Julia desliza a folha da janela para o lado e se expõe para as luzes dos prédios ao redor. Apoia um antebraço sobre o peitoral e deixa a cabeça do lado de fora, os cachos ruivos agitados ao vento, enquanto esfrega os mamilos redondos contra o alumínio frio. Com a outra mão, puxa uma das nádegas, facilitando as estocadas de Tibério. O amante é mais baixinho, precisando ficar nas pontas dos pés para alcançá-la. Vermelho, o rosto dele está no ponto de ebulição. Ele transpira, baba e os pelos, da nuca às sobrancelhas, parecem sob efeito de uma eletrostática, sugados de sua cabeçorra.
Juju… Jujuba… Fecha isso… Os vizinhos.
Deixa. Não para, não para. Que vejam.
A Esther… Se minha mulher vai até a sacada… Fodeu.
Cacete, Tibério.
Sem se desengatar, a moça joga o corpo para trás. Com as calças nos tornozelos, o homem perde o equilíbrio e os dois caem de costas sobre a cama. Ela se senta, aperta os seios e mantém o ritmo do rebolado.
Péra aí. Cuidado… A lombar.
Em um movimento rápido, Julia fica de frente para ele, segura seus braços e tenta alcançar algo na cômoda. Os peitos sufocam Tibério, que vira a cabeça de lado, buscando ar.
A janela… Melhor fechar, hein?
Em um clique, os braços do sujeito estão imobilizados, presos à madeira da cabeceira por um par de algemas.
Sério? Pra que isso agora?
Com os pés, ele arranca a perna da calça que ainda estava pendurada. Sobram as meias pretas de cano médio.
Cala a boca um pouquinho, Ti.
Ela o aperta pela papada, tasca um meio beijo, meio mordida e lambe a orelha. Então, envolve as bolas dele na palma da mão, bombeia o sangue três vezes e soca o pau semi-duro de volta, recomeçando um estiloso cavalgar.
Pô, pelo menos, apaga a luz, vai.
Deixa olharem.
Agora Julia trota enquanto crava as unhas no peito grisalho de Tibério, deixando três arranhões. Ela abre mais as pernas, esparramando-se sobre a pança e mexendo apenas a cintura, devagar. O homem levanta ao máximo o quadril, para se sentir o mais dentro dela possível.
Juju… Eu vou… Vou…
Com um salto para fora da cama, a moça escapa do jorro, que acaba em volta do umbigo do próprio dono. Ele se contorce, tentando prolongar o prazer – e enxugando o suor da cara na fronha do travesseiro. De joelhos no chão, a ruiva enfia dois dedos na vagina.
Tem que avisar antes, Ti.
Sua louca… louca.
Não louca pra engravidar de velho casado.
Vamos, me solta. Quero me limpar.
Vou pegar papel.
Tá, mas fecha a merda da….
Tibério calculou mal o oxigênio necessário para terminar a frase. Julia sai do quarto sem esperar o complemento. Ele olha pela janela e vê as luzes pequeninas dos apartamentos do quarteirão. Em um deles está algum moleque punheteiro com um binóculo, curtindo o desfile da ruiva gostosa em cima de um sessentão caidaço. Que aproveite. Contanto que sua mulher também não esteja espiando, pode ter um Morumbi lotado de olho naquele oitavo andar. Os olhos do mundo inteiro no seu pinto murcho. Os olhos, que brilham, como estrelas. Aqueles dois pontinhos bem ali, no canto do vitrô. Olhos que parecem pulsar.
O grito de Tibério é estridente como o de um porco no abate. No susto, Julia sai do banheiro puxando uma tira longa de papel higiênico. Mal entra no quarto, atira-se ao chão para se desviar de algo que passa perto da cabeleira. Ela se arrasta para a entrada e só então identifica o que é: um morcego voa pelo cômodo, formando um círculo à meia altura.
Me tira daqui, me tira daqui.
Ainda algemado, Tibério encolhe as pernas, pendendo os joelhos de um lado para o outro, conforme a posição do animal.
A chave. Me solta logo, caralho.
Arqueada e com os braços protegendo a cabeça, Julia tenta entrar. No primeiro passo, a criatura vai na sua direção. Ela berra e recua de novo, batendo a porta.
Tá doida? Volta aqui.
Não posso deixar ele entrar.
Me deixa sair.
Espera.
Ai, meu deus.
Avisa se for pra janela.
Tá em cima de mim. Sai, capeta.
