por Américo Paim
Joça havia avançado muito dentro da mata, agora bem fechada, mas tranquilo por conhecer a região. Já estava escuro quando encontrou um pequeno descampado. Resolveu passar a noite ali. Conferiu a carga do revólver e deixou a luz da lanterna fraca, o bastante para escolher onde colocar o saco de dormir. Só na hora certa faria a fogueira, mais por causa do frio do meio do ano. Escolheu comer biscoitos para o cheiro de comida não atrair bicho. Tomou da cachaça que trouxe na garrafa pequena de capa de couro. Irônico. Presente de Luizão, o cara que lhe fez fugir às pressas da cidade.
Abriu o pacote e matutou sobre a enrascada e como sair dela. Revisou tudo, mais uma vez: limpou todas as possíveis digitais, trocou a roupa da pobre morta, queimou seu pijama, fechou tudo em casa, fez denúncia anônima à polícia e se embrenhou no mato, sem sinal de celular. De volta a Pedra Velha, diria que acordou de ressaca e saiu correndo para comprar mantimentos e acampar. Não entrou na cozinha, por isso não viu o corpo de Sirlene. Teria marcado com Moringa, mas ele desistiu. Então resolveu vir sozinho. Essa era a história ensaiada para a polícia. Orientou o amigo a confirmar a versão de desistir do acampamento, se alguém o procurasse. Depois lhe explicaria tudo. Parecia perfeito. O importante era escapar de Tuba. Ou isso, ou morte certa. O homem era um animal. No terceiro gole da branquinha, escutou o barulho. Ficou em silêncio e apagou a lanterna. Acostumou a vista. Percebeu um vulto correndo, deu o primeiro tiro. E outro e outro. Impressionado com a velocidade com que aquilo se movia, atirou mais três vezes, em intervalos bem pequenos. Agora, o silêncio. E o medo. Apurou a escuta. Antes que pudesse recarregar, o ruído se repetiu, bem mais forte. O que fosse, estava muito perto. Joça acendeu a lanterna de imediato.
Foi difícil acreditar na criatura poucos metros à sua frente. Um misto de homem e lobo, muito alto, mais de dois metros com certeza, pelo negro por todo o corpo, garras descomunais que pareciam reluzir e dentes assustadores. Seus olhos eram grandes e amarelos e tinha aparência de sujeira e abandono. A criatura parecia muito forte. Nem teve como pensar em gritar ou fugir. Se assustou de vez porque ele falou.
– Está perdido por aqui?
– Eu… eu tô… tô acampando.
– Hum, aqui não é seguro.
– Por favor, véi, não me faça mal!
– Ah, fique tranquilo. Se eu quisesse, já tinha lhe matado. E comido.
– Cremdeuspade!
– Você nem ia saber o que foi.
– Meu senhor, calma, eu posso vazar agora, é só…
– Não.
– Mas é que…
– Não abuse do destino. Comi uma ovelha perdida há uma hora. Estou sem fome agora.
– Hein? Olhe, veja só, não dá pra levar esse papo outro dia? Eu vou…
– Sente. Temos coisas a resolver.
– Eu? Nem sei quem é…
– Sorte sua.
– O senhor tem nome, né?
– Não me reconhece?
– Eu tô um pouco nervoso, não me leve a mal…
– Sou o Quibungo.
Joça hesitou. O nome não deu um clique imediato, mas não demorou a lembrar. Se viu de novo na fazenda do Vô Hélio, junto com os primos, ouvindo as histórias de assombração que ele contava escondido de Vó Tita – ela não queria que as crianças escutassem aquelas coisas na hora de dormir. Se tinha uma coisa que o velho gostava era falar das criaturas da mata. Muitas vezes a cama amanhecia molhada. Não tinha nenhum monstrinho camarada, feito desenho animado de televisão. Foi um devaneio rápido e acabou quando ele se tocou sobre a natureza da criatura à sua frente.
– É… aquele das historinhas de criança? Das bagaceiras todas?
– Tenho cara de personagem?
– Peraí, muita calma nessa hora, sem estresse. É que não é sempre que…
– Bom para você.
– Mas, Seu Quibungo, o senhor não come só criancinha teimosa?
– Faz tempo que isso mudou. É preciso se adaptar. A crise e tal e coisa.
– Hum, isso não é bom. O senhor mudou a parada da dieta, é?
– Foi necessário. Essa coisa das crianças que não querem dormir cedo acabou.
– Oxe, como assim?
– Os pais não ligam muito. Nem contam mais as minhas histórias.
– Isso é verdade.
– Nem sabem se os filhos tão dormindo ou não.
