Olhos vermelhos (de Carolina Schettini)
Joana se perde no meio de tantos livros e cadernos velhos. Sonha com a estante caindo por cima de sua cabeça e ela sendo soterrada. Um terremoto pior que o último terremoto chileno. Ninguém a resgata. Todos procuram por Chico. Ele se salva. Chico, o coelho nem branco, nem preto, nem marrom, encardido. Cadê você Chico? Ela berra. O encontra no meio da papelada. Um dia, resolveu guardar uma cópia de toda monografia que escrevesse para os outros. Sabedoria acumulada, ela dizia. Quando encheu a primeira caixa, abriu uma garrafa do melhor vinho barato e brindou. Na taça de cristal. Brindou com Chico. Na quinta caixa, não teve a menor graça. Nem brinde de água em copo de requeijão. Continua imprimindo e guardando uma cópia. Por que não armazena na nuvem ou em um pen drive?, alguém lhe perguntou. Não teria a mesma graça. Aí você está, Chico. Joana segura o coelho redondo pela barriga. Coelhos resmungam? Chico resmungou. Senta-se em frente ao computador para acertar os últimos detalhes da tese que está escrevendo para Maurício.
Maurício, o aluno mediano, repetente, preguiçoso e medíocre passou pela secretaria para saber quantos dias poderia faltar no semestre. Joana lhe informou e aproveitou para entregar-lhe, sem querer, dentro da grade horária, o contato da monogata, uma mulher que faz monografia para os outros por aí. Monogata atende por Íris ou Hera ou Atena ou outra deusa da mitologia grega. Joana teve essa ideia ao escrever a primeira de muitas monografias encomendadas. A primeira, como um sinal, era para o curso de filosofia. Alguma coisa sobre complexo de Édipo misturado com Medeia. Algo assim. Neste trabalho, descobriu a música do Chico, não do Chico, o coelho, mas do Chico, o compositor. Gota d’água virou sua música favorita.
Com Chico, o coelho, no colo, abre o computador. Trabalho quase pronto. Faz os últimos retoques no título: A cor que enxergo é a cor que você vê? Ficou poético. O professor vai caprichar no pontinho a mais. Espera Maurício telefonar para dar o aval. Ela sempre recebe o aval. Faz um cafuné em Chico, que ronrona como um gato.
— O professor quer que desenhe um olho. Um olho, pelo menos. — Maurício diz assim que Hera atende o telefone.
— Tem figuras. Não viu?
— Ele não quer figuras nem do google nem de livro velho. De revista, nem pensar.
— O que ele quer, então?
— Um desenho à mão. Pode ser lápis ou caneta. Colorido. Anotei pra você.
— Não sou desenhista.
— Tem que dar um jeito. Você não é fake? Fake tem que ser total fake.
— Tá. Só que vou cobrar extra.
— Extra?
— Você acha que vou gastar todo o meu estudo de Le Corbusier sem cobrar nada por isso?
— Quanto vai ser?
Combinam dela calcular e enviar o preço por whatsapp. Feito o pix, ela faz e envia o desenho. Em folha A4 para grampear como anexo do trabalho. Ele pede para fazer a legenda final com a letra dele. Ninguém vai entender nada, ela pensa. O trabalho é dele. A nota é dele. O problema não é dela. Problema não. Leu um livro onde as Horas eram Nuas e resolveu que não vai falar mais problema porque o personagem não falava problema. Teorema. O teorema, combina muito mais com o assunto. O teorema é dele.
Onde estão as folhas de seda que Raul deixou aqui na última vez? Joana procura pelas folhas e não as encontra. Chico deve ter comido. Chico come de tudo um pouco. É, Chico, lá vou eu pra papelaria comprar umas coisinhas pra desenho.
Joana entra na loja sabendo o que quer: papel de seda, lápis grafite número 4, uma folha de carbono para garantir. Algumas cores de lápis de cor.
— Não vendemos lápis avulso. Só caixa fechada com doze ou mais.
— E o vermelho? Todo mundo termina primeiro com o lápis vermelho.
— Nenhuma cor. Nem branco que tem todas as cores nem preto que não tem cor nenhuma.
