– Carlos Francisco, temos só quinze minutos. Vai lá e cata o bicho – Valéria se equilibrava num pé enquanto calçava o outro tênis.
– Tá vivo. Não vou conseguir.
– Tá nada. Tá morto. O chumbinho do Amílcar fez efeito.
– Parece meio quente e ainda flexível. Acho até que o pelo duro levanta quando ele respira. Se eu cutucar, ele foge e aí a gente se lasca.
– Se fugir, é porque está vivo e não vai apodrecer.
– Mas e o veneno? Se comeu, vai morrer e ficar fedendo. São vinte dias fora de casa, Valéria.
– Quer que eu resolva. É isso? Já estou pronta. Você cuida da bagagem.
– Não. Pode deixar. Eu resolvo.
– Que bom! Vou pôr as malas no elevador. Já pedi pro Amílcar tomar conta lá embaixo.
– Vou jogar um cobertor por cima.
– Nada disso! Estão todos embalados no armário.
– Chama o Amílcar!
– Ele vai tomar conta das malas, não ouviu? Temos só doze minutos.
– Vou deixar o bicho aí.
– Vai contaminar tudo.
– Quero um pano, Valéria. Uns xales destes seus.
– Minhas pashminas de Cashmere? Nunca!
– São falsas.
– Como, Carlos Francisco?
– Falsas! Depois explico. Me passa uma. O closet tá cheio.
– Como falsas, Carlos Francisco?
– Me passa uma! Pega lá!
– Como falsas, Carlos Francisco?
– Ele está morto, Valéria! Pegue então um pano de chão.
Valéria segue para a área de serviço lembrando das pashminas que ganhava a cada viagem de Carlos à India. Seis. Duas para cada uma das palestras sobre educação pública a que foi convidado assistir. Nas três vezes, passou na faculdade antes de voltar para casa. Buscava os xales que alguém comprava na 25. Só podia ser.
– Tá aqui – ela atirou o retângulo de pano de saco e Carlos pegou no ar.
– Acho que está vivo e não é um rato. Ele abriu uma asa logo depois que você saiu.
– Um morcego?
– Não sei dizer.
– Que bicho é este, Carlos Francisco? Um rato falso como as minhas pashminas?
– Não é um rato, não é um morcego e não sei se está morto.
– Se abriu uma asa está vivo.
– Não sei. Pode ter sido um espasmo.
– O Amílcar não disse que era um rato?
– Ele acha que viu um rato, mas só viu a sombra e botou veneno.
– Você nem teve coragem de chegar perto. Deixa que eu vou
– Não. É melhor ficar por aqui. Ele vai se assustar.
– Temos só nove minutos. O táxi vai chegar. Use o seu chapéu.
– Não tenho mira pra acertar o bicho, Valéria.
– Sabia que também é falso?
– O chapéu?
– Sim. Comprei na Porto Geral – Valéria riu e comentou que o bicho já estava fedendo.
– Que é isso? Você está sugestionada.
– E os olhos? Você viu os olhos, Carlos?
– Ele está assim desde manhã quando entrei pra pegar meu tablet. De costas e sem parecer respirar.
– Não tem olhos? É um monstro que fugiu dos teus livros.
– Quer resolver ou quer discutir?
– Quero este bicho longe e quero pashminas legítimas, Carlos Francisco. Agora entendo a coceira.
– Este pano de chão é pequeno. Arranque a colcha da cama.
– De jeito nenhum. Vou buscar as pashminas falsas. Uma a uma. Jogue tudo por cima do bicho. Temos só mais seis minutos.
– Ótimo!
– Tá aqui ó! – Valéria atirou o amontoado de xales na direção de Carlos. Um a um ele foi jogando sobre o bicho que permaneceu imóvel.
– Tá vendo. Tá morto. Nem se mexe.
– Aleluia! Problema resolvido – Valéria entregou o chapéu para Carlos – Veste aí, o táxi está chegando.
Carlos alisou a abas curtas do Pork Pie , acertou na cabeça e voltou para olhar pela última vez o amontoado de xales coloridos sobre o bicho. Ele formava uma pequena montanha do tamanho de uma bola de futebol murcha. Não era um rato, não era um morcego.
– O táxi chegou e já avisei o Amílcar pra dar um fim nos panos e no bicho.
– Devia ter pensado nisto antes.
– Ele já ajudou com o chumbinho.
– Vamos embora. A gente deixa a chave e ele termina de resolver.
– Carlos??
– Sim.
– Você ouviu?
– O quê?
O bicho espirrou. Pashminas falsas, Carlos Francisco.
