Fazia tempo eu não passava por aquela parte do bairro onde, no começo da pandemia, Laura e eu fazíamos longas caminhadas. Agora, na manhã fria de maio, percorro sozinho nossas antigas trilhas cruzando com pessoas que voltaram a preencher a paisagem urbana como se tudo estivesse normal. Não reconheço essas pessoas. Nada voltará ao normal.
Uma visão me faz diminuir o passo. Paro diante de um sobrado diferente dos demais da Mário Cardim, uma rua residencial cujo traçado sinuoso acompanha o córrego do Sapateiro, que ainda corre em seus subterrâneos. O aspecto malcuidado das paredes, além de uma grande pichação na porta da garagem indica, quem sabe, se tratar de uma ocupação. Contrastando com as letras vermelhas garatujadas a pincel sobre fundo branco, uma singela placa na janela pede “Mais amor, por favor”.
Enquanto observo o cenário da calçada, uma figura encapuzada se aproxima. É o guarda particular da rua, um dos muitos que cumprimento de passagem.
“Bom dia, seu Luís.”
“Olá, bom dia… Rubens, certo?” O nome está bordado no uniforme.
“Faz tempo que não vejo o senhor por aqui.”
“É verdade. Tenho andado mais para o outro lado ultimamente.”
“E a senhora que o acompanhava sempre… sua esposa?”
“Pois então, a Covid levou.”
“Ah, meus sentimentos…”
“Obrigado. Mas me diga, Rubens, quem mora nessa casa?
“Aqui? Os Geminhos. Não conhece? Dois irmãos que a gente não divisa um do outro de tão iguais. Parece espelho.”
“Acho que nunca os vi.”
“Bom, eles não saem muito desde que a mãe morreu, também por causa dessa doença.”
Enquanto Ernesto fala, tenho tempo de estudar as inscrições garranchadas. As letras maiores formam a expressão “QUEIMA DE ARQUIVO”, abaixo de “31.3.2022 14H30 HS”. No canto à direita, “MINHA VIDA MORTO EM BREVE”.
“O senhor sabe o sobrenome da família? Conheço muita gente no bairro”, pergunto com uma ideia na cabeça.
“Não… só sei que é nome estrangeiro. Alemão ou coisa assim.”
Não percebo nenhum movimento durante todo o tempo em que permanecemos diante da casa. A parede amarela descasca aqui e ali. Obstruindo a garagem, um vaso quebrado acomoda plantas que sobrevivem sem rega. O portão está trancado a corrente.
Saio dali com os sentidos em alerta. Faz tempo – mais precisamente desde que me aposentei, há quase vinte anos – que não tinha pretexto para exercitar minha veia dedutiva (gosto de pensar que inspetor de seguros é quase um detetive).
No balcão do cartório de registro de imóveis, faço um sinal para o Ernesto, meu colega de bocha no clube. Dou o endereço e peço para ele me encontrar no café em frente.
“O último registro é de uma doação em vida de Rosza Nicklaus, cidadã polonesa naturalizada, em favor de seu filho Rodolfo”, ele lê no papel em que transcreveu os dados. “Usufruto vitalício, em que o proprietário fica morando no imóvel enquanto viver.”
“Entendi. Ela doou para evitar o inventário. Mas e o outro filho, não entrou no documento?”
“Sim. Ricardo Nicklaus assinou como anuente. Quer dizer, ele abriu mão do seu direito à propriedade da mãe.”
A pulga atrás da minha orelha dá um pinote.
Não sei se já disse que tenho tempo de sobra agora. Com Laura se foi minha vida social, bem como a saúde digestiva que me restava. Saio pouco, como pouco e mal. Meus dias e noites só ficam menos solitários na companhia de Spade, Marlowe, Hernández, Janeway, Espinosa e Mandraque, meus heróis da ficção. À noite, por alguma razão, apanho o volume das obras completas de Poe onde está o conto “O barril de amontillado”.
Antes das sete da manhã, bato na guarita para acordar o Rubens. Ele abre um sorriso ao receber o copinho de café que eu trouxe da padaria. Vamos conversando até a casa detonada.
“Você passa a noite aqui também?”, quero saber.
“Só de vez em quando, quando o João enche a cara e não vem me render. Mas essa rua é bem sossegada, sempre dá para tirar um cochilo.”
Diante do portão, ele derruba o copo de papel.
“Caraca! Quem fez isso?”
Agora, além da garagem, a parede lateral ostentava garabulhas na mesma caligrafia tosca: “FAMÍLIA PAGA ATÉ O MEU FIM”, seguidas da data “9.4.2022”.
Observo que a corrente está no mesmo lugar de ontem. Quem fez isso deve ter pulado por sobre as lanças de dois metros de altura.
“Esses pichadores fazem milagres”, comento sem convicção.