Desculpa, Ti.
Ajuda, mulher.
Julia abre uma fresta da porta. O amante segue empelotado. De quando em quando, dá um chute no vazio. Porém, o voo do morcego mudou. O zanzar lembra um oito, o sinal de infinito.
Fica quieto. Se mexer, provoca ainda mais o bicho.
Julia, entra aqui.
Eu não.
Juuu. Vem.
Não quero pegar raiva.
Taca alguma coisa nele.
Ela coloca metade do corpo para dentro do quarto, observa o percurso sempre igual e preciso do morcego, escolhe um ponto invisível e, na terceira passada dele, atira o bolo de papel higiênico. Não passa nem perto, mas a pequena aeronave começa a taxiar para o lado oposto, rodando no sentido anti-horário.
Que porra foi essa?
Joguei nele.
Entra e me solta. Por favor.
Já volto. Não atiça ele.
Quê? Onde… Ju?
Nada. Ela se afastou. Os olhos de Tibério saracoteiam atrás do invasor, sem piscar. Onde deixou os óculos? Tão hipnótico quanto o rato com asas é o movimento caleidoscópio de sua sombra nas paredes. Isso é praga da Esther. O sogro já dizia que todas as mulheres da família são bruxas. Ela sabia que o marido aproveitaria o horário da reunião de condomínio para escapulir. Também, nem o prédio inaugurou e ela já inventou de se candidatar para síndica. Ganha o quê com isso? Desconto no condomínio? Só dor de cabeça. Levaram uma cobertura dentro do acordo de venda do terreno da família. Não basta? Quando ele não quis apoiá-la, ela fez um feitiço qualquer e mandou esse pequeno demônio atrás dele.
Talvez seja impressão sua, mas há mais luzes acesas nas janelinhas lá fora. Capaz de a gritaria ter chamado a atenção da vizinhança. A reunião de condomínio é na cobertura deles. Dá para avistá-lo de lá? Ergue a cabeça para ver melhor. Então, o círculo do morcego começa a diminuir. E fica cada vez mais baixo. Até pousar. Ou cair. No colchão, entre as pernas do homem em posição de trabalho de parto. Quase dá para sentir o bafo da coisa no seu saco. A barriga, porém, encobre a visão.
Cadê ele?
Julia está no vão da porta. Atrás dela, outros dois pares de olhos curiosos, dos gays que moram ao lado. Tibério arfa curto como um cachorro e sua voz afina, igual a apito de panela de pressão.
Ele tá aquiiii. Tá aquiii.
Onde, Ti?
Embaaaaixo. Embaixo de miiim.
Ai, Ju, eu vi. Ali, a asinha mexendo.
Quando um deles enfia o braço pela fresta para apontar, o morcego se acalora e as asas chegam a roçar a virilha do prisioneiro.
Xiiiu. Tão fazendo o quê aquiiii?
Os meninos vieram ajudar, Ti. Fica tranquilo.
Eles conversam do lado de fora, um zumzumzum do qual se extrai apenas palavras soltas. Síndico. Bombeiro. Zoonose. Se fosse uns anos atrás, quando começou a sair com a atriz, já teriam chamado o Nei, o antigo zelador. Além de tomar uma providência ele mesmo, sabia ser discreto. Mas os moradores decidiram colocar porteiro eletrônico. Agora não tem um faz-tudo para uma emergência dessas.
Cruzes. E se ele tá sentindo cheiro de… sexo?
Será? Tipo cachorro no cio?
Tudo mamífero, ué?
Cala a boca, seus merdas. Me tira daquiii.
Tibério não consegue mais conter o choramingo na fala. Como acabou nessa situação? Na sua idade, arrumar uma amante. E tão perto de casa, que estupidez. Nunca foi de putaria. Bom marido, bom pai. Foi só os filhos crescerem para começar a arrastar o olho para o decote da caixa do mercado, as pernas da vizinha, a bunda da empregada. Ficou sossegado com a venda do terreno para a construtora, ganhou um imóvel novinho e ainda comprou três apartamentos nesse prédio velho para tirar uma renda extra dos aluguéis. Estava tudo tranquilo. Precisava se envolver com uma das inquilinas? Imbecil, todo mundo se conhece aqui. Merece mesmo levar uma dentada de morcego tarado.
Calma, Seu Tibério. Chamei os bombeiros.
