– Minha senhora, se acalme. Como foi isso?
– Foi assim, eu tinha acabado de voltar da casa de minha mãe, Dr.
– Deixe de conversa, Dina. Foi pra pra casa de mãe nenhuma.
– Juro a tu, Berna. Eu tinha acabado de chegar quando tu entrou.
– E tava de camisola por quê?
– Oxe, porque tá quente. Calor danado. Cheguei e botei camisola.
– Camisola nova? Do nada?
– Comprei pra tu, bonito.
– Tava calor e botou camisola antes de tomar banho? Toda suada.
– Mas tu não disse que gosta de mim sujinha? Tava te esperando.
– Meus queridos, depois a gente vê isso, bora lá. A senhora chegou em casa, calor danado, camisola nova, suada, sujinha e…
Bernardo se desentendeu com a cadeira. Tinha ciúmes até de muriçoca que pousasse na perna de Dina. Uma pousada de olho dessas não passaria batido se a cena não estivesse acontecendo na segunda DP de Boa Viagem. Ele tirou a jaqueta encardida num pulo e colocou por cima do ombro ossudinho de Dina, coberto só pela alça de camisola de cetim. Chovia. Em Recife se usa casaco na chuva, independente da temperatura; na sala, delegado e marido já suavam mais do que ela.
– Dr., foi o seguinte, depois de trocar de roupa, ouvi Berna abrindo a porta. Fui direto pra sala. Nem entrar no quarto entrei, sabe?
– Oxe, e a camisola tava aonde?
– Na sacola que deixei na sala. Não era nova?
– Tu trocasse de roupa na sala sem cortina? Porra, Dina.
– Pera aí. Deixe eu contar.
Foi bem assim mesmo. A sala ficava a três passos do quarto. A porta do guarda-roupa escancarada, de maneira que nem deu pra fazer o clássico de procurar entre vestidos. Bernardo não achou, mas sabia. Teve nojo da colcha embolada na cama. Foi presente da sogra, mulher séria, rapaz, emendou fuxico por fuxico pra eles. Pela primeira vez, achou o quarto pequeno, feio, escuro, a janela fechada como ele deixava quando estava com ela. Deu meia volta, pra pensar, parou quieto diante da porta olhando pra Dina, bochecha rosada de nervoso ou de cansaço. Quando a boquinha dela, que era dele, só dele, mostrou um pedaço dos dentes da frente num sorriso aliviado que continha uma nesga de deboche, ele retomou a raiva. “Desisti não, viu?”, gritou se voltando pro quarto, olhou por baixo da cama e foi aí que sentiu o chute. Um chute tão forte, tão forte, que fez Bernardo perder a noção, apagou mesmo.
– Pronto Dr., nessa hora eu fui acudir Berna e a perna saiu pulando. Era horrível, uma unha comprida, suja. Ó pra aqui ó – ela tira a jaqueta pra mostrar o ombro arranhado, Bernardo puxa de volta.
– Só uma perna? Assim solta mesmo?
– Não tô dizendo. Me deu uma rasteira e saiu pulando em mim e nele. Pra malvadar mesmo, sabe? Quando Berna acordou, ela já tinha fugido.
– Olhe, vamos simplificar que tem muita gente pra ser atendida ainda hoje. A senhora está aqui pra dar parte desse homem? Foi ele que te arranhou, foi? A senhora está machucada?
– Não senhor. Eu tô aqui pra dar parte da perna.
– Fique na sua, Dina. Dr., a gente tá aqui pra dar parte do meu vizinho. Antônio Pereira, anote aí. Eu conheço aquele gambito. É dele. E ele não tem um só não, tem outro, tem braço, barriga, cabeça tudo. Se o Dr. não conseguir dar jeito por aqui, resolvo eu.
Já que não quiseram dar parte de um e não tinha como dar parte do outro – nem da perna – voltaram pra casa no nada feito. Quem ficou foi o Dr. Guilherme, delegado substituto transferido de Salgueiro não tinha nem um ano. O plantão só acabava de manhã. Ouviu história troncha até ás 7h. E depois, fez como fazia todo sábado, passou na banquinha de jornal, pegou um Diário de Pernambuco e seguiu pra casa.
Na capa, que leu ainda no carro, a seguinte manchete. “Encontro de terror em Boa Viagem”. E seguia: “Na madrugada de sexta-feira, foi encontrada na praia, 46 anos depois, A perna cabeluda. Os primeiros banhistas chegaram a vê-la agonizar na areia. Até agora, não se sabe se foi obra do já conhecido tubarão ou do vilão-novidade peixe-leão”. Deu no Bom Dia PE e no NE Tv das 12h e das 6h. Semanas de repercussão e um tanto de fantasia de perna no carnaval seguinte. Carnaval não pulado por Antônio Pereira, ainda aprendendo a lidar com a prótese.

