Antes de entrar na barbearia, Cléber espia do outro lado da rua. Reconhece o rastafari de Dedé, atendendo um cliente na terceira cadeira. Talvez Augusto esteja na cozinha, ao fundo, tomando café. Não vem carro, pode atravessar. Então, identifica os sapatos engraxados de Seu Evaristo, bem perto da porta de vidro. O nonagenário, dono do pequeno salão, está sentado logo ali na entrada, de pernas cruzadas. Com sorte, tira um dos seus célebres cochilos e nem vai perceber a chegada de alguém. Sim, lá está o velho, mãos entrelaçadas sobre o colo, cabeça tombada de lado, topete branco um tanto anárquico, boca escancarada. Só o bigodão cinza-amarelado parece impedir a fuga da dentadura. Silêncio, não convém despertar uma lenda-viva.
Ao empurrar a porta, as falanges grossas da mão de Cléber estalam em sequência. Tique de baterista. E basta para Seu Evaristo voltar a respirar, abrir os olhos e já entrar no modo funcional, tirando a tesoura do bolso do jaleco ao se levantar.
Boa tarde, pode se sentar, fica à vontade.
Ô, Seu Evaristo. Como vai? Não queria acordar o senhor.
Quem está dormindo? Só descansava a vista. Seus pais vão bem? Sua avó?
Augusto sai do banheiro, ainda passando o pente nas costeletas à Elvis. Vê o visitante e lamenta com uma encurtada de ombros e o franzir dos lábios. Depois aponta para o relógio no pulso. De fato, já passou do horário que haviam combinado.
Sim, sim, em casa, tudo tranquilo. Mas, viu, se o senhor tá ocupado, posso cortar com outro. Olha o Augusto de boa ali.
Ih, meu filho, eu começo às sete da manhã e não paro, um cliente atrás do outro. Há 85 anos. Já contei que comecei na profissão aos doze anos?
Não só contou como repete a mesma pergunta toda vez que Cléber chega para alinhar o cocuruto desmatado e os cachos volumosos nas laterais, sem parecer um Bozo metaleiro. E não importa que seja a quarta geração da família a frequentar o salão. O músico sempre houve as mesmas histórias do veterano, que o conduz pelo braço para a sua poltrona, batendo o pano no assento como se tirasse poeira.
Contou, contou. No salão do seu tio, né?
Faço uns quinze cortes por dia. É muito cabelo. Mas quem trabalha com o que gosta não quer parar.
Após colocar uma toalhinha nos ombros do roqueiro e cobri-lo quase por inteiro com o pano, Seu Evaristo separa diferentes pentes e tesouras sobre o balcão. O cirurgião capilar gasta um tempo escolhendo seus instrumentos, antes de pegar o borrifador de água e testá-lo na própria mão.
Tá bem, queria pedir pro senhor contornar as orelhas e…
Não se preocupe, está em boas mãos, rapaz. Já contei que três presidentes da república se sentaram nessa cadeira?
Pelo espelho, Cléber busca refúgio nos olhos de Augusto. Este apenas sorri ao passar por trás e sai para fumar um cigarro na calçada.
Tô sabendo, Seu Evaristo.
E sua avó? Dona Carmem tá melhor?
Ai, tá enjoada, viu? Depois da cirurgia, não quer saber de comer direito, reclama de qualquer dorzinha, chama o tempo todo. Parece criança.
Sei como é. Teve uma vez que me apareceu uma bolinha na língua e o médico tirou na faca. Passei uma semana incomodado, cutucando no dente, uma coisa chata mesmo, acabou com meu humor.
Cléber transforma um palavrão em um suspiro cantado. Nem chegou aos quarenta anos e já tem no currículo três cirurgias em órgãos diferentes. E o único problema de saúde de que este senhor centenário se lembra de ter passado, ao se solidarizar com a amiga de infância safenada, foi uma afita mais resistente na língua?
A vó não tá batendo muito bem. Deu até pra ver coisa agora.
Ver o quê?
Ah, um cara aí. Quer dizer, meio homem, meio… sapo. Ou o contrário, não sei.
A tesoura treme nas mãos de veias saltadas do barbeiro. Cléber se encolhe ao sentir as pontas perto demais de suas orelhas. Mas os cortes ainda são precisos, apesar de mais espassados. Se cortasse com o Augusto, estaria quase indo embora, depois de passar o barbeador, máquina três dos lados, dois na traseira. Já Seu Evaristo é artista. Esculpe e assina a obra de arte no final.
A Carmen tem visto o índio?
Índio?
Nome não sei. Mas é um que aparece por essas bandas de vez em quando.
Aparece? Feito mendigo?
Não é todo mundo que vê. Mas ele não sai daqui.
Credo. Essa o senhor nunca me contou.
Menino, não sabe que a gente mora na beira de uma trilha indígena?
Como assim?
Lá pra cima. Essas avenidas com nome de branco, que vêm lá do centro. Era tudo picada aberta pelos nativos.
E isso foi quando?
Antes de Cabral. As aldeias eram interligadas. Esse caminho aqui levava lá pro sul, na beira do rio.
