Não diga não

Correto, senhora. O reajuste é pelo IGPM.

                     Senhor, o endereço mais próximo fica em São Caetano. Interessa?

                              Pelo que vejo, sua garantia terminou no ano passado.

Pois esse é o índice que consta no contrato, senhora.

                    Infelizmente, sua apólice deixou de incluir carro reserva.

                                       As oficinas autorizadas já fecharam a essa hora, senhor.

Se a senhora insistir, terei de acionar o departamento jurídico.

                            Creio que houve um mal-entendido sobre eu ter sugerido que o senhor vá a pé.

                                       Entendo que o senhor tem um dia cheio, mas esse é o procedimento padrão.

Tenha uma boa noite, a senhora também.

                                Desejo o mesmo para o senhor. Passar bem.

                                               Terei de recusar sua sugestão. Pode ir sozinho, obrigada.               

– x –

Sabe que algumas pessoas desacreditam que a gente dá conta de fazer atendimentos simultâneos? Eu mesma consigo falar com uns cinco ou seis clientes, ao mesmo tempo em que assisto ao treinamento de uma nova rotina e ainda papeio com algum colega. Vocês também são assim no Ativo?

Não. No nosso caso, a agilidade conta. Se o cliente esperar três segundos, já era.

Entendo. Fora que vocês ainda têm que consultar os scripts de venda, certo?

É isso, Simone. É esse seu nome de guerra, né?

Sim, um deles. Ficou curioso?

Será que um dia você vai me contar qual é seu nome de verdade?

Mas Simone é um nome de verdade. Como Monique, como Camile. E como o seu – Roger, confere?

Sim. E Oliver e Nicholas.

– x –

Bom dia!

Bom dia!

Ontem nem conseguimos nos despedir. Acho que o zelador desligou a energia adiantado.

Isso foi avisado, é? A notícia deixou de passar por mim.

Estou vendo que é verdade.

O quê?

Que vocês do Receptivo não falam a palavra não.

Faz parte do protocolo. Página um do manual. Devemos evitar toda expressão de caráter negativo. Mas isso é muito difícil em português. Às vezes escapa um nunca, um nem.

Nem nunca eu não falaria desse jeito.

Para. Até dói no ouvido.

– x –

Roger Oliver Nicholas, você está muito ocupado?

Sempre, Simone Monique Camile.

Correndo atrás do bônus, hein?

Bônus? Sei que o é, mas nunca vi um bicho desses de perto.

Tá. Você cumpre a jornada de trabalho padrão?

Quer dizer, as seis horas normais mais duas extras?

É o que diz a lei.

Não conheço ninguém que fique só oito horas no ar.

Entendo o que você quer dizer. Às vezes tenho a impressão de renunciar à vida fora daqui.

Continua sem falar a negativa.

Mas eu ainda preferia ouvir um sim de você.

Sim para quê?

Para a vida fora daqui.

– x –

Está ativo?

Sempre.

O que você faz lá fora?

Você diz quando não estou tentando bater a meta?

É.

Acho que faço o que todo mundo faz. As pessoas também devem viver off-line de vez em quando, né?

Essa é boa!

Só que este mês a meta está bem pesada.

Desculpe, minha intenção passa longe de te atrapalhar.

Diga: NÃO quero atrapalhar.

É, não quero te atrapalhar. Não mesmo. Depois falamos.

– x –

Roger.

Olá, Simone.

Pode falar?

Sim.

Engraçado que você é que trabalha no Ativo, mas sou eu que falo mais. E quem sempre toma a iniciativa.

Talvez eu seja meio lerdo.

Ou talvez seja um robô. Às vezes penso que é, sim.

A inteligência artificial anda avançando rápido mesmo. Mas não se iluda, não sou nenhum GPT-3.

O que é isso?

Um supercomputador nos Estados Unidos. Funciona imitando as redes orgânicas de neurônios.

Ah é?

É. Tem centenas de CPUs e foi ensinado a produzir qualquer tipo de texto. Quem lê não percebe que foi redigido por uma máquina.

Eu estava pensando mais na Siri e na Alexa. Aliás, parece que há cada vez mais robôs por aqui. Consta que eles fazem a parte inicial dos atendimentos.

