O corredor azul desbotado sem fim

Silvia Argenta

A proposta daquele dia foi inusitada. A agência de empregos já conhecia o perfil de Agnaldo e não titubeou em oferecer a vaga de trabalho na maternidade. Mesmo desempregado havia alguns meses, ele evitava as ocupações triviais. Negou ser garçom, manobrista e atendente de farmácia. Dessa vez, a oportunidade em um hospital o fez considerar que talvez a sorte tivesse virado.

Ao contrário dos trabalhos recusados, que exigiam horário de entrada e saída, numa vida burocrática, o novo emprego teria rotinas imprevisíveis. De uma hora para outra, poderia ser chamado para atuar com a equipe de emergência. Sua tarefa era depilar as partes íntimas das mulheres antes do parto. Do alto de seus dezoito anos, nunca havia escutado sobre esse trabalho, mas sentia que tinha condições de ajudar. Aceitou o emprego no ato.

No primeiro atendimento, Agnaldo estava ansioso. Tinha acabado de chegar à maternidade e não havia tido tempo de receber treinamento. As palmas das mãos suavam com o agito na recepção, onde várias pessoas gritavam e pediam ajuda. O maqueiro pegou a mulher grávida no colo e a posicionou deitada na cama com rodinhas, a carregando para o corredor. Apesar dos lamentos dela, o médico disse que ainda não era hora. Enquanto ela se contorcia na maca, duas enfermeiras a seguravam pelos braços para que parasse de se agitar e a levaram para a enfermaria.

Agnaldo foi chamado alguns minutos depois para providenciar a depilação. As enfermeiras saíram do box de cortina de poliéster branca, salientando que não podia sobrar pelo algum nem encravar para não causar infecção. O aviso foi feito com os dedos indicadores em riste. Um alerta de que não admitiam erros, pelo jeito. Elas nem deram espaço para ele tirar alguma dúvida, pois partiram caminhando apressadas. Suas mãos já não suavam mais. No entanto, a boca ficou seca ao observar as duas mulheres de jaleco branco se afastando. Pareciam flutuar pelo corredor azul desbotado sem fim.  

A paciente, de uns quinze anos, já tinha um aspecto mais tranquilo. Vestia a camisola verde da maternidade e estava deitada com as duas mãos apoiadas na barriga enorme e dura. As unhas grandes e pontudas de porcelana vermelha lhe chamaram a atenção. Ele se aproximou com um pequeno carrinho contendo suas ferramentas e fechou a cortina, pensando na privacidade da mulher, apesar de não ter recebido nenhuma orientação nesse sentido. Sem encontrar alguma ficha com o nome dela, se dirigiu para a pequena pia, onde encheu de água uma bacia redonda de alumínio. Iniciou a conversa de forma generalista, na tentativa de criar algum nível de confiança para um trabalho tão íntimo, sem olhar para ela.

– Boa tarde, senhora. Estou aqui para ajudar na preparação do parto.

– O que você vai fazer?

– Preciso depilar a senhora. Vai ser bem rápido.

– Vixi, que vergonha… É que com a barriga desse tamanho não consegui mais me depilar.

Ao falar isso, ela colocou as mãos no rosto, tapando os olhos, onde as unhas pareciam ficar maiores ainda. Ele então achou uma brecha para observar a moça de cabelos compridos encaracolados e bem cuidados e de piercing no alto da orelha. Agnaldo se sentiu formal demais por chamar uma garota de senhora. Depois, notou que a respiração dela começou a ficar descompassada enquanto as unhas cresciam a uma velocidade constante.

Não há de ser nada, pensou o jovem, que rapidamente a cobriu com um lençol e pediu que ela dobrasse os joelhos. Queria se esconder atrás do tecido para não ver mais a moça. Curioso que ficava mais constrangido em ver a parte de cima do que a parte de baixo da mulher. Sem demora, se sentou num banco ao pé da maca, vestiu as luvas e passou um pano para higienizar a região. Depois, aplicou um creme para amolecer os pelos e logo já começou a passar a lâmina na virilha. Não parecia difícil, apesar de nunca ter se deparado com tantos pelos. O bigode de Agnaldo mal formava uma penugem acima dos lábios e a barba nem chegava a se unir, surgindo pequenos tufos ao longo da mandíbula. Assim como a maioria dos carecas faz com suas cabeças, ele não deixava seus fiapos à mostra e os retirava praticamente todos os dias. Como nunca encravou nenhum pelo seu, estava confiante de que atenderia às expectativas das enfermeiras.

No entanto, o trabalho parecia não render. Quando terminava de depilar uma lateral da virilha, a outra, já raspada, ficava peluda novamente. Tentou vencer os pelos algumas vezes até que admitiu a derrota. Se inclinou para o lado e se lembrou de perguntar como a moça estava se sentindo, no que respondeu: “Não sei dizer”. Só então Agnaldo percebeu que ela estava com as unhas curtas e sem esmalte. Ao mesmo tempo, todos os pelos do corpo dela caíram no lençol e se juntaram com as unhas ao lado da orelha com piercing. Sem compreender o que acontecia, voltou o tronco para o pé da maca e viu que a virilha estava completamente depilada. Nesse lapso de tempo, não viu a transformação das unhas e dos pelos numa bola queratinada, que, assim que formou suas pequenas pernas, correu em direção a ele atravessando a maca.

