Guarda aí pra mim?

por Américo Paim

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– Velho, essa é das piores, na moral.

– Porra, Zoião, lá vem você…

– Tá vendo que isso nunca ia acontecer…

– Oxe, a cidade toda sabe.

– Sua versão, né?

– Meus primos aqui querem que eu conte.

Eram os gêmeos Jackson e Jockson, primos de Juca Mentira, o baixinho de pernas curtas. Só as roupas não eram iguais porque o bigode fininho, a cara de boneco da Estrela e o cabelo castanho, tudo era idêntico. Queriam saber do caso do mochileiro pancada. Zoião era por causa dos “olhos pocados”, exoftalmia. A piada clássica: o pagamento da consulta no oftalmo era por metro quadrado. Ele nem ligava mais. Estavam todos na lanchonete de Zé Tripa, perto de dez da noite. Pediram mais cerveja e Juca contou sua história.

O povo só soube depois, mas a porra toda começou aqui mesmo, de onde o da parte do coisa-ruim saiu. Não se sabe como ele foi parar no meio do mato, onde Dionísio, o mochileiro, encontrou o cabra já batido as bota. No dia que Dió sair do hospital ele confirma e fala por que deixou tudo lá.

– Oxe, ainda tá internado?

– Até hoje. Num diz coisa com coisa.

– E que tudo é esse, home?

– O dinheiro, ué. Que era dele, mas era do cramulhão.

– Ave Maria…

– Juca, miséra, para de mentir.

– Zoião, cê me deixe. Querem ouvir ou não?

Nerivaldo era um pobre coitado que fazia bico aqui e ali. Cara moderno, feito a gente. Um dia, contrataram pra capinar uma roça lá pras banda da serra. Tava no ônibus, já perto, e teve a ideia de cortar caminho pelo mato que já conhecia. Desceu do buzão e se embrenhou. Era início da tarde.

– Assim, do nada?

– Sim, foi coisa do destino.

– Entendi não.

– Repare.

Uns quinze minutos caminhando e sentiu o cheiro estranho. Seguiu atento e piorou. Era carniça. Ficou curioso porque não viu urubu. Alguma coisa lhe dizia pra ir atrás.

– Juca, essa tá foda.

– Zoião, eu tô lhe dizendo…

– Venha cá, você ia pra cima da fedentina?

– Deus é mais, eu não.

– Então. Tá na cara que é culhuda…

– É não. Foi desejo mermo. Prestenção.

Mais um pouco e deu de cara com o presunto já estragado, mais osso que carne, caído no chão da clareira. O esquisito de tudo foi não ter bicho roendo nem verme. Ouviu uns uivos de cachorro que deram arrepio e as porra. Já ia tirar o corpo de tanto medo. Aí eu pergunto: por que ele não foi embora?

– Sim, primo, por quê?

– Conta!

Ele viu um montinho estranho do lado do pobre. Cismou. Parecia terra mexida, tinha uma cor diferente. Aí ele enrolou a camisa por cima do nariz e foi conferir. Curioso que só a peste, olhou pra cá e pra lá, viu que num tinha viva alma por ali e cavucou na mão mermo. Logo achou.

– Era o quê, home de deus?

– Cês vão na conversa de Juca, digo é nada…

– Vou falar é agora.

Não era caixa, nem baú. Era uma mochila. Como o caveirudo ali no chão não ia contar nada, ele abriu. Podia ser uma coisa que explicasse o infeliz ali deitado. Só que era dinheiro e muito, uns 700 pau. 700 mil! Sério. Ele nem pensou duas vezes: tava rico.

– E se o dinheiro fosse do home?

– Oxe, ia saber como?

– Então ele surrupiou?

– Achado não é roubado, né?

– Sorte retada.

– Foi bem assim não…

– Que foi, Zoião?

– Conte o resto, “perna curta”.

Ele tratou de se picar dali. Meteu a mochila nas costas e voltou pra estrada. Esperou passar um ônibus, mas um carro parou pra ele, sem nem ele pedir, óia só. Chega rupiei aqui. Ele nem deu tento. Queria era chegar logo na cidade pra ver o que ia fazer com a bolada. Era um casal, com seus sessenta anos, que tava só de passagem. Nem ia ficar em Pedra Velha. Ele foi pro banco de trás. O povo simpático, conversador e tal e coisa. Ele se acalmou. A grana ali na mochila quieta feito um sanduíche de mortadela. Até que complicou numa curva fechada.

– Aquela perto do Olho do Cabrito, Zoião.

– Ali é barril.

– O carro virou foi? Morreu tudo?

– Calma, foi não. Furaram foi os quatro pneu de uma vez.

– Oxe, que é isso? Encosto?

– Não, é mentira…

– Para, “olhudo”. Era armadilha, coisa de bandido.

O motorista tinha reduzido por causa da curva, então o carro não capotou. Aí, parou no acostamento. Saíram três de dentro do mato, gente conhecida da polícia. A gangue de Dengoso. Ele, Zé Ruim e Cegueta.

– Eita, só problema.

– Botaram o trabuco na cabeça do velho e arrastaram foi todo mundo.

– E aí?

– Roubaram celular, dinheiro, joia, tudo.

– E a mochila?

– Oxe, Nerivaldo quis dar de esperto e foi logo passando carteira, telefone…

– Então escapou.

– Nada. Zé Ruim desconfiou da mochila.