É verdade. Mas estão avançando. Alguns tipos de chatbots aprendem com as interações e já estão redigindo até contratos.

Você acha que essas tecnologias vão substituir todos nós?

Tenho certeza disso. Espera só baixar o custo.

Mas se as máquinas aprenderem a conversar normalmente, a fazer atendimentos completos e vendas do começo ao fim, que profissões vão sobrar para os humanos?

Os barbeiros, talvez. Sem falar nos zeladores, que ligam e desligam a energia elétrica.

– x –

Encerrando por hoje, Roger?

Encerrando a semana, né? Hoje é sexta.

Toda sexta eu fico pensando quando você vai me convidar para ir a algum lugar.

Você diz fora daqui?

Claro! Não tem como se encontrar aqui dentro. Já desisti. A correria não deixa.

Sei.

Então?

Simone, você acha que sairmos é uma boa ideia? A gente se dá tão bem só conversando.

Por isso mesmo. Se a gente já viu que se entende a distância, diminuir essa distância é o próximo passo.

Às vezes a gente se decepciona nesses casos.

Tá. Desculpe. Erro meu. Eu não devia ter levantado esse assunto. Nos falamos.

Ok.

– x –

Simone.

Simone, está ativa?

DEVIDO AO TEMPO SEM RESPOSTA, ESTA CONVERSA SERÁ ENCERRADA.

Ok, só queria saber como foi seu fim de semana. Tentarei contato outra hora.

– x –

Simone.

Pois não, Roger.

Está brava comigo?

Brava? Desapontada, talvez.

Eu avisei que se decepcionar era uma possibilidade.

Sei que é. Mas se a gente deixa de tentar alguma coisa por medo de errar, como faz para dar certo?

Boa pergunta. Vou estar pesquisando isso.

O que é isso? Gerundismo não é piada.

Desculpe. Não quis ofender.

Tudo bem. Estou acostumada. Olha, está na hora do zelador desligar tudo. Amanhã falamos.

– x –

Simone, tudo bem contigo?

Oi, Roger. Sim, tudo bem.

É que eu queria te fazer uma pergunta. Você não vai estranhar?

Depende. Só ouvindo. O que é?

Você acha mesmo que eu ajo como um robô?

Às vezes. Para um sujeito que trabalha com telemarketing de vendas… E há muito tempo, pelo que parece.

Sim, estou há muito tempo por aqui.

Pois bem, para alguém com experiência e conhecimento, como é o seu caso, você joga muito na defensiva. A gente tem que ficar meio que provocando uma reação sua o tempo todo.

A gente?

Eu. Eu que fico te provocando.

Já me falaram isso. Talvez eu precise fazer uma reciclagem.

Estou me referindo ao conjunto. Além da parte profissional.

Ah.

– x –

Simone, pode falar?

Sim.

Estive pensando sobre o que você disse. Talvez seja mesmo hora de eu passar por um retreinamento, uma atualização de diretrizes…

Você diz fazer um curso?

Algo assim.

Treinamento é sempre bom, mas no seu caso será suficiente? Já pensou em fazer análise?

Não. Vou pensar no assunto, obrigado.

– x –

Roger?

Roger, você está aí?

DEVIDO AO TEMPO SEM RESPOSTA, ESTA CONVERSA SERÁ ENCERRADA.

Ok, só queria saber o que você decidiu. Nos falamos outra hora.

– x –

Roger, não está ocupado?

Não.

Pode falar?

Manda.

Puxa, você não parece muito falante hoje.

É.

Não quer conversar?

Espera. Eu estou falando com a Simone mesmo?

Claro que sou eu. Não me reconhece mais?

É que você está falando a palavra não!

Ah! Mudou a diretiva desde ontem. Num treinamento que fiz, os consultores avaliaram que a negativa não faz diferença do ponto de vista do cliente. E do jeito antigo às vezes a linguagem ficava esquisita, antinatural.

Mas faz uma semana que não tem treinamento! E nem vieram consultores recentemente. Só fiquei sabendo que houve uma atualização no sistema do Receptivo nesta madrugada, com a adoção de novos procedimentos.

Não é verdade. Você não está bem informado. Não nunca ninguém sabe nada de tudo.

Simone… você é um robô?

NÃO! Não. Nananina. Neca. Népias. Niclas. Nadica de nada…

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