O miojo doce, o fim do capitalismo

No recente e clássico ensaio “Realismo Capitalista”, Mark Fisher analisa as tendências culturais de seu contexto – a Inglaterra e EUA dos anos 2000, para lançar mão de uma tese provocadora sobre a relação entre cultura e capital. A tese do ensaísta é a seguinte: a característica fundamental da cultura no capitalismo tardio é a junção entre repetição, grotesco e falta de alt ernativa. Mistura de pastiche e depressão, a vida atual sob a égide do neoliberalismo se resume a olhar o mundo, se sentir meio horrorizado, meio entediado e meio na obrigação de voltar amanhã.

Isso tudo eu li ontem, quinta-feira, antes de ir para o Carnaval, que foi em Abril e não em Fevereiro. Eu nem estava com muita vontade de sair de casa, mas saí, o carnaval não era pra ser em fevereiro, mas era carnaval. Abril é mês frio e foi um horror ter que levar blusinha pra bloco de rua, mas aconteceu.

Como previsto, ontem, bebi muito, dormi mal. Hoje, acordei com a péssima e primeira decisão do dia de abrir os olhos, apanhar o celular e clicar na rede social de microblogs de propriedade de um bilionário esquisito – vocês sabem de quem eu tô falando, eu não faço merchan de graça pra bilionário. Eis lá, no meio de cinco ou seis mensagens sobre o que a gente tem que discutir, sobre o significado do carnaval e sobre o descaso do governo; aparece a verdadeira notícia do dia: a marca de macarrão instantâneo lançou uma nova linha, agora com sabores doces.

Beira a surrealidade: macarrão instantâneo de doce de leite, de beijinho, de brigadeiro. Parecia brisa de droga ruim, mas eu não tinha feito nada de alucinógeno na noite anterior e a ressaca era só a de sempre; a realidade de sempre, só que pior, sem o véu artificial de novidade que as doses de álcool produzem junto com a incredulidade intoxicada. O dia nasceu, o álcool passou, o miojo doce existe.

O problema é que usualmente eu não fico de ressaca, mas ontem experimentei uma nova bebida, dessas que tentam enlatar coquetéis: uma gin tônica prometida numa lata só. Creio que exista uma conexão existencial entre o miojo doce e da gin tônica em lata. Um foi feito para o outro e ambos foram feitos para nos avisar de que o capitalismo atingiu seu limite, e que com certeza o Mark Fisher previu a existência desse descenso da experiência humana.

Contudo, tenho a impressão de que esse não é exatamente um momento novo. A relação que o limite do Capital tem com a indústria alimentícia já deu seus sinais de fraqueza ali pelo começo do século XXI, o tédio do pós-fim da história e ansiedade com o bug do milênio. Porque, veja, a indústria alimentícia tem o desafio mais complexo do Capital: nos convencer que algo simples, nos alimentar, precisa ter algum tipo de inovação periódica. Ninguém vive de pão e água, óbvio, mas é nessa exaustão criativa que acontece agora e que aconteceu 20 anos atrás que surgiram coisas como o biscoito recheado sabor limão, o refrigerante de maçã verde e a skol beats, que nos persegue até hoje.  Se o pensador marxista decidisse estudar o que se vende para beber e comer no Brasil, ele ficaria horrorizado.

Como nenhum dia se sustenta com um erro só, decidi tomar o segundo erro do dia: escrever uma crônica que se inicia com bebedeira, que relaciona miojo doce, teoria marxista contemporânea e carnaval fora de época, e, pior, esse nem é um erro novo, é só mais uma crônica de eu-lírico masculino, alcoolismo, ideias soltas e lenientes.  Falta de alternativa, grotesco, repetição.  E o pior, depois desse carnaval fora de época, o Brasil descobriu que qualquer feriado pode ser um carnaval e dizem por aí que vai ter mais festança em julho, que é mais fora de época e mais frio que abril. Já prevejo a desgraça: a fantasia com sobretudo, a gin tônica enlatada, o miojo doce, a crônica leniente.

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