– Vixe…

Abriram e tava lá a dinheirama toda. Aí foi gritaria e tiro pra cima, mato adentro. Largaram os três pra trás. O velho abanando a mulher sentada no chão e o ex-rico Nerivaldo dando nome pra tudo que é lado. Os ladrões sortudos correram muito e pararam em um lugar perto de um riacho que nem sei o nome. Aí Dengoso, assim ele contou depois, resolveu conferir a quantia. Dividiu entre os três.

– Rapaz, se deram bem. Dinheiro fácil.

– É, mas deu ruim.

– Como assim?

É que Dengoso dividiu metade pra ele e a outra pros dois. Os caras não gostaram não, discutiram e tal e coisa. Teve até tapa. Sem acordo, passaram a noite ali, protegidos pela escuridão. Ficaram feito Zoião, olho arregalado o tempo todo, com medo de um deles levar o dinheiro. Já vinham sem dormir direito há tempo, aí o sono ganhou Dengoso e Zé Ruim. Cegueta, que enxergava muito bem com o olho que tinha, fingiu dormir primeiro. Quando os caras apagaram, pegou a grana e vazou mais pra dentro do mato. Já tava quase dia. Eles acordaram e foram atrás do traidor. Não iam deixar de graça, né? Seguiram os rastros e chegaram a ele.

– Eita que deve ter sido bagaço.

– Foi mermo, Jackson.

– Eu sou Jockson. Pegaram de volta?

– Não. Ele tava morto.

– Cacetada…

Ou fugiu de bicho, que tem muito ali, ou então escorregou. O fato é que se lascou todo. Perto do Rio do Corvo, onde os parceiros encontraram, tava pendurado na pirambeira com um toco de galho atravessado na barriga. Coisa horrível.

– E os outros dois?

– Desceram a ribanceira, atrás da mochila. Num acharam foi nada.

– Oxe, evaporou?

– Veja bem, a mochila caiu quase que no colo de Tramela.

– Quem é esse?

– Trabalha na farmácia de Ondino. Tava lá pescando, como bem gostava.

– Virado pra lua esse…

– Mais ou menos. Não deu certo pra ele.

– Oxe, o que foi?

Ele tava na beira do rio. A mochila caiu lá do alto a menos de um metro dele. Quase mata. O susto foi grande, mas ele ficou bem alegrinho porque abriu e viu o que tava lá dentro.

– Também esse povo abre é tudo, viu?

– Oxe, não é o quê…

– E aí?

Olhou pra cima e não viu ninguém. Dali não dava pra ver o espetado. Pegou suas coisas e foi embora pra cidade de carro. Chegou em casa e escondeu a mochila na garagem. Tava excitado. Veio no carro pensando foi coisa. Contou que tava tão doido que ficou com vontade de uma brincadeirinha com Dona Bernadete, a mulher dele. Entrou pela cozinha e em vez de fazer barulho, um pigarrinho e tal e coisa, inventou surpresa. Quando abriu a porta do quarto, ela já tava brincando, mas era com Rodrigo, o Pé de Mesa, aquele do armazém de Louro.

– Oxe, num foi com Sabora do mercado?

– Isso também teve, só que foi antes, Zoião.

– Dona Dete, hein? Quem foi naninha…

– Menino…

– Véi, e aí? O que foi que deu?

– Se atracaram num trampo de faca que começou no quarto e acabou na cozinha.

– Vixe, que tragédia!

– Não, ninguém morreu, mas deu B.O. e hospital pros dois.

– Eita.

– E ele voltou pra mulher! Bem, isso é outra história…

Pois bem, vocês devem estar pensando: e a mochila? Olhe como o cão não descansa. Dona Dete foi com Tramela pro hospital. Ele nem tchum sobre o tal dinheiro, imagine se ia falar. Ninguém lembrou de Sá Menina, a empregada. Ela chegou no horário dela, viu a casa vazia, mas nem ligou. Cuidou da vida. Entrou na garagem, varreu tudo, limpou e recolheu os cestos de lixo pro caminhão apanhar na calçada.

– Não me diga que…

– Digo e vou mais. Reginaldo, lixeiro experiente, achou o saco pesado e fuçou.

– Ah, qualé…

– Tô lhe dizendo… Pegou a mochila e guardou dentro do caminhão, sem abrir.

– Óia, taí um cara estranho…

Quando acabou o turno já era início da noite. Ele conferiu no vestiário e quase caiu no chão de nervoso. Resolveu que ia decidir em casa. Saltou do ônibus. A uns trezentos metros de chegar, caiu duro. Infarto fulminante.

– Cê tá de sacanagem…

– Eu, não, a mochila, né, Jockson?

– É Jackson… E daí? Fala!

– Tinha um pessoal por perto que acudiu e naquela agonia de dar socorro e tal, a mochila sumiu.

– Porra e agora?

– Tá por aí complicando a vida de alguém.

– Que história doida, Juca!

– É tudo verdade.

– Pois sim…

– Zoião, eu juro!

– Ô, Zé, depois dessa, traz mais uma rodada aí…

Zé Tripa, que ouviu a conversa toda, quase não conseguiu equilibrar as garrafas na bandeja, mas não deixou perceberem seu nervosismo. É que ele lembrou aflito do que ouviu ali mesmo, encostado no balcão, três meses atrás.

– Fala, Zé.

– E aí, Jocelmo?

– Me diga, pode guardar essa mochila pra mim? Depois eu busco.

– Pesada, hein. É o quê?

– Nada demais.

– E que cara é essa, véi?

– Rapaz, tô bege aqui. Tava de boa, perto de casa. Cê acredita que aquele lixeiro, Reginaldo, do nada

  caiu duro na rua, mortinho?

Pensou: faz tempo que ninguém mais fala de Jocelmo…

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