Um brinde à vida

Um brinde à vida (texto de Carol Schettini)

Você faz tudo pra me irritar. Tudo. Qual foi o combinado? Atender o celular assim que eu chamasse. Liguei uma. Liguei duas. Liguei cinco vezes! E você? Atendeu? Não. Nem ligação normal, nem de zap. Aguarda, Ernesto, estou chegando, você vai se ver comigo.

Essa garagem lenta. Buzinei quatro vezes e o porteiro não abre. Ele quer que eu desça do carro? Vai querendo! A placa está anotada. A placa, o modelo, o ano, a cor. Se duvidar, tem meu tipo sanguíneo. Abre logo esse portão! Vou buzinar de novo. Aleluia.

Agora é a vez do elevador me irritar. Está parado no décimo andar há minutos. O que estão tirando de dentro? Uma pilha de cristais? Porta aberta não é proibido? Quarenta segundos e apita. Você, Ernesto, me paga, deixa eu chegar em casa. Aperto o botão do elevador trinta vezes seguidas. Demora, mas largam. 

Cadê minha chave? Cadê minha chave? Vou tocar a campainha. Aposto que você não vai abrir. Nunca abriu uma porta na vida. Não deve saber nem que esse barulho estridente está chamando por alguém. Por que fazem essas bolsas cheias de buraquinhos? Onde está a chave? 

Ernesto, cheguei! Cadê você? Não disse que era pra me atender. Você atendeu? Está escondido com medo de eu te matar? Ah!, Ernesto, vontade eu estou. Se eu tivesse uma faca de prata com cabo de marfim igual a do livro, eu ia degolar você. Num golpe só. Onde você está?

Cadê esse homem? No mínimo, está dormindo. São quase onze horas. É tarde até para um preguiçoso igual a ele. Deixa eu chegar no quarto. Será que saiu? Eita, está deitado de roupa no chão.

Ernesto, o que você está fazendo deitado no chão? Tá maluco? Bebeu a essa hora? Tudo bem beber igual você bebe de noite, mas de manhã cedo?! Levanta logo daí. Preciso de ajuda sua para completar um negócio. Levanta, vai, para de gracinhas.

Apoio minha bolsa na mesinha de cabeceira. Ernesto continua imóvel. Sento na cama. Bato as mãos no colchão. Vem logo, Ernesto. Não tenho o dia todo pra aguentar suas mimadices. Espero um minuto. Dois. Dois e meio. Ele não se mexe.

Ernesto, vou ter que te cutucar? Gente, ele parece morto. Ernesto, se você não estiver morto, vou te matar. Faço cócegas debaixo do seu braço. Um lugar que por mais que ele tente, não consegue disfarçar o incômodo e os risos. Ai, que aflição. Faço cócegas com todos os dedos de todas as mãos no corpo dele todo. Inércia. Capacidade de resistir à mudança de movimento. Por que o conceito de física vem agora à minha mente? Agora. Quando não serve pra mais nada.

Vi num filme que colocam um plástico na boca da pessoa pra ver se está respirando. Um plástico ou um espelho? Deixa eu correr no banheiro pra pegar meu espelhinho de sombra. Nada. Testo na minha frente para ver se está funcionando. Sopro e embaça. 

Ernesto, não acredito que você teve o mau gosto de morrer em casa. E você me prometeu! Se eu largasse a vida e viesse morar com você, você ficaria comigo até eu completar quarenta anos pelo menos. Quarenta. Você não pode estar morto, brincadeira tem limites, né, Ernesto? 

O que eu faço? O que eu faço? O aparelho de pressão. Me dá seu pulso. Nada. O outro aparelho. Você sempre diz que esse dá problemas. O outro. O trambolho. Cadê? Difícil encaixar no seu braço. Nem um sinal.

