O dinheiro que eu peguei penhorando as joias acabou muito antes do que eu imaginava. Precisava fazer qualquer coisa até que os frilas voltassem. Ao abrir o Instagram, vi uma publicação patrocinada que dizia “Ganhe muito dinheiro sem sair de casa”, apesar de não acreditar nesse tipo de anúncio, achei que era um sinal enviado do além.
Depois de preencher o formulário, recebi alguns e-mails explicando do que se tratava: era um serviço de telemarketing, para vender planos funerários de um cemitério novo lá para os lados do Morumbi. Havia também um arquivo de Excel com o nome de uns cinquenta velhinhos, todos acima dos oitenta anos. Depois de imprimir, coloquei uma música suave e liguei para a primeira pessoa da lista. Se chamava Alba. Demorou um pouco até que alguém atendesse.
– Alô!
– Bom dia, Dona Alba…
– Alô!
– Alô! – A voz começava rouca e baixa e ia ficando cada vez mais alta e estridente, parecia que ela tinha subido uma escada e gritava para que a escutassem.
– A senhora…
– Alô!
Achei melhor desligar e tentar de novo, quem sabe era um problema com a ligação. Não deu nem dois toques, ela pegou o telefone.
– Alô!
– Está me ouvindo? – Disse quase berrando.
– Alô!
– Dona Alba, a senhora…
– Alô!
– Alô!
Quando dei por mim, eu estava de pé em cima da cadeira aos urros. Desliguei o telefone completamente zonza, os alôs não saíam de dentro da minha cabeça. Fiz o desenho de uma foca sem as orelhas ao lado do nome dela. Depois passei um tempo tentando imaginar uma foca. Tinha orelha?
Agenor era o próximo. O telefone tocou um monte de vezes e quando eu estava quase desistindo, uma mulher mais jovem atendeu, talvez uma enfermeira. Pedi para falar com ele, pude ouvir ela dizer que o bocal estava ao contrário.
– Seu Agenor?
– Pois não.
Só de me ouvir, cheguei a me animar – Bom dia, meu nome é Nina. Sou do Cemitério…
– Do Cemitério?
– Sim.
– Já morri e ninguém me avisou? – Disse isso e depois deu uma risada. Ri também.
– O senhor não estaria interessado em adquirir um plano funerário?
– Para quê? Não estou morto? Ou não estou?
Ele riu de novo mas dessa vez percebi que era de nervoso.
– De jeito nenhum. Estamos conversando, não é mesmo? Então, sou representante do Cemitério…
– Fico feliz, se não estou morto, algo me diz que você quer que eu morra.
– Eu não, seu Agenor, longe disso. Quero que o senhor tenha uma vida boa e um enterro digno.
– Mas se eu não morri, para que o enterro?
– Se o senhor fizer um plano, quando morrer, todas as despesas já estarão pagas.
– Você vai me mandar os boletos? Mas eu nem morri.
– Não morreu, não, seu Agenor. Vou tentar explicar para a senhor, eu represento…
– Ah, você foi mandada pela minha falecida esposa. Antes de morrer, ela jurou que viria me atormentar.
– Não conheci a sua esposa.
– Tem certeza?
– Tenho.
– Mas você está morta ou viva?
– Estou bem viva.
– E eu?
Desliguei sem responder. A foca do seu Agenor não tinha cabeça e ao olhar para o corpo perdido, me senti triste. Fui para cozinha fazer um café e fiquei pensando se ele não estava certo, já morremos e não nos demos conta, vida besta.
Para minha sorte, Dona Carmem, a terceira da lista se mostrou interessada. Como não possuía e-mail e nem Whatsapp, era impossível enviar as fotos. Ela me pediu para contar todos os detalhes do cemitério. Comecei a descrever tudo que tinha no site me esforçando para que ela achasse o local agradável. Os túmulos ficavam num gramado extenso, com árvores frutíferas e flores. Num dos cantos, um bosque pequeno com uma trilha para caminhar. O velório era realizado numa sala ampla, perto, havia uma lanchonete e uma sala para descansar. Estacionamento e segurança vinte e quatro horas por dia. Ela estava gostando bastante, até que me perguntou:
– E piscina, não tem piscina?
– Oi? – Respondi.
– Seria bom tomar um solzinho.
– Seria bom para quem?
– Para todo mundo.
– Ah, inclusive para o morto? De maiô dentro do caixão?
– Claro, ia ficar com uma aparência mais saudável, rosado.
– Para isso tem maquiagem.
– Os familiares e amigos também, aparecem no enterro muito abatidos.
– Acho perfeito, Dona Carmem. Vou passar essa sugestão para os responsáveis, tenho certeza de que eles vão adorar a ideia.
– Não é? Cavar uma piscina é moleza para eles.
– Lógico, mas a senhora não quer aproveitar e fazer um plano agora?
– Não, não. Prometo que quando começarem as obras, indico o plano para todas as minhas amigas, está bem, minha flor? Melhor não demorar, elas já estão bem caduquinhas.
A foca desta vez estava de ponta-cabeça, apoiada no nariz e rodopiando, nem preciso falar que o cenário era uma praia linda. E eu, exausta. Ia fazer a última tentativa com seu Cândido. Se não desse em nada, juro que ia passar a tarde denunciando essas propagandas. Imaginei um velhinho com a pele bem clara e os cabelos prateados. O número era de um celular e ele atendeu rapidinho.
– Bom dia, seu Cândido!
– Bom dia, quem fala?
– Sou a Nina, do Cemitério Flor de Lis, queria…
– Do Cemitério?
– Sim, queria…
– Que horas você vem me pegar?
– Como assim?
– Cada coisa que vocês inventam. Já estou todo ouriçado.
– Não faça isso.
– Nunca trepei num túmulo, minha filha.
– Hã?
– Me visto de preto?
– Seu Cândido, o senhor não entendeu, eu vendo planos funerários.
– Planos para enterrar defunto?
– É.
– E para enterrar o marmelo?
– Nem marmelo nem rosquinha!
– Sua voz é muito bonita, me diz uma coisa, você é mais para cheinha ou…
Encerrei a chamada na cara dele. Não me dei o trabalho de desenhar uma foca com o pau duro, sim, seu Cândido devia tomar Viagra. Primeiro porque eu não sabia de onde saíam os órgãos reprodutores do macho. Segundo, não ia mais ligar para velhinho nenhum. Descobri que as focas não deviam bater bem.
Depois do almoço, sentei no sofá para relaxar um pouco. Meus olhos estavam quase fechados quando meu celular tocou.
– Nina?
– Sim.
– É, o Cândido. Não quer me vender mais alguma coisinha?
Foca com celular conseguia ser muito pior.
