(Bruno Vicentini)
Antes, parece recomendável (ou, antes, fundamental, ou, pelo menos, prudente, ou então de bom-tom) que o autor esteja preparado. Que tenha lido todo o Poe, todo o Hemingway, o Tchekhov, a Mansfield. Que saiba a diferença entre a língua histórica e a língua funcional. Que conheça a Jornada do Herói de cor e salteado. Que tenha lido todos os grandes romances, Ulysses, Rayuela, Infinite Jest, 2666, todos os catataus que sobressaem nas estantes durante chamadas de vídeo. Que tenha lido Catatau. Que domine colocação, regência, concordância, figuras de linguagem, de sintaxe, o anacoluto, a braquilogia, haplologia sintática, expressão expletiva ou de realce. Que seja convicto acerca da autopublicação. Que tenha passado os últimos vinte ou trinta anos lendo de maneira compulsória. Que conheça alguém numa grande editora. Que não tenha ignorado Kafka. Que se reconheça como brasileiro e que portanto tenha lido João do Rio, Clarice, Barreto, Machado. Que conheça as formas rizotônicas e arrizotônicas do verbo. Que também conheça escritores obscuros, macedônios. Que seja desenvolto com orações complexas, com grupos oracionais. Que tenha lido seus contemporâneos, incluídos aí os que estão escrevendo agora, neste exato momento. Que tenha pedido benção aos escritores malditos, sobretudo aos do seu estado, o Karam, o Turco. Que domine a gramática descritiva e normativa. Que seja amigo dos escritores da sua cidade. Que tenha feito as oficinas literárias corretas. Que tenha feito também as incorretas, sobretudo essas. Que se faça de íntimo do Joca, do Bressane, da Bensimon, do Marcelino. Que tenha passado os últimos vinte ou trinta anos atento à janela, ao mundo lá fora. Que compreenda o triunfo da forma sobre o conteúdo. Que tenha medo da morte. Que esteja enganado.
De modo que vou parar por aqui e deixar o conto pra uma outra oportunidade.