Poxa, Ernesto, que sacanagem! Olha seu rosto! Deitado com um sorrisinho sacana no rosto, uma boca reta colada de riso. Deve estar rindo da minha cara. Sabendo que vai me dar trabalho. Vontade, Ernesto, de te dar uns tapas!

Deixa eu pensar. Deixa eu pensar. Ele sempre me dizia que em tudo na vida a gente precisa ser prático. Se acontecer algum imprevisto, seja prático. Foi o que ele disse quando deu overbooking no voo pra Dubai. Fomos colocados num hotel cinco estrelas e voltamos de executiva na Emirates. Isso! Ele me disse: seja prática.

Cadê o notebook dele? Vou comprar passagens pra a gente ir a Paris próximo ao meu aniversário. Vou usar as milhas. Ele vai ficar feliz com a minha atitude. Deixa ver, deixa ver. Um voo ótimo. Direto. Pronto. Ernesto, tirei de executiva, igual você me ensinou. Ainda bem que tive essa ideia. Você ia ficar possesso em perder milhas. Não gostava de perder nem moedinhas em cassinos. 

Outra coisa, se lembra, você me disse, ia me dar um presente especial de aniversário? Não são todos os anos que a gente faz trinta anos. Deixa eu escolher um presente pra você me dar. Um anelzinho? Um brinco? Um conjunto. Você gosta de ouro com pedras. Pedras roladas seria uma boa. Só tem de prata. Prata não, né? Ouro. Quanto mais amarelo melhor. Prontinho, prontinho. Usei o seu cartão platinum. Vai ganhar pontos à beça.

Está quase na hora de eu ir ao médico. Marquei essa consulta tem três meses. Não dá pra desmarcar. Paguei mil e quinhentos pra garantir a vaga. Não dá pra desperdiçar dinheiro. Difícil de ganhar. Vou ter que ir. Não tem jeito. Quando marquei, a secretária disse com todas as letras: nem com morte devolveria a caução. Será que ela é vidente? Não tem jeito. É uma emergência. Fica aí, Ernesto, não se mexa, eu já volto. Assim que eu voltar, eu chamo o bombeiro, descansa um pouco.

Espero que essa médica não demore. Vou falar pra ela fazer os procedimentos mais rápidos que tiver porque tenho um enterro para ir. Um enterro, melhor não. É muito deselegante. Um evento. Tenho um evento. Não preciso entrar em detalhes. Pior se ela fizer alguma coisa extravagante e eu ficar com cara vermelha igual intoxicação de camarão. Ernesto que tem alergia a frutos do mar. Coitado. E ele gosta tanto de chupar a pata da lagosta. Toma um antialérgico antes para poder ter o prazer. Deixa eu me concentrar aqui na consulta. Concordo com tudo. Saio embalada em papel contact.

Um engarrafamento. Tudo que mereço. Mônica me liga. Um gênio que inventou esse botão de atender telefone dentro do carro. Ela convida pra um jantar. Não vamos poder ir. Ela insiste. Não vai dar. Insiste muito. Quando chegar em casa, falo com Ernesto e te ligo. Pronto. Resolvido. Quando ela me ligar cobrando, falo que Ernesto preferiu morrer a enfrentar o tédio de jantar na casa dela.

Cheguei, Ernesto. Ele continua lá. Não moveu um centímetro. Ernesto, não vou ligar pra ninguém hoje. Me desculpa, mas tá tarde. Não quero ficar sozinha. 

Onde você guardou aquela garrafa de champanhe para um dia especial? Vou abrir hoje.  Sento a seu lado. Olha, Ernesto, um lindo sol se pondo por trás da cortina de voil branco que você escolheu com tanto cuidado. Desse ângulo do chão é mais bonito.

Um brinde, Ernesto. Um brinde à vida. Amanhã, a gente pensa o que fazer. Hoje, vamos ficar aqui só nós dois. Não quero dormir sozinha. Você pode até estar morto, mas ainda é meu marido. Te amo. 

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