
Oi filha, tudo bem? Seu pai aqui, lembra dele…rs desculpa, que piada imbecil pra um pai ausente fazer né.
Querida filha, espero que você esteja bem. Pelo que tenho lido no jornal, seu trabalho vai bem.
Estou escrevendo esse email para te dar notícias, e responder sobre algumas coisas que li numa entrevista que você deu recentemente. Eu gosto de ler jornal no papel e gosto de escrever email, você sabe. Na entrevista você disse que parte da inspiração para o seu trabalho de pesquisa era desconstruir a ideia de pai branco, que o pai branco da pintura que você estuda era visto como uma salvação, mas que o seu pai branco nunca passou de um cara ausente e que depois virou um nóia. Você disse isso na entrevista né filha, que eu sou “um nóia”.
Filha, eu fiquei confuso quando começaram a me chamar de “nóia”. Nóia em italiano quer dizer tédio, e eu demorei um pouco pra entender. Achava mesmo que as pessoas iam pros lugares que eu ia pra preencher a cabeça. O tempo vazio é um desespero na gente, e isso de ficar lá, olhando as pessoas andando de um lado pro outro, é um jeito bom de matar o tempo. Depois que eu fui saber que nóia vem de paranoia, um jeito de descrever o pessoal que usa muita droga e fica achando que tá todo mundo atacando, fazendo mal.
Eu ainda não sei muito bem se eu sou nóia ou não, sabe filha? Eu sempre trabalhei, nunca dormi mais de duas noites na rua, nunca roubei ninguém. Na verdade, foram apenas uns 5 ou 6 anos que eu passei “na nóia”, fumando pedra todo dia, passando noite na Clevelandia e virando amigo do Serjão. Pode parecer besteira, mas da minha idade – e da maneira como eu cheguei nessa idade – a gente acaba mesmo usando a palavra “apenas” pra quase meia década de vida na droga. E quando tu vive esse tempo nessa vida, tu percebe que não tem tanta diferença assim entre esse tal de nóia e quem vive em bar. Universitário vive em bar, né? Escritora vive em bar, cientista, professor, mas nenhum deles é nóia. Porque assim, tu gosta de bar, né? Tua mãe me disse que tu gosta de bar, e eu já te vi uma vez no bar também, ali na travessa da Clevelândia, mas eu não quero falar sobre o dia que eu te vi no bar porque eu sinto vergonha daquele dia.
Mas é isso, tu sabe do bar, então tu sabe da sensação que é ser “manjado” no bar, não sabe? Tu se tornar aquele sujeito que tá sempre ali, que tem cadeira predileta, que chega seis da tarde se o bar abre às seis e que só sai três da manhã se o bar diz que fecha meia noite. Quando tu ganha um apelido de quem vive no bar, uma coisa meio Bola, Dico, Zito, Zezão, sei lá, quando tu começa a ter bebida preferida conhecida pelo dono do bar, sequência de bebida decorada pelo garçom – cachaça só no começo e depois da meia noite, nunca troca a marca de cerveja durante a noite, conhaque só quando a temperatura baixa dos dez graus e nunca numa terça feira – tu deve saber disso, e não tem tanta distinção assim entre essas pessoas e eu, que sou um nóia. Mas eu sei que tu é diferente. Tu deve ser da pessoa que procura o que comer meia noite, que vive com uma garrafa d’água na bolsa, que só exagera em dia que antecede folga ou feriado. Tu vai sair disso, com 40 tu vai ir no bar uma vez por semana, aos 50 vai virar jogadora de tennis e tomar só um vinhozinho, aos 60 vai entrar pra maratona ou qualquer uma dessas merdas de idosa bronzeada.
Eu, não. Aos 40 eu ficava no bar até começar o novo turno do trabalho porque aos 40 você percebe que ir virado pro trabalho e ir de ressaca (e essas são as únicas duas opções) não faz tanta diferença assim, aos 45 nem bêbado eu ficava e já conhecia todos os tipos de bar: bar de divorciado, bar de quem acha que nunca vai se divorciar, bar de quem achava que nunca ia se divorciar e aí um dia chega em casa e tem um par estranho de tênis na entrada de casa, um par de tênis esportivo, que certamente não são seus porque você não é nem nunca foi o tipo de pessoa que leva água pro bar nem procura o que comer a meia noite. E aí, aos 45 e um dia depois de chegar em casa e ver um par de tênis esportivos, tu vai em outro tipo de bar, o bar do tipo que tu conhece um cara chamado Serjão e que te leva pra visitar a esquina da Clevelândia com a Helvetia depois das três da manhã. Eu não sei jogar tênis, eu detesto vinho e a minha maratona é chegar vivo de qualquer jeito até os 60. Mas tu vê, filha, que a diferença entre eu e você é pouca: uma garrafa d’água, um tênis esportivo, um Serjão.