Só faltava essa. Meteram o arrogante do Machado na história. Pior que, como síndico, ele se reúne com a Esther e outros administradores e discutem os problemas da região. Daqui a pouco, o subprefeito vai saber dessa confusão. Quanta gente tem lá fora, afinal? Com certeza, apareceu até fotógrafo do jornaleco do bairro. Pela abertura da porta, os olhares enxeridos vagueiam como moscas em volta do doce. E ele lá, nu de meias escuras, com uma rola tão apavorada que deve ter se virado do avesso. E essa barriga gosmenta de porra seca, exalando um odor libidinoso, instigando o bichinho a escalar seu traseiro e…
Som de sirenes. No susto, Tibério bate o calcanhar no colchão e salta da cama grunhindo. Tão amedrontado quanto ele, o morcego voa de novo, agora subindo e descendo enquanto contorna o quarto em um trilho imaginário de montanha-russa. Ainda com as mãos presas, o homem tenta arrastar a cama, mas o móvel é embutido a um conjunto de armários e cômodas. Nem se mexe. Seu grito agudo ecoa e levanta uma onda de latidos dos cães das redondezas.
Ah, me deixa sair. Pelo amor dos meus filhos.
Se acalma, Ti. Os bombeiros tão subindo.
E precisa de sirene pra catar uma droga de morcego?
Um rasante mais próximo de sua cabeça faz com que Tibério pule de volta para a cama, agora com os braços contorcidos, o rosto enfiado no lençol e a bunda empinada. Aproveita que está de joelhos e reza. Não uma oração tradicional, mas uma de autoria própria, no improviso, envolvendo culpas e juras só dele. Vai ser um homem melhor, um marido fiel, um trabalhador dedicado, um cidadão exemplar, doar mais tempo a causas justas, o pacote completo. Dirige-se a Deus, a um deus, a todos os deuses. E deusas. Só quer sair daqui inteiro, voltar para casa, tomar um banho, dormir na sua cama. Sem morcego e dentinhos. Ou olhinhos.
Mas o que é isso?
Na porta aberta, estão três bombeiros encapotados, usando o visor dos capacetes para proteger o rosto e luvas de amianto. Um deles porta uma rede, como uma biruta, presa a uma haste. Atrás deles, percebe-se os cachos ruivos de Julia, talvez a careca de Machado. Tibério descaramuja-se, mas não encontra a ratazana alada.
Fique imóvel, senhor. Ele tá na porta do armário.
Fora a tremedeira, Tibério segue as instruções. Um dos bombeiros entra e, com cuidado, encesta o monstro, que se debate um pouco, mas, no fim, aceita. Outro bombeiro se aproxima do peladão que imita um avestruz.
A chave tá na gaveta, moço. Relaxa, Ti. Tá tudo bem.
O mesmo bombeiro que abre as algemas, usa o lençol bege para cobrir Tibério, enquanto o terceiro homem apenas fecha a janela. O recém-liberto se levanta, envolto na roupa de cama feito uma toga romana, que lhe empresta falsa dignidade. O imperador Tibério é avisado de que precisa passar por um exame médico, que morcegos podem transmitir várias doenças, que deve tomar algumas precauções. Ao sair do quarto, reconhece Machado e os vizinhos de Julia, mais um jovem que não sabe quem é. Na sala, a amante, de roupão, analisa de perto o morcego na rede. Ao vê-lo sair, ela afaga seus ombros.
Deve ser fêmea. Até que é fofinha, viu?
Tibério acompanha um dos bombeiros. No elevador, enfim, estala os punhos, machucados pelas algemas. Também gira a cabeça de um lado para o outro, tirando a tensão da cervical. Está tudo bem. Deu certo. Foi apenas um susto. O pior já passou. Quem viu aquele espetáculo? Uns bombeiros, poucos vizinhos, o síndico. Todos homens, hão de entender seu momento de fraqueza, sabem que não pode ir contra a natureza. Pela janela, se alguém viu algo, nem entendeu o contexto.
Na frente do prédio, estão três carros de bombeiros, um exagero, desperdício de dinheiro público. Alguém pediu ajuda, mas não explicou que não se tratava de um incêndio. Só um morcego. Uma morcega, fofinha até. Também tem uma ambulância? Com tamanha comoção, não é à toa que os moradores assistam a tudo do conforto de seus lares, pelas janelas. Sem problema. Podia acontecer com qualquer um. Ninguém aqui tem moral para julgar ninguém. Até o primeiro piadista puxar o coro com um grito anônimo.
Dá-lhe, Batman.