Naquela tarde, caminho até o cemitério do bairro, onde peço para falar com a Neide. Eu não via a ex-cabeleireira da minha mulher desde que ela prestou concurso na prefeitura e virou escriturária. Ela demonstra estar feliz em me ver, fala com carinho da Laura e vai procurar o que lhe peço. Dou uma gorjeta que ela reluta em receber e vou para casa estudar as duas folhas xerocadas.
Uma reproduz a certidão de óbito de Rosza Nicklaus, nascida em Kielce em 1º de maio de 1927 e que morreu de Covid no hospital São Paulo. O óbito ocorreu em 31 de março de 2022, a mesma data gravada na porta da garagem (como eu esperava). A outra cópia é da página do livro de falecimentos. Não consta registro da morte de nenhum membro da família Niklas no dia 9 de abril, nem nos dias próximos.
Ligo para o Caco Almeida, que conheço desde os bancos de grupo escolar. Ele continua ocupando a maior sala na imobiliária que fundou, mesmo depois de ter passado o a administração para os filhos. Dou o número da casa da Mário Cardim e pergunto se conhece os moradores.
“Não só conheço como fui encarregado pelos Geminhos de comercializar o imóvel.”
“Mas não tem placa de vende-se”, estranho a informação.
“É que eles são meio arredios. Não gostam de gente. Pra conhecer a casa, só acompanhado de alguém da imobiliária – ou seja, eu.”
“Você disse que foram os gêmeos que te contrataram. Falou com os dois?”
“Só com o Rodolfo. O Ricardo é mais difícil ainda de ver.”
Digo para o Caco que estou interessado na casa. Ele tenta de todas as formas mudar minha intenção. Informa que tem centenas de casas melhores e mais baratas que aquele “mausoléu decrépito”. E argumenta: “Além disso, o bairro está na mira das incorporadoras. Não dou três anos para todo o pedaço virar condomínio-parque”.
Insisto na ideia até ele se dar por vencido.
Almeida só consegue marcar a visita para a semana seguinte. O proprietário alegou que precisava desse tempo para se preparar.
Até chegar o dia combinado, tento relaxar me dedicando à leitura. Começo pela Ilha do Tesouro, de Stevenson, e avanço para best-sellers dos contemporâneos Dennis Lehane e Stephen King.
Caminhando com Caco Almeida na manhã da vistoria, pergunto o que ele sabe sobre os Nicklaus.
“Não tenho muito a dizer. Acho que ninguém tem. Eles até saíam de casa antes, quando a mãe era viva, para ir ao culto ou coisa assim. Agora que ela morreu, vivem enfiados lá dentro. Sei que pedem comida por telefone…”
“Eles não trabalham?”
“Dinheiro de família, talvez. Dizem que os pais vieram para o Brasil carregando um baú cheio de ouro nazista. O velho morreu logo, parece que caiu num poço. Sabe como é, quando o povo não sabe, inventa…”
O portão está sem a corrente. Almeida enfia a mão por trás da coluna até achar o botão do interfone (“o Rodolfo deu as instruções”). Ele fala mas não obtém resposta. Em vez disso, ouvimos o clique do destravamento.
Ninguém vem nos receber. Caco testa a porta da frente, que está se abre. Ele aciona o interruptor do vestíbulo, sem sucesso. Afasto uns panos que fazem as vezes de cortina, o que nos fornece luz suficiente para explorar os cômodos. Quase não vemos móveis. Uma mesa de madeira maciça está encostada na parede maior da sala de jantar, sem cadeiras. Nos quartos, somente os armários embutidos de portas escancaradas; não há camas. Uma geladeira dos anos 50 envelhece aberta na cozinha. Ratoeira armadas guardam os cantos das paredes.
O quintal é maior do que se adivinha da rua. Ensombrecido por uma vegetação densa, o terreno sobe em direção aos fundos. Dois passos e congelamos: um grande pássaro preto abre as asas e sobe sem barulho, como um balão aquecido, até sumir por sobre o telhado ao fundo. O local onde estava pousado oscila com um reflexo opaco. Uma fonte desativada ou, mais provavelmente, um poço.
Uma figura nos observa da edícula, velado pela folhagem. Apesar da sombra que o envolve, posso distinguir um homem de longas barbas, olhos claros e brilhantes.
Caco força a tosse para anunciar nossa presença e se dirige ao vulto: “Rodolfo!”. Como não obtém resposta, tenta: “Ricardo?”.
Meu amigo me lança um olhar resignado e, sem alternativa, sobe o aclive afastando a folhagem. Não consigo ouvir a conversa entre os dois.
“E então?”, questiono Almeida quando voltamos a nos falar, apoiados no balcão da padaria a três quadras dali.
“O porra do Geminho desistiu da venda, Luís.” Ele disse que prefere viver o resto dos seus dias naquele pardieiro e então morrer em paz. Pediu para me desculpar com você e nos deu isto pelo incômodo.
Baixo a vista até a mão ossuda de Caco Almeida, em cuja palma brilham duas moedas douradas.