Olha, o senhor me desculpe, sei que tem quase cem anos. Mas daí pra lembrar de índio…
O barbeiro levanta a tesoura como se fosse um pincel ao pintar um quadro. Então, pousa a ferramenta no balcão e olha o cliente de frente, já sacando da gaveta um tubo de creme de barba e uma escovinha.
Não sou tão velho assim, moleque. Mas lembro da linha do bonde, que aproveitava esse mesmo percurso.
Seu Evaristo contorna a cadeira de novo e passa na nuca de Cléber um pouco do creme, de leve, só para acertar a pelagem. Em seguida, saca uma navalha de um estojo de couro. O rapaz ameaça se levantar, mas logo tem sua cabeça empurrada para baixo, queixo no peito.
O caso é que tinha muito índio de passagem. E desde pequeno eu ouvia a história de um que não tinha tribo, pois cresceu entre os sapos e rãs das lagoas daqui.
Seu Evaristo, cuidado com a…
Ele foi o primeiro morador de fato dessa vizinhança. E desde então fica de olho em tudo que a gente faz.
O fio da navalha desliza suave desde as orelhas até o início das costas peludas. Quando deixa de sentir o gelo do metal, o músico relaxa a musculatura, sorrindo.
Ok, seu Evaristo, mas e a lagoa? Aqui na região tem, no máximo, piscina.
Está cheio de rio debaixo dos nossos pés.
O esgoto?
O bairro faz parte de uma grande bacia hidrográfica. Começa ali em cima no metrô, enche o lago do parque e desagua nas marginais.
Nunca vi nada disso.
Viu, viu sim. Quando chove forte e começa a juntar água nos cruzamentos lá pra baixo. Acha que é o quê?
Córrego, ué? Mas lagoa é um pouco demais.
Atrás da sua viela, naquele terreno baldio enorme, tinha uma lagoa linda ali.
Aquilo é um matagal abandonado. Uns moleques de rua até invadem pra cheirar cola.
Eu nadava pelado ali quando era pequeno. E a Carmen também.
A vó? Mas… Pelados, é? Como assim?
Seu Evaristo levanta um espelho atrás de Cléber e mostra seu trabalho. Disperso, o cliente nem confere o resultado.
A garotada caçava rãs na lagoa. Pra fritar, sabe? Até o dia em que o índio surgiu bem na nossa frente.
O índio que é sapo?
A gente se secava rolando no gramado, porque ninguém tinha toalha. De repente, uma sombra nos cobriu. Tinha uma figura parada contra o sol. Não dava pra ver muito bem. Esfreguei os olhos e percebi que era um homem magricela e alto, mas pançudinho. Peito aberto. Sem nariz. Ou com um nariz mais achatado. Olhos grandes, cada um mexendo para um lado. Ficou de cócoras, com os braços entre as pernas. Quando abriu a bocona, um de nós deu um pinote e toda a garotada seguiu desembestada.
Fugiram… pelados?
Não ficou um pra ouvir o que a assombração tinha a dizer. E nunca voltamos. Pergunta pra sua avó.
Como eu disse, ela tá meio pancada. Não dá pra morar em um imóvel de dois andares. Vamos acabar vendendo. Já apareceu até proposta.
Seu Evaristo retira o pano que cobria o rapaz e este se levanta já puxando a carteira. Nenhum dos dois fala nada enquanto ele retira uma nota de cinquenta reais.
É um pecado vocês deixarem tudo nas mãos da construtora.
É o progresso, Seu Evaristo. Não dá pra fazer nada.
Vão matar de vez o córrego. Quem sabe é por isso que o índio apareceu pra sua avó.
Cléber se despede com um aperto de mão protocolar. Acena para Dedé, que responde com uma balançadinha de cabeça. Ao sair, ainda faz um sinal com a mão indicando que depois conversa com Augusto. Em uma próxima vez, fará o corte com ele. Já se afastando, vê Seu Evaristo caminhar em direção à cozinha, talvez para passar mais café. O músico segue seu rumo. Quem sabe ainda pode ensaiar umas duas horas antes de ficar tarde demais e os vizinhos encherem o saco por conta do barulho. No caminho, diminui o ritmo apenas quando passa diante da vitrine de um comércio. Confere o penteado novo no reflexo, dando um tapa na franja rala. Até que não ficou ruim. Ao atravessar a rua principal, para em frente ao muro mal acabado e cheio de pichações, que isola o tal terreno baldio. Nem sinal de córrego ao redor. Se tinha lagoa, o concreto secou. Contorna o longo paredão até entrar na viela. Está anoitecendo e não há nenhum vizinho. Adota uma marcha atlética até seu portão e olha para trás antes de tocá-lo. Ninguém. Ou nada. Ri de si mesmo enquanto busca as chaves no bolso da calça. Erra a fechadura uma, duas vezes e sua risada agora sai engasgada. Abre, mas se detém antes de entrar. Não escuta os carros passando ali perto. Nem os ruídos maquinais dos muitos canteiros de obras nos arredores. A isso seus ouvidos se acostumaram. Concentra-se. Não é cachorro. Nem um pássaro. Um alarme? Não. Está mais para um coaxar.
