Oblomovismo

Oblómov, de Ivan Gontchárov, é um romance da geração de Gógol e logo antes da geração de Dostoiévski. O livro é de 1959, dois anos antes da abolição da servidão na Rússia, que era então um país bem mais atrasado que a Europa. O império começava a entrar no capitalismo internacional, mas ainda mantinha tradições arcaicas – a geração de Gontchárov é a primeira de escritores críticos ao regime. O original personagem-título, um aristocrata glutão, preguiçoso, esbanjador e mamateiro, é um retrato violento da elite russa – e originou o termo ‘oblomovismo’, uma doença típica dos ricaços vagabundos, supérfluos e inúteis. É uma obra-prima da restrição narrativa, já que suas mais de 600 páginas se passam quase que totalmente dentro de um quarto. Saiu por aqui primeiro pela Cosac Naify, mas foi reeditado pela Cia das Letras, com tradução de Rubens Figueiredo.

Só por sua originalidade Oblomov já dorme no terreno dos grandes personagens da literatura universal – um ser tão único quanto Quixote, Hamlet, Fausto e Don Juan. Antiépico como o protagonista de Viagem Ao Redor de Meu Quarto, de Xavier de Maistre (que Gontcharóv traduziu), Oblómov inspirou outro grande personagem: o escrivão Bartleby, de Herman Melville (aquele do refrão “prefiro não fazê-lo“), que por sua vez influenciou toda uma linhagem de ficções suspensas na inação, no perpétuo temor do vir-a-ser – dos catatônicos de Beckett aos paralisados de Vila-Matas, legista da “arte da recusa” no divertido Bartleby e companhia.

Talvez a preguiça que sustente o catatau tenha dominado por décadas nossos editores, pois somente em 2012 lemos em português essa maravilha publicada em 1859. Claro que o sedentário Gontcharóv (1812-1891) sofreu de outra síndrome, a de eclipse: sua diminuta obra, composta por apenas três romances, foi escondida pela repercussão de pares como TolstóiGógolDostoiévski – embora na Rússia seu romance tenha feito tanto sucesso que suscitou a origem do vocábulo “oblomovismo“, referência à inércia causada pelo processo de vampirização que a aristocracia projetava sobre seus servos. E Gontcharóv também foi um personagem, como Oblómov, pouco afeito ao convívio social, um alto funcionário do Império que nunca se casou, embora tenha sido renomado como escritor e conselheiro de Estado: sua maior aventura foi estreitar laços entre os impérios russo e japonês em uma longa viagem que contou nas crônicas e cartas reunidas sob o título Fragat Pallada, nome do navio que o levou ao Japão (como informa o crítico literário italiano Renato Poggioli no delicioso posfácio).

Sua perspectiva na vida, como a de um aristocrata que se contentava em assistir aos acontecimentos do lado de fora, mais por escolha do que por azar, é o mesmo olhar mole do morbidamente obeso proprietário de terras que mofa na morrinha de sua cama, tendo o criado Zakhar, com quem tem uma relação estranhamente sadomasoquista, como mais frequente companhia. Oblómov passa páginas e mais páginas apenas se decidindo se calça os chinelos, para, afinal, desabar sobre uma poltrona, e, dali, dezenas de páginas depois, voltar à cama… A ação concentra-se na sua tentativa de agir, nas engraçadíssimas tretas com o criado e nas visitas dos amigos. No início do romance, o cenário jamais muda: Oblómov, sempre vestido num nojento roupão persa, está cercado de amigos interesseiros (que desconhecem o fato de que o ex-jovem herdeiro está prestes a ser despejado de seu apartamento e próximo de falir apenas porque simplesmente não conseguiu gerir sua fortuna). Lá pela metade do livro, o gorducho protagonista é finalmente convencido a acompanhar um amigo em um passeio por São Petersburgo – até que acaba conhecendo uma mulher por quem se apaixona, e por quem tenta até mesmo emagrecer. Ilusão: o breve amor pelo mundo do lado de fora é destruído pelo extremo niilismo de Gontcharóv, que faz Oblómov concluir, após uma bizarra sequência de jantares e bailes, que seu mundo não passa de um teatro – e que nada pode ser mais verdadeiro que dormir, “talvez sonhar“.

PROPOSTA

Bem, é isso mesmo o que você vai fazer: vai trancar o protagonista de sua história em um lugar bem restrito.

Onde?

Quarto de casa, quarto de hospital, de hospício, do pânico, calabouço, aparelho de guerrilha, cafofo de campana, buraco do tatu, armário, closet, sótão, porão, salinha da diretoria, almoxarifado, depósito, xilindró, solitária?

Por quê?

Seu personagem é preguiçoso, vagabundo, medroso, está escondido, está planejando algo, desistiu de planejar qualquer coisa, está confortável, está desconfortável?

Quem?

Descreva minuciosamente seu personagem (em especial o que acontece com ele devido ao seu isolamento).

Como?

Descreva minuciosamente o ambiente onde se encerra seu personagem.

Quando?

Está aí faz algumas horas, alguns dias, alguns meses, alguns anos, pretende ficar aí pra sempre, está querendo sair o quanto antes, está esperando algo específico acontecer para que saia?

Quem mais?

Seu personagem é visitado por que tipo de pessoa, ou pessoas?

O quê?

O conflito é este: seu personagem, que está encerrado neste lugar, recebe uma visita que vai tentar levá-lo a sair. Você tem três opções:

  • ele sai
  • ele não sai
  • ele sai sem sair

Escreva em qualquer pessoa (pode ser narrado na terceira pessoa, por um narrador onisciente; ou na primeira, pelo próprio protagonista ou pelo personagem que o visita; ou na segunda pessoa, pelo personagem que o visita ou por algum personagem que está do lado de fora), em uns 9 mil toques.

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