Tem cura não?

por Américo Paim

O momento de Beto Prenha não era dos melhores. Só oito meses como vigia da fábrica de embalagens e foi despedido. Falaram de redução de custos. Ele achou que foi praga. Lurdinha? Um dono de bar? Pensava nisso quando o ônibus parou perto do fim da Estrada do Cachorro Roxo. Desceu, perguntou na venda de Tirulim e seguiu para a fazenda de Miro Fragoso. O Véi Totó lhe falou que havia trabalho lá.

Era um portão desgastado com duas colunas de pedra e um círculo com as iniciais MF em um arco metálico corroído. Um quilômetro a pé pela estradinha de barro cercada de mata rasteira e irregular e chegou à sede. À esquerda da casa, as árvores frutíferas. Mais atrás, um celeiro de madeira, feito os daqueles filmes. Ainda matutava como se apresentaria e Miro se impôs na ampla varanda da frente da casa, com um rifle e a cara enfezada. Era homem robusto, rosto endurecido, cabelo à moda antiga com gomalina. Camisa de botão, calça grossa e sandálias de couro. Cigarro na boca e tapa-olho no lado esquerdo.

– Fique daí mesmo, cidadão.

– Boa tarde, senhor!

– Não chamei ninguém aqui. O que quer?

– É sobre uma vaga de trabalho.

– Quem lhe disse isso?

– Foi Totó.

– Velho enxerido.

– Sou bom trabalhador!

– Com essa barriga aí? Qual o seu nome, infeliz?

– É Alberto dos Santos, mas pode chamar de Beto Prenha.

– Isso lá é nome de gente?

– É coisa dos amigos, o senhor sabe…

– Não sei. Não tenho amigos. Se aproxime.

Prenha sentou-se na cadeira de madeira escura de frente para o homem, que ficou ali, tragando lento, calado, a observar. A espingarda no colo.

– Tá sofrido, hein? Olheira, suando, inchado. Tu bebe?

– Oxe não, senhor. Parei tem um ano.

– Parece não.

– Tô assim porque perdi o emprego.

– Foi a bebida?

– Esse num foi não. Foi redução de custo.

– Não minta pra mim, cabra.

– O senhor tem um copo d’água, por gentileza?

O homem entrou na casa. Prenha pensou se Miro sabia da história do armazém de Florindo, seu emprego antes da fábrica. Encontraram ele escornado nos sacos de batatas, cantando “É com esse que eu vou”, com a garrafa quase vazia na mão esquerda. Flô foi piedoso e não lhe deu uma justa causa. Dali em diante não bebeu mais. Tomou da água e repetiu. Se acalmou.

– Tá com que idade?

– Fiz 38.

– Parece mais. Tá caidaço.

– Eu tô bem, forte que só.

– Num sei se aguenta o tranco.

– Tenho medo de trabalho não.

– É afastar os pássaros da plantação. Preciso de um espantalho vivo.

– Oxe…

– Os comuns não resolveram.

– É pra eu ficar parado no meio das plantas?

– Parado, andando, tanto faz.

– Que doideira é esse?

– Se não interessa, pegue seu rumo e é agora.

– Não, não, peraí. Quanto o senhor paga?

– 20% em cima do seu emprego anterior. Pago semanal. Folga domingo.

– Então tá bom.

– Tenho minhas condições.

– O senhor fale.

– Nunca entre no celeiro ou na casa.

– Sim, senhor.

– Não importa a ideia que vá no seu juízo.

– OK, entendi.

– Eu atiro e pergunto.

– Vixe…

– Tu dorme aqui no emprego. Naquela cabana.

Apontou para a direita da casa. Estava bem escondida atrás de umas árvores grandes e tinha tudo que precisaria: roupas, ferramentas, suprimentos.

– Cachaça é problema seu. Eu não me importo.

– O senhor fique tranquilo.

– Faça seu trabalho e tá tudo certo.

– Se o senhor me permite, só tenho um pedido.

– O que é?

– Posso trazer meu bichinho de estimação?

– Que não atrapalhe o serviço.

– Quando eu começo?

– Na segunda-feira. Chegue pra despertar o sol.

– Oxe, cedo assim?

– Passarinho acorda tarde?

No fim de semana ficou em casa, envergonhado com o trabalho esquisito e evitando a tentação da bebida. Conversou com Eva sobre as novidades e dentro da sua confortável gaiola, a tarântula parecia até entender suas palavras e gestos. Na segunda-feira, ao chegar à fazenda, ouviu do patrão:

– Que caixa é essa? Descubra. Quero ver o bicho.

– É uma aranha.

– Tu é estranho, ô, barriga.

– É Prenha.

– Que seja. Se ajeite e vá trabalhar.

A cabana tinha sala, um banco largo e a mesa de jantar, cozinha e quarto com banheiro. Duas janelas na sala e uma no quarto. Tudo básico. Pôs a gaiola sobre a pequena parede de concreto entre a sala e a cozinha. O teto sem forro não estava sujo. Vestiu a camisa cor de laranja exagerada, a calça azul, um chapéu grande de palha e caminhou para a plantação.

Muitos pássaros a voar, outros bicando frutos nas árvores ou na cantoria. Chamava a atenção tanto movimento. Não deu conta de tudo e ainda correu de um cachorro grande, perdido, que parecia estar doente com raiva. Fugiu subindo em uma árvore. Miro, da varanda distante, acertou a cabeça do bicho com um só tiro. Foi dormir esgotado, com a cena na cabeça.

