que os braços fortes dele fiquem evidentes. O cabelo com aparência de recém-cortado, rente à cabeça, lhe dá um aspecto de bad boy bem nascido. A camiseta rosa por vezes se confunde com a cor de sua pele. Ele encara a mulher, apoiada no portão aberto, pronta para entrar no prédio ao primeiro sinal de movimento dele, eu imagino.
Dou o segundo gole, agora mais longo, molhando a boca inteira. Um pouco antes, no banheiro, pensava em como conhecia todos os seus detalhes. Os azulejos brancos com riscos azuis emolduram os acessórios de um cômodo normal, sem pretensões de revistas de decoração, mas bem arrumado com tudo funcionando. Sem glamour ou cor da moda, a torneira de metal é das mais baratas, o armário de madeira cinza pálido tem um dos puxadores soltos e o espelho retangular com dois lados ovais e as tarraxas redondas protuberantes evidencia que foi instalado há pelo menos quinze anos. Enraizada por aqui há tanto tempo, saberia descrever todas as minúcias do banheiro, exceto o chuveiro novo. Godówisky dá mais umas lambidas no meu copo.
Uma SUV branca vira a esquina e para na frente do prédio, pois o homem, ainda no meio da rua, não se mexe. A motorista não buzina e tenta desviar dele passando o carro por cima da calçada oposta. Consegue facilmente e vai embora. Ele nem acompanha a manobra e permanece olhando para a vizinha, que volta a gritar a mesma frase, agora com o celular na mão, ameaçando que já discou 190.
Prevendo um belo bapho no meu camarote, pego a garrafa de vodka na cozinha e me sento na sacada para acompanhar o desfecho da história. Um carro de playboy, desses que só funcionam com gasolina premium, entra na rua. A motorista jovem abre o vidro, coloca o cotovelo para fora apoiado na janela e grita para o homem. “Sai da rua, mané”. Desde que estou na sacada, ele se mexe pela primeira vez. Permanece com as mãos apoiadas na cintura e vai até a janela da motorista, que começa a gesticular e falar algo que não compreendo. O homem dá uma leve inclinada para frente e, sem dizer nada, cospe na cara da motorista, que reage apenas fechando o vidro e saindo com o carro cantando pneu.
Percebo que a vizinha consegue falar com um policial pelo telefone. Ela conta que não conhece o homem e passa o endereço para que a viatura chegue o quanto antes. O bad boy volta a encará-la. Meu corpo arranhado parece se inflamar a cada movimento dele. Olho para minha pele e só então noto como estou peluda, igual Godówisky. Nunca tive muitos pelos e os poucos que tinha eram finos. Agora estão densos e escuros e logo penso na dificuldade que vou ter na próxima sessão de depilação.
Lá embaixo o homem continua sem dizer uma palavra, mas começa uma caçada às pessoas que andam pela rua. Primeiro vai em direção a uma mulher de salto alto. Pelo tailleur, parece que está indo ao trabalho. A vizinha grita para que a moça fique atenta, mas ela permanece distraída, com a cabeça baixa, digitando no celular. Sem dificuldade, o homem chega ao seu lado e cospe na sua orelha. Ela passa a mão no rosto e corre desajeitadamente, tropeçando.
Depois, ele se aproxima de uma mãe e sua filha pequena, de mochila nas costas. Devem estar indo para a escola. A vizinha grita: “não acredito!”. E lá vai o homem dar uma cusparada dupla. São dois jatos na sequência sem intervalo para molhar a boca. Sem precisão, atinge as pernas das duas, que só olham para trás e continuam a caminhada na mesma velocidade.
Um grupo de adolescentes uniformizados passa pela rua falando alto, sem se importar com o homem. A vizinha abana os braços para chamar a atenção, mas ninguém a nota. Ele então para na frente dos jovens e dá uma cusparada tripla, mirando nas três garotas e poupando os dois meninos. Dessa vez, ele deve ter usado outra técnica, já que elas ficam com as camisetas molhadas. Agora todos gritam indignados com a atitude do homem, se limitando apenas a girar os moletons no alto da cabeça como reação.
Godówisky não fala, somente gesticula os braços curtos. Pelos olhos cada vez mais arregalados, imagino que está incomodada com o homem da rua. Ao perceber isso, sinto que meus olhos tomam conta de todo o meu rosto, no que minha monstrinha faz um sinal de joia. Pelo jeito, estamos ficando parecidas. Os quatro olhos gigantes se extasiam com mais um trago.
Na rua, surge um casal jovem de mãos dadas. A vizinha já nem fala mais nada. Desiste de alertar as pessoas e entra no prédio. O bad boy caminha na direção contrária do casal e fico esperando se dessa vez vai rolar cuspe no homem também, mas quando ele chega perto dos dois segue caminhando sem fazer nada. Meus olhos imensos não dão conta de entender o que aconteceu – ou deixou de acontecer. Pergunto para Godówisky, e ela sacode o tronco, balançando os pelos que circundam todo o seu pequeno corpo. Entendo que devo esperar por algo.
Depois disso, a chuva de cuspes volta na rua. O homem esguicha jato de saliva em todas as mulheres que aparecem, das mais variadas formas. Tem cuspe rápido, cuspe em parábola, cuspe gravitacional, cuspe estilhaço, cuspe em câmera lenta. Alguns corpos conseguem escapar, mas outros são atingidos em cheio. Nenhuma reage ao bad boy de frente. Nem os homens que as acompanham ensaiam um enfrentamento. A única que esboça fazer alguma coisa não o encara. A moça de uns trinta anos se revolta e bate as sacolas plásticas de compra no poste e no muro repetidas vezes. Habilidosa, não deixa nenhum produto cair no chão. Por fim, dá um chute no caule da árvore magricela, toma um banho de folhas amareladas e vai embora.
Fico agitada com tantas ocorrências e nada acontecer com o homem, que vira o dono da rua. Godówisky se mantém calma, porém vigilante. Não pisca os grandes olhos. Observo a monstrinha. Apesar de minúscula, tem a estrutura forte, toda queratinada, trabalhada em mais de cinquenta unhas bem nutridas e parida por um chuveiro novo. E eu, que tomei uma chuveirada de unhas, preciso seriamente conhecer melhor meu banheiro.
Passadas algumas horas, o policial não chega para atender ao chamado. Ainda fico na dúvida sobre quem são essas mulheres. Quando vistas, são cerceadas. E quando pedem para ser vistas, se tornam invisíveis. Então, pela primeira vez escuto a voz de Godówisky, que sussurra para mim: “vai de Hamurabi”. Assim que termina de falar, dá um impulso com as pernas e se joga dentro da minha boca. Eu, do alto do meu camarote, prendo a respiração, tomo a última dose da garrafa de vodka para envolver Godówisky e dou a cusparada mais fenomenal da vida. Cuspe míssil balístico. Acerto em cheio a testa do homem alto, que cai com o corpo estirado na rua, mantendo as mãos na cintura e os olhos abertos virados para cima. As pessoas param em volta do homem estendido no chão e se perguntam. Morreu de quê? E eu grito: “de cuspe de vodka”.