A verdade filha, é que tu precisa de mim pra essa tua figura pública se sustentar, né? Se teu pai fosse o Serjão tu não ia sair por aí chamando ele de nóia, tu ia inventar uma história sobre como ele era um coitado, que tu fez tudo isso pra ajudar. Agora eu, não, eu sou o pai branco, né, um alvo fácil pra tua vontade de superação. E o pior que eu tentei avisar tua mãe, que era alguém que lutava mesmo pelo povo da tua laia, apesar de que aquilo me irritava demais: ela ia pra congresso de militância, ela não era ausente, eu não aparecia no teu aniversário, eu era o ausente? Mas eu entendia, ela tinha a luta dela, tinha uma dignidade ali, mesmo me trocando por aquele negão magrelo que vivia usando tênis de maratonista. Mesmo assim eu votei nela na eleição de 2002, apesar de tu não acreditar. Mas tu não, dá pra ver que tu só precisa de uma narrativa tua, pra se destacar dos demais, ser a flor rara da comunidade negra e poder dizer no jornal, numa matéria que é sobre o teu prêmio, que não tem nada a ver comigo, que eu era “um nóia”.
Agora, o que eu nunca entendi foi esse seu egoísmo, tu só pensa em ti mesmo, filha. Quando a gente é pai, a gente tenta adivinhar qual é defeito que a nossa cria vai herdar da gente, contigo aconteceu o mesmo: eu me apavorei quando te vi pela primeira vez com um copo de cerveja na mão e também não consegui desassociar essa sua busca pelo sucesso com o fato de que tua mãe só consegue pensar em vencer na vida, mas egoísta a gente nunca foi, e de algum jeito você saiu assim: apaixonada por si mesma.
E sabe o Serjão? Ele morreu uns meses atrás, tem umas fotos do teu aniversário, aquele que eu fui, que ele aparece meio que no fundo, um preto, gordo, que sempre aparece tomando cerveja em lata de nescau. A porra do negão tinha essa mania: tomar cerveja em lata de nescau. Vai entender. Então, a mulher do Serjão era branca, né? A família inteira branca, o Serjão nunca teve família, veio do interior do Sergipe e parece que o pai gostava de comer as irmãs dele, fazer ele assistir e depois bater nele, e então ele resolveu esquecer que aquilo existia, subiu num pau de arara e veio pra São Paulo. Dizem até que o nome dele não é Sérgio. Pois então, ele casou com uma gauchinha lá e a família dela virou a dele, e aí ficou assim: a família branca, e o negão lá.
Sabe, eu nem era mais próximo dele, mas essas fotos me incomodavam de um jeito que eu não conseguia parar de segui-lo nas redes sociais, me incomodavam e me prendiam. Tudo parecia com a pintura que tu estuda, aquela redenção de Cam, mas realizada com sobrepasso do preto pro branco, o casal sem filhos, que envelhece junto, numa família que envelhece ainda mais: a tia branca com cara de bem nascida tomando café com aquele cara preto, a avó surda inclinando a cabeça pra ouvir o que tá dizendo aquele cara preto, dezesseis primos sentam a mesa e no canto da mesa aquele cara preto. Não sei porque, eu nunca consegui ficar mais de uma semana sem digitar o nome dele na busca e olhar aquele cara preto ouvindo a tia branca, a prima branca, o sogro branco, e o pior é que ele parecia tão à vontade, e eu cheguei mesmo a pensar que o que faltava naquelas fotos era tu, abraçado com o Serjão e com a gauchinha.
Então essa carta não é pra te dizer pra tomar cuidado com as drogas, porque isso aí quem diz é pai útil (e eu sou inútil e digno de dó, como tu mesmo me disse outro dia, quando tu resolveu responder um email meu), é mais pra ter o que dizer. Porque o mais impressionante dessa vida que eu tenho é que tu vive conversando, cercado de gente, gente boa, não é só nóia não, é manicure, motorista de ônibus, escritor, servente de pedreiro, tu vive cercado de gente, falando, falando, falando, mas tu não diz nada. Tu não tem com quem conversar, entende? Sei lá se tu entende.
Um beijo, filha. Por favor, não esquece de mim, mas não fala mais essas coisas na entrevista, tá?
Um beijo!