Na terça, perseguindo uma perdiz, tomou uma queda feia. No mesmo dia achou dois ninhos de cobras nas redondezas. Marcou os locais para ficar atento onde colocar pé ou mão. Tudo isso no calor e com a roupa desconfortável que limitava seus movimentos.

Na quarta, Prenha se jogou no lago perto das árvores, fugindo de abelhas cuja casa caiu no chão. Achou que aquilo foi obra de bicho de porte maior e ficou estressado. Ainda teve que explicar a Miro que não estava só se refrescando. Apesar de mais um susto, dormiu bem pela primeira vez. Alimentou Eva com grilos e conversou com o bicho que seu trabalho era doido.

Quinta-feira sofreu com rasantes de Quero-queros. Também foi atingido por dejetos que pareciam lançados por artilheiros de bombardeiros e não por inocentes pássaros. Sua rotina era cansativa, desde o nascer do sol. Alívio só à noite, pois os pássaros comiam insetos e pequenos mamíferos, ignorando a plantação. Era mais silencioso, só que foi naquela noite que ouviu pela primeira vez.

Achou que era o vento pregando peça, mas concluiu que eram ruídos como um canto ou lamento. Cada vez mais claros e intensos. Não sabia de onde vinha. Antes de dormir, puxou uma gaveta da cozinha com muita força e ela foi ao chão. Notou algo preso embaixo dela. Uma foto em branco e preto de uma bela e jovem mulher de cabelos longos. Ela sorria feliz. Atrás estava escrito: “Só para você. M.C.”. Se abaixou para pegar os talheres e viu uma garrafa atrás das panelas embaixo da pia. Cachaça, quase toda cheia. Estava tenso e agitado. Hesitou. Bebeu tudo e dormiu ali mesmo no chão.

Naquela manhã de sexta-feira, falou ao patrão sobre os estranhos sons da noite anterior.

– Foi tão real. Parecia alguém falando.

– Se concentre no trabalho.

– Acho que até Eva percebeu. Estava agitada.

– Não quero ouvir mais sobre essa doidice.

Os sons voltaram na noite de sexta e ele saiu pelo campo com uma lanterna para apurar. As luzes da casa estavam apagadas. Passava das nove. Foi para o lado do celeiro. O volume do som aumentou. Parou a uns dois metros da parede que dava para o pomar e ouviu um gemido, como cantiga sem palavras. Silêncio de novo. Voltou à cabana com a cabeça cheia. Tinha que ver aquilo de perto.

No sábado durante o dia, tentou ouvir algo, mas a algazarra dos pássaros e a distância impediam. Decidiu entrar no celeiro naquela noite de lua cheia. A porta principal vivia trancada. Com cuidado, foi pelo fundo e abriu a janela. Já tinha visto que era mal fechada. Entrou. Andou devagar. Percebeu uma luz fraca no mezanino, cuja janela sempre fechada dava para a frente da construção. Subiu uma escada de madeira. Quando alcançou a plataforma, quase caiu de volta.

Uma menina de pele escura com uns dez anos, cabelos enormes e vermelhos, rosto marcado de sujeira e olhos negros profundos, que deram a Prenha uma sensação de hipnose. Usava um vestido de cor clara e estava descalça. Ela recuou até encostar na parede e o olhou de forma incisiva. Ele sentou-se perto dela e estendeu a mão para tocá-la, dizendo que não ia lhe fazer mal. Ela gritou muito alto e agudo, algo saído das entranhas. Assustado, ele correu dali e se escondeu no mato, com medo de ser visto ali por Miro. As luzes da casa se acenderam. Viu o dono sair de arma em punho e entrar no celeiro. Voltou à cabana, sem emitir ruídos, ouvindo os pios das corujas.

No domingo, encontrou os amigos no Bar do Cabeça Quente. Queria muito contar o que lhe aconteceu. Não podia ser por telefone. Firmino Notre Dame estava de folga e chegou logo. Juca Mentira não demorou.

– Como é? Espantalho, véi?

– Olhe sua feiura servindo…

– Podem sacanear.

– Só você, Prenha…

– O dinheiro é bom, o homem não me enche o saco. Só tem uns mistérios.

– Coisa rara aqui nessa cidade…

– Mermão, ele é estranho.

– Tipo o quê?

– Rapaz, não posso entrar na casa e nem no celeiro. Fico numa cabana perto.

– Ué, e daí?

– Nunca vi ninguém por lá visitando.

– Nada demais.

– Quando quero falar, bato na porta e ele me manda afastar e sai de espingarda.

– Cara nervoso…

– Pois é. Ali naquela casa tem alguma treta.

– O povo fala isso mesmo.

– Ah, é? Conta aí. Falam o quê?

– Da traição, né? Aconteceu tudo ali.

– Conheço não.

– Oxe, não sabe da maldição da morena do cabelo de fogo?

– Mal… o quê?

– Diz que se ela olhar nos seus olhos tu morre três dias depois.

– Oxe, valei-me! Tem cura não?

– Minha vó falava que tinha que beber leite com sal três vezes por dia, três dias seguidos.

– Garçom, corre aqui!

Deixe um comentário