Projeto

                A coceira aumentava à medida que se aproximava a hora de bater o sinal de saída. Os alunos, arrumando as mochilas, mal reparavam quando Mirna entortava o corpo para alcançar a batata da perna e esfregar o jeans pra cima e pra baixo na pele. Ela já sabia como lidar com o incômodo que se seguia ao prazer do contato do tecido com a picada.  Quando deixava os alunos na porta, corria ao banheiro e passava álcool nos pontos vermelhos inchados que , às vezes, subiam à barriga e aos braços. Depois, sentava-se na sala dos professores e fazia hora até o último colega sair.

                – Hoje tem passeio? – Alvina já estava na porta quando perguntou.

                –  Todo dia.

                –  Tô vendo que você não sai mais junto com todos – ela encostou no batente enquanto procurava o bilhete para o ônibus no zíper lateral da bolsa.

                –  Fiquei conhecida. Os donos gostam de mim.

                – E ajuda bem no salário?

                – Ajuda, claro. Mas eu gosto mesmo é dos cachorros.

                – Sei disso. Por que não junta o dinheiro e faz agora a Veterinária?

                 Mirna riu enquanto buscava um pacote de biscoitos na mochila.

                 – Até que a pedagogia me ajudou. Tenho uns projetos diferentes.

                – Posso saber?

                –  Só ideia por enquanto. Se der certo, eu conto.

                – Fiquei curiosa – Alvina colocou o bilhete do ônibus no bolso traseiro da calça e se despediu.

                  Mirna fechou o pacote de biscoitos com um clips, coçou a perna mais uma vez e saiu da escola pouco depois de Lenildo chegar com Foguete, um vira-latas de pelo amarelo e comprido.

                – Hoje tem passeio? – o vigia noturno também conhecia o trabalho da professora após as aulas.              

                – Todo dia – ela agachou e afagou a cabeça de Foguete  e então vestiu a capa cor de laranja com faixas fosforescentes – Quer passear? – o cachorro respondia coçando a orelha com a pata traseira.

                 Mirna tinha um único cliente. Ele pagava o triplo do valor para que Rublo fizesse o passeio sem outros cães. Ela nunca o viu, mas sabia que se chamava Sálvio, como ela podia conferir todas as sextas nos comprovantes de transferência bancária. Era para ela uma espécie de financiador para o seu projeto.

                – Encontrou alguma?

                –  Nenhuma, Dona Mirna. Confiro todos os dias.

                 Foi Sandro, o caseiro que tratou o serviços com Mirna e era ele que entregava Rublo no porta lateral do casarão murado no Sumarezinho. O husky siberiano tinha pelagem branca com leves manchas cinzas, fáceis para encontrar pulgas. Os colegas da escola imaginavam que ela cuidava de muitos cachorros e ela deixava que pensassem assim como forma de valorizar o trabalho. O único incômodo era a capa pesada que passou a usar depois que Sálvio encontrou  pulgas em Rublo. Não imaginava que pudesse passar as suas pulgas para o cachorro.

                Os passeios duravam cerca de quarenta minutos, o suficiente para Rublo gastar energia. Assim não destruía  o jardim da casa e ficava bem treinado para os passeios com o dono aos finais de semana. Mirna mesclava os caminhos por ruas mais calmas e avenidas movimentadas, mas nunca deixava de passar na praça iluminada que ficava diante da padaria.

                – Rublo, pega aí! – Mirna soltava o cachorro e ele corria buscar um chapéu ou um malabar que os meninos e meninas atiravam.

                A praça era lugar de encontro de cachorros e o espaço ao ar livre da escola de teatro para os moradores de rua. O cachorro corria e trazia a peça babada com alguma elegância enquanto Mirna aproveitava para descansar um pouco sem tirar os olhos das acrobacias e malabarismos.

                  “Sandro!  Chego aí às oito e trinta. Atrasei aqui, mas está tudo bem”.

                O caseiro não sabia dos encantamentos de Mirna com os números na praça, mas  confiava. Ela nunca deixou de cumprir o que escrevia nas mensagens.

                 Perto das nove, ela voltava para casa. Abria a porta do apartamento, ia direto para a área de serviço, onde deixava o casaco cor de laranja arejando. Então ia para o banheiro caçar as pulgas que ficavam nas dobras das costuras internas das suas roupas sem nunca pular para o capa de proteção laranja.  Nua, ela se ajoelhava sobre as peças estendidas no chão frio e procurava os insetos escuros.

                – Vamos minha linda, salte aqui no vidrinho – as palavras de nada serviam para captar uma pulga viva e Mirna acabava espremendo os insetos entre as unhas dos polegares. Há cerca de oito meses repetindo o ritual, havia já preenchido um centímetro do vidro transparente de maionese, mas estranhou que nesta noite, tinha encontrado somente uma única pulga. O inseto explodiu e manchou suas unhas de sangue. Ela o depositou no vidro, tomou um banho, o antialérgico, que ajudava no sono de todas as noites, e foi dormir para mais um dia de aulas e caminhadas com Rublo.

                 – Hoje tem passeio?  – Lenildo, o vigia, repetiu a pergunta a que já estava acostumada. Antes de vestir o casaco cor de laranja, ela se abaixou para fazer os carinhos nas orelhas de Foguete e encostar o rosto no pescoço do cachorro – Ele gosta da senhora.

                – Também gosto dele. Ele é muito bonzinho.

                – E a senhora pode ficar tranquila que ele agora está sem pulgas.

                – Ah é? – Mirna, ainda de joelhos no chão, olhou para Lenildo.

                – Fiz tratamento e sumiu tudo. Um remedinho pra tomar e um outro na coleira. Uma beleza.

                – Que ótimo! – Mirna se levantou com um meio sorriso no rosto, dobrou o casaco laranja até caber na mochila e saiu para a rua.  Enquanto esperava o ônibus, pensou na sugestão da colega Alvina sobre o curso de veterinária, deu uma última coçadinha na batata da perna e concluiu que montar um Circo de Pulgas não podia mesmo ser um grande projeto.   

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