As festas registradas no planejamento anual eram obrigações burocráticas que os professores cumpriam distribuindo figuras para colorir feitas no mimeógrafo a álcool. Quando a prefeitura enviou máquinas copiadoras, as imagens puderam ser tiradas diretamente dos livros e a trabalheira para as comemorações diminuiu. A estreia do facilitador aconteceu na festa do folclore com ilustrações de sacis, cucas e boitatás. Depois de coloridas, as figuras, que deixaram de ter os contornos roxos dos estênceis, pareciam, aos olhos dos alunos, quase reais.
A professora Lourdes, de educação artística, era a única que via importância na data e além das folhas para colorir, ensaiava peças, canções e danças com os estudantes. Ela aplaudiu a inovação da copiadora e só não monopolizou a máquina porque havia limite de folhas por professor. Mesmo assim, conseguiu parte das cotas dos colegas e tirou proveito de mais ilustrações para montar cenários no palco da escola. Doroty foi a única que não cedeu uma mínima fração de sua cota. A professora de história tinha voltado da sua última licença médica ainda mais intolerante, religiosa e ruiva. Um serva de deus, como no adesivo colado na porta de fórmica do seu armário .
A professora das artes não era de inovações, ela ia repetir quase a mesma apresentação do ano anterior. Como sempre, os papeis foram distribuídos no início do mês para que os estudantes pudessem levar as fantasias tomarem sol em suas casas. A máscara da Cuca, a touca do Saci, a peruca vermelha do Curupira e umas capas de folhagem passavam o ano em sacos de pano no almoxarifado da escola. Para esta festa, ela estranhou a dificuldade em encontrar estudantes dispostos a participarem dos pequenos números de lendas e danças, mas conseguiu um mínimo necessário de personagens.
A dois dias da apresentação, Doroty mandou avisar ao diretor que não desceria para assistir às peças porque discordava da divulgação de histórias fantásticas nas escolas públicas e que poderia tomar conta das crianças que também não desceriam e compartilhavam de suas mesmas ideias. Criou-se um mal-estar com a direção e os colegas não acreditavam em crianças sem vontade de ver as apresentações no palco. Comentava-se com um certo cuidado que a professora de história usava a desculpa para poder descansar no sossego de uma sala sem alunos. O que não se esperava é que no dia 22 de agosto, o dia da festa, Doroty tinha conseguido juntar trinta alunos que também não desceriam para a apresentação.
O palco era a continuidade elevada do pátio de piso cerâmico onde os estudantes faziam as refeições e passavam os minutos antes das aulas ou intervalos. Nunca foi um auditório como o das grandes escolas privadas. A acústica ruim voltava num eco metálico que impedia a compreensão de quem ficava depois dos terceiros vitrôs laterais. Por isso, nas apresentações, acomodava-se a plateia de estudantes toda sentada no chão antes desta janela. Com trinta estudantes a menos, o espaço ficou melhor distribuído.
A inovação para este ano era um pequeno folheto com a letra das canções para que todas as crianças acompanhassem alguns dos números cantados. Foi fácil fazer com a máquina de xérox. “Alecrim Dourado”,” Se esta rua fosse minha”, “O cravo e a rosa” encheram o pátio , mas a acústica ruim fez chegar a música ao andar de cima como um coro de gritos agudos . De lá, a professora Doroty tentava superar com as canções de louvor religioso que os seus pequenos seguidores liam ,com devoção, das folhinhas da sua cota de cópias.
Estabeleceu-se uma batalha de vozes que só cessou quando a professora Lourdes suspendeu o coral para apresentar as lendas. Do Saci para a Cuca, da Cuca para o Negrinho do Pastoreio. Quando o Leandro Samuel do quinto ano entrou no palco vestido de Curupira, a Luana, logo ali na frente, sentada no gargarejo gritou que a peruca parecia o cabelo ruivo da professora Doroty. Foi difícil segurar a gritaria e o riso também de uns colegas. O próprio Leandro riu, a professora precisou usar o microfone para pedir silêncio. O microfone que ninguém tinha testado, mas que, depois de um ruído altíssimo e agudo, funcionou e serviu para acalmar a plateia.
No rápido intervalo de silêncio entre as apresentações, o público no pátio conseguia ouvir os cantos da professora Doroty. As crianças na sala de aula pareciam estimuladas a gritar. Professora Lourdes deu início às apresentações de dança e convocou os estudantes a fazerem rodas. Estava mesmo no programa e ela sabia que a dança com participação de todos era um ótimo encerramento para a festa. O que não estava no programa era o som da música no volume máximo para superar as canções de Doroty. Tão alto que fez Terezinha, a escrituraria, deixar a secretaria e vir contar que, depois da música exagerada, a máquina copiadora ao lado de sua mesa passou a roncar e cuspir cópias coloridas do Curupira. A animação no pátio era tanta que ninguém prestou atenção na mulher de um metro e oitenta apavorada e acenando da porta que ligava a parte administrativa ao pátio.
O barulho só terminou quando a professora Doroty veio descendo enfurecida com seus alunos em fila. Ela exigia aos berros que a música parasse e queria explicações de quem seria o aluno de peruca vermelha que foi dar risadas na porta de sua classe. Os estudantes e os professores, procuraram por Leandro Samuel que estava sentado como os demais acompanhando a cena. Não era Leandro Samuel.
Agora sim, todos olharam para Teresinha, a escrituraria. Atrás dela, um índio de pele brilhante com cabelos vermelhos espetados apontava para a professora Doroty e seus alunos em fila no alto da escada. Ela ergueu as mãos para o teto como se pedisse uma salvação. As crianças que a seguiam correram de volta para a sala. A professora ficou sozinha no último degrau antes do patamar. O Curupira saiu detrás de Terezinha e ficou a um passo de subir. Curiosamente seus pés virados estavam na posição normal e os da professora de história voltados para trás como os dele. Ela quis avançar sobre o indiozinho de cabelos ruivos e rolou na escada.