– Que situação. E o senhor anda comendo o quê? Se me permite a pergunta…
– Um pouco de tudo.
– Hum… geral assim é, meu cristo?
– Sim, bicho, gente. Depende da fome.
– Ah, tá… Veja, eu lembrei de uma coisa que tinha nas suas costas…
– Já vi que não esqueceu de tudo…
A criatura soltou uma risada terrível e virou-se. Joça paralisou diante do que viu – era verdade, então! A bocarra transversal com dentes horrorosos e língua gorda se estendia maligna da base do pescoço até a cintura. Aquilo bem cabia uma criança inteira. Escorria até uma baba gosmenta. O Quibungo lhe olhou.
– Satisfeito?
– Não é bem essa palavra…
– Quer perguntar?
– Veja só, essa coisa das criancinhas não é legal. Não pensou numa pegada vegana?
– Não escolhi. É minha natureza.
– Oxe, nunca rolou assim, denúncia, polícia, pessoal do meio ambiente…
– Sou discreto. Não deixo pistas.
– Ah, moleque… Mas eu ouvi sua chegada hoje.
– Porque eu quis.
– Ah, tá, de boa. Então, Seu Quibungo, o que tá pegando?
– Não acreditam que eu existo. Com a Internet, então, perdemos mais espaço.
– Perdemos? Tem mais, assim como o senhor?
– Somos vários. Curupira, Boitatá, Bradador, Mapinguari…
– Rapaz…
– Nos reunimos e, diante da crise, fizemos alguns ajustes territoriais e de dieta.
– Olha só, véi! Até aqui tem sindicato?
– Muito engraçadinho… Sua situação é delicada.
– Opa, calma aê, foi sem querer, foi mal.
– Estou por essas terras já faz tempo.
– E eu acampando por aqui… Deus é pai…
– O que disse?
– Não, nada.
– Bem, chega de entradas. Vamos ao prato principal.
– Peraí, Seu Quibungo, fala assim não…
Com muito medo, Joça sentia que aquilo tudo poderia acabar bem mal. A lanterna colocada entre eles tornava a atmosfera pesada com a voz fria do monstro. As lufadas de vento traziam um cheiro fétido, algo como mau hálito, o que não o deixava esquecer a boca medonha, que de vez em quando se fazia ouvir, com um ranger de dentes. Sem opção e muito menos ideia do que aconteceria, ele ouviu mais do Quibungo.
– Ando cansado. Minha hora está chegando.
– Que é isso, o senhor tá aí fortão…
– Apenas escute. Tem um caso antigo que me incomoda.
– É o quê?
– Eu comi a criança errada. Foi uma circunstância. A partir dali, tive que mudar.
– Que coisa triste, né?
– A questão é que nunca esqueci. Queria compensar.
– E tem jeito?
– De trazer de volta não, mas posso me resolver com a família.
– E quico? Quicotenho a ver com isso?
– A criança foi seu tio-avô.
Aquilo foi um choque. Joça raciocinou rápido: só podia ser o tio Venâncio. O que contavam que ainda criança sumiu na mata e morreu afogado no rio, história até famosa em Pedra Velha. Na época deram busca em tudo que é canto. Não acharam pista ou corpo. Contaram de afogamento, que o rio tinha correnteza muito forte, era barrento, que ficou difícil para as equipes de busca. A verdade é que o menino fugiu de casa de noite e se perdeu no mato. Agora sabia do triste fim.
– Como sabe que é ele?
– Apenas sei. E vocês se parecem. Espero há muito por esse dia.
– Seu Quibungo, que sacanagem da porra, véi.
– Já disse: é a natureza.
– Diz aí, onde deu merda?
– Tinha mais um menino no mato naquela noite. Seu tio apareceu primeiro.
– E quem foi o outro?
– Não faço ideia. Quando vi já estava sem fome.
– Peão sortudo da porra! Vou contar pro meu pessoal.
– Não vai. Não quero. Essa coisa de Internet expõe demais.
– Oxe, essa história aí, rapaz…
– Não. O assunto morre aqui. E você vai passar como idiota. Ninguém acreditará.
– Lá isso é verdade.
– O que lhe ofereço é comer alguém como consolo.
– Oxe, que papo é esse?
– Não entendeu? Você traz um pra morrer aqui no mato.
– Mas aí a coisa pega, é crime.
– Só para você. Terei prazer.
– E se eu não topar?
Ecoou um riso de escárnio que traduziu a seriedade do momento. Preocupado porque a criatura já parecia impaciente, lembrou da sua situação com o bandido Tubarão. Não resistiu e perguntou:
– O senhor tem algum problema com peixe?