Joana pega a caixa mais barata e imagina, no dia em que for empresária de sucesso, irá fazer caixas com lápis de uma cor só. Com muitos lápis vermelhos. Igual jujuba. Para que servem as outras jujubas do pacote se não para serem figurantes das jujubas vermelhas? Talvez não façam as balas de uma cor só por causa do corante. Culpa do corante. Na fila do caixa, vê, ao longe, um colega, Renan. Ele trabalha no mesmo setor que ela na faculdade. No mesmo. Revezam o atendimento no balcão. Dão palpites nas monografias alheias. Atendem alunos e professores. Não quero falar com ele. Estou invisível, estou invisível, estou invisível, estou.
— Oi Joana. Vai desenhar o que?
Joana não quer amizade com colegas de serviço. Ninguém pode saber da ajuda filantrópica aos alunos que não conseguem fazer uma reles monografia. Coitados. Serem reprovados por um livretinho de nada..
— Você não é muito de fazer amizade lá não, né? O pessoal comenta.
Joana olha para o rosto de Renan, um conhecido desconhecido. Vou te dar uma satisfação.
— Sabe o que é. Vou te explicar. Tem sangue A. Tem sangue B. Tem sangue O e tem sangue AB. Já estudou em biologia, lá no ensino médio, antes de ser chamado de ensino médio, se lembra?
Renan concorda. Joana continua.
— Então, pensa assim: o sangue A seria o trabalho. O sangue B, a vida. Uma pessoa O combina com tudo. Uma pessoa AB com nada. Deu pra entender?
Joana segura seu pacote como um ramalhete de flores e vai embora. Chega no início da sua rua. Íngreme. Bem íngreme. Uma escalada ao topo do Everest. Se morasse na Rússia, alguém pararia, pagaria cinco reais e iria de carona até a porta do edifício. Mal entra, o porteiro lhe informa:
— A vizinha do 54 não gosta de coelhos.
— E a vizinha do 35 não gosta de cachorros.
Joana, uma vez, se mudou para uma casa em vez de continuar no apertamento cheio de entulhos e com cheiro de jornal velho misturado com traças. Chico não gostou. Sentiu-se deprimido no quintal espaçoso. Toda vida ele morou em cubículos. Joana o resgatou de uma festa junina. Brincavam de coelho na toca. Chico era deixado no meio do tablado para escolher em qual caixa de sapato iria se esconder. Chico assustado no meio de tantos gritos e palmas e pipocas. Joana não teve dúvidas. No intervalo, roubou Chico e fim.
Em casa, começa o esboço do olho. Coloca Chico na sua frente para servir de modelo. Está ficando perfeito, digno de Leonardo da Vinci.
O celular toca mais uma vez. O celular da monogata.
— Então, vou formar em física, preciso de um trabalho com.
Antes que termine, ela corta:
— Não faço trabalho com números. Não sei somar. Não sei nem dar troco.
— Por favor, é uma emergência.
Sempre é uma emergência. Números são complicados. Não dá para encher linguiça e tem as fórmulas. Muda um sinal e tudo desmorona. Tentou uma vez. Não sabe como aluno não reprovou com nota abaixo de zero.
— Pode ser sem números. Escolhe a vida de algum matemático não muito conhecido.
— Existe algum matemático não muito conhecido?
Só o fato de ter descoberto uma fórmula, um número, um detalhe no universo caótico das exatas traz pessoas para a capa de Caras. Joana aceita. Pensa em escrever sobre o número de Erdõs. Seu melhor amigo é amigo de Erdõs. Escolhe o título: Quanto amigo de Erdõs é você? Lembra que em algum lugar dos seus guardados tem a tese do amigo (ele quem escreveu). Posso copiar uma ou duas linhas, será que ele vai ficar chateado?
Perde minutos preciosos na procura e volta ao desenho ao se lembrar de Chico em cima da mesa. Ou melhor, ao ouvir Chico roendo seu lápis grafite número 4 em cima da mesa. Para colorir, esquece o lápis de cor, resgata uma tinta antiga, reflete melhor a luz. Humanos não tem olhos que brilham no escuro, mas um pouquinho de espelho nesta parte da retina vai dar um tom dramático ao desenho.
Termina. Envelopa. Confere o pagamento. Envia pelo Uber. Chove. Faz Sol. Chove. Venta. É dia de trabalho.
O Coordenador, parado no meio da sala, chama atenção de todos os funcionários. De forma dramática, levanta os braços e gira em um pé só. Se não fosse professor, poderia se candidatar a bailarino do municipal.
— Preciso da opinião de todos. Maurício Lemos, o aluno prestes a ser jubilado, me entregou, esta bela monografia: A cor que enxergo é a cor que você vê? Só pelo título, nota-se, ele teve uma