Godówisky se apresentou e pulou na palma da mão de Agnaldo, onde cabia certinho. Ele levantou uma das sobrancelhas, posicionou a mão em formato de concha e jogou o braço para frente com força, na tentativa de lançar longe a bola, mas ela se agarrou à pele dele quase como um desentupidor. Ele balançou a mão para baixo várias vezes e não conseguiu se desvencilhar da nova companhia. Godówisky agitava os braços para cima e parecia se divertir com os movimentos. Nisso, a moça voltou a gemer e segurar com força o lençol.

Agnaldo fechou a mão e saiu do box de cortina para procurar ajuda. Godówisky parecia se moldar a qualquer situação. Agora, tinha um aspecto gelatinoso e podia ser apertada que nada acontecia. Ela até sorria com a situação. Talvez sentisse cócegas. Ele encontrou uma das enfermeiras, que logo foi atrás do médico, não sem antes lhe dar mais ordens. Era para ele voltar para o box e segurar a moça para que ela não caísse da maca e se machucasse. Ao encontrar a grávida de novo, percebeu como ela estava suada. Fazia muito calor naquela tarde e não havia um mísero ventilador para aliviar a temperatura. Ele então sentiu a mão gelada. A criatura gelatinosa ficou azul com o aspecto de pedra de gelo. Agnaldo aproveitou e esfregou Godówisky na testa da moça para que ela se sentisse melhor.

Sem cerimônia, as duas enfermeiras abriram a cortina do box com força e puxaram a maca em direção ao corredor. O médico já estava na sala de parto aguardando a moça. Na sequência, Agnaldo recebeu mais ordens. Ele devia ajudar a empurrar a maca, pois ninguém sabia onde estava o maqueiro. Já na primeira paciente, acumulou funções. Nesse meio tempo, Godówisky tinha pulado da testa da moça para o ombro de Agnaldo, de onde escorregou por dentro do jaleco até o meio das costas. Acionou seu modo ventosa e ficou pendurada enquanto os outros quatro seguiam no corredor azul desbotado em direção ao centro cirúrgico.

Confirmando a impressão anterior, o corredor parecia não ter fim. Agnaldo estava exausto de tanto correr, enquanto as enfermeiras mantinham o ritmo do compasso das pernas sem demonstrar cansaço. Com jalecos e cabelos impecáveis, elas tinham um aspecto robotizado, aparentando gostar de dar ordens na mesma medida do quanto recebiam ordens. Ele observava as duas profissionais de meia idade sem mais se abalar com os berros da moça na maca.

Ao chegarem ao centro cirúrgico, o médico já tinha as luvas nas mãos e o resto da equipe estava ao seu redor num clima moribundo. Os olhos sem brilho dos colegas não condiziam com a magia do nascimento de uma criança, por mais acostumados que estivessem com um momento como esse. Agnaldo não devia estar ali, mas como ninguém notou sua existência permaneceu no canto da sala.

Assim que o médico avaliou a paciente, disse que não iria esperar pelas contrações ideais, apesar de que o desejo dela era o parto normal. Mandou chamar o anestesista para fazer uma cesariana. Tinha jogo de futebol do seu time logo mais. Não poderia perder. Os demais profissionais nada falavam. Apenas obedeciam aos mandos e desmandos. O médico pediu o bisturi para o instrumentador, que prontamente o entregou. Com pressa, fez um talho vertical na parte de baixo da barriga da grávida. Depois fez um outro risco, agora na horizontal. “Uma guria dessa idade não merece respeito. Se gosta de dar, vai levar uma lição para aprender a fechar essas pernas”. Ao fundo, só os barulhos dos equipamentos com seus bipes. O resto da equipe parecia nem respirar.

Foi só o bebê nascer para que os colegas mostrassem um pouco de ânimo. O choro do recém-nascido despertou a mãe, que ignorava a dilapidação do seu ventre ensanguentado. Godówisky se agitou nas costas de Agnaldo, subiu até a parte de trás do pescoço e sussurrou: “como já aprendeu a usar a lâmina para depilar sem encravar pelos e sem deixar rastros, a próxima ocupação pode ser aprender a lidar com o bisturi para tombar abusadores”. Agnaldo gostou da nova ocupação, nada trivial, e achou uma boa ideia continuar a ajudar mulheres. Ele então se aproximou da bandeja de instrumentos, escolheu o maior bisturi e fez uma cruz nas costas do médico, com o mesmo ângulo que ele usou na barriga da paciente. Godówisky se jogou na boca do médico, entalando a garganta e impedindo qualquer grito ou possibilidade de pedir ajuda. Concentrados nos cuidados da criança e da mãe, os outros profissionais da sala não se importaram com o médico deitado no chão. As enfermeiras não deram mais ordens. O jovem depilador saiu do centro cirúrgico com a certeza de que no dia seguinte ainda teria o emprego.

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