Depois do jantar, quando eu ia encher a chaleira, me lembrei do que estava escrito no cartão do Delfino: tente dormir mais. Mesmo que ainda fosse cedo e eu quisesse tomar só um golinho de café, resolvi seguir o conselho. Além do mais, eu estava sem disposição para fazer qualquer coisa. Coloquei uma legging preta e uma camiseta cinza de manga comprida e fui para debaixo das cobertas. Se eu conseguisse cochilar um pouco, já seria bom.
Em alguma hora, acordei para ir ao banheiro. Calcei minhas pantufas e quando estava no meio do corredor, olhei em direção à sala e percebi que havia algo diferente. Eu sempre deixava um abajur aceso e as sombras que se espalhavam pela parede não eram mais as mesmas. Ou eu não estava enxergando direito ou tinha alguém sentado na poltrona. Na mesmo instante comecei a tremer. Para piorar a situação, vi o meu celular em cima do sofá, ou seja, não dava para pegar sem ser vista. A mesma coisa valia para a porta de entrada.
Mesmo em pânico, fui andando bem devagarzinho até a ponta do corredor e ao esticar o pescoço pude reconhecer um nariz aquilino por detrás das abas da poltrona. O Bruno, pensei, ele ainda devia ter a chave do meu apartamento, e apesar de nessa altura nem me lembrar mais da sua existência, me senti feliz por ele ter vindo me ver (e uma certa raiva também). Só não entendi o motivo de não me chamar. Ao entrar na sala, levei um susto tremendo, o nariz, na verdade, era imensamente maior. Delfino estava ali.
Dizer que não fiquei aliviada, seria mentira. Fugir de um serial killer ia ser muito estressante, partindo do pressuposto de que o meu novo amigo não fosse um esquartejador. Não entendi como ele tinha conseguido o meu endereço e entrado aqui. Mas isso ele já ia me contar. Delfino! Acendi a luz e esperei ele me responder. Nada. Delfino? Delfino? Por mais que eu o chamasse, continuava mudo. Fui para frente da poltrona, além de estar com os olhos fechados, seu semblante não era nada bom. Quando toquei na sua mão, dei um salto para trás, Ele parecia uma raspadinha. Pela cor da sua pele, uma raspadinha de uva, sim, estava todo roxinho.
Me deu uma preguiça enorme de pensar que tinha um morto na minha sala. Amigos não fazem isso, mesmo um amigo de poucas horas. Como eu ia explicar isso para a polícia? Caramba, Delfino, não tinha outro lugar para você virar presunto? Será que essa história de dormir era só para ele poder entrar aqui sem que eu percebesse? Como uma barata sorrateira que vai na cozinha de madrugada atrás de comida?
Quando disse isso, me senti uma pessoa iluminada. Delfino devia estar faminto e não conseguiu chegar até a geladeira, passou mal antes, provavelmente teve uma tontura, e acabou se sentando. Podia ser uma inanição passageira e ainda estar vivo, um pouquinho que fosse.
Como eu nunca soube medir o pulso, prendia respiração e coloquei a orelha no seu peito. Dava para escutar um chiado, bem fraco, como se tivesse um filhote de gato raspando as unhas na sua garganta. Já era o suficiente para mim. Corri para a cozinha, mas ao chegar lá, minha cabeça deu um nó e permaneci imóvel por alguns minutos. O que seria melhor eu preparar para ele? Dentro dessa pergunta tinha uma outra que me deixou mais indecisa ainda. Como se dá comida para um morto? Mexendo a arcada dentária inferior e fazendo ele mastigar. Com tantos dentes qualquer coisa sairia dali estraçalhada. Mas e para ele engolir? Um espeto goela abaixo?
Precisava também ser algo energético que ligasse Delfino na tomada. Café, meu medo era que por ser líquido demais, ele começasse a soltar umas bolhas e morresse pela segunda vez, afogado. Mingau com bastante açúcar seria perfeito se eu tivesse leite, maisena e açúcar. Abri a geladeira, fora os meus queijos importados que de maneira nenhuma eu ia dar para ele, vi que entre um vidro de mostarda do século passado e outro de alcaparras, tinha uma caracu. Perfeito. Joguei no liquidificador e bati com um resto de conhaque e sete gemas de ovo. Com defunto, melhor exagerar.
Agora era a parte mais difícil: puxar as pernas de Delfino para que ele escorregasse da poltrona e sentasse no chão, depois empurrar sua cabeça para trás. Ao pegar nos tornozelos dele, me deu uma aflição terrível, soltei os cambitos e comecei a chorar. Um ódio mais ou menos grande tomou conta de mim, quando percebi já tinha puxado além do necessário. Para segurar o tronco, larguei as pernas, elas caíram cruzadas sobre o tapete, os cotovelos permaneceram lá em cima, enganchados nos braços da poltrona. Se tivesse uma garota de cada lado, Delfino sairia bem na foto. Com a nuca espremida e o pescoço esticado ao máximo ninguém se sentiria confortável, mas era o que dava para fazer.
Bati a caracu de novo para que espuma voltasse a ser cremosa e com mais alguns apetrechos, me ajoelhei ao seu lado. Usei um pano de prato de babador e abri a sua boca com a ajuda de uma colher. Em seguida, prendi um pegador de gelo em suas bochechas para que ele fizesse biquinho e enfiei um funil entre seus dentes.
De pé, comecei a virar o conteúdo do copo do liquidificador com cuidado. Como tudo ia bem, segui em frente só que prestando atenção em suas pálpebras, se elas iam se mexer ou não. Para a minha sorte elas deram uma tremida bem pequena e logo pude sentir sua respiração esquentar os meus dedos. Afastei o copo para dar uma checada no resto do corpo, nesse instante me dei conta que uma boa parte da poção ressuscita defunto tinha escorrido das dobras da boca dele e tanto a sua roupa como o tapete estavam encharcados. Eu só sei que o cheiro da caracu, das gemas, do conhaque se misturou ao cheiro de Delfino, que agora por estar quentinho cheirava camarão resfriado e cheetos. Uma inalada foi o suficiente para eu desmaiar. Lembro dos meu joelhos dobrando e que caí no chão.
Acordei com o sol entrando na sala e o meu rosto na poça do tapete. Nem sinal de Delfino. Se eu contasse essa história, iam dizer que eu estava sonhando, não se ressuscita um morto, ainda mais com cerveja doce e coisa e tal. Só que ele deixou um bilhete na mesinha de centro junto com uma nota de cem dólares.
“Nina, querida
Não sou mais o mesmo, me perdoe. Fico te devendo uma.
Você me ressuscitou duplamente.”
Não entendi bem, mas achei fofo, apesar de ter que limpar toda aquela zona. Quando virei o papel, vi que ele escreveu no verso de uma nota de uma casa de swing, e a data impressa era ontem. Puta que o pariu, Delfino.
