
Uma hora teríamos de ler Anton Tchecov, o Drauzio Varela deles, um dos maiores contistas que existiram. Médico e humanista, o russo-ucraniano viveu só 44 anos até morrer de tuberculose. Antes disso, inscreveu seu nome na literatura através de um modo muito particular de atacar os conflitos – sem ênfase, pautado nos subtextos, nas pausas e nos silêncios. Era um antiépico, e seu interesse sociológico se dava pela observação fina dos comportamentos psicológicos de seus personagens. Uma escrita em tom menor, sem pressa, convergindo para finais abertos. Teve grande influência sobre Joyce, Woolf, Hemingway e Carver. Ricardo Piglia define a estrutura de suas narrativas breves através do conceito das “duas histórias”, em que a história latente, em vez de resolver-se como uma história manifesta, mantém-se em estado de suspensão. Existe toda uma vertente da crítica literária que propõe Tchecov como o pai do conto contemporâneo. O conto abaixo é uma de suas narrativas mais famosas e está na edição Contos, da Nova Fronteira, traduzido por Tatiana Bilenky.





PROPOSTA
Bem, é isto o que você vai fazer: vai torrar uma fortuna – real ou imaginária.
O seu personagem vai ter acesso a uma sorte extraordinária.
Mas ele não vai saber dar bom uso dessa sorte.
Ele vai:
- Perder toda a fortuna de um jeito ridículo
- Ficar totalmente pobre de forma trágica
- Atrair um enorme azar para outrem
- Manter a fortuna mas ficar infeliz
- Abrir mão de tudo o que ganhou
Você vai começar a escrever do ponto imediatamente após ele ter ganho sua fortuna.
Escreva em qualquer pessoa, em uns 9 mil toques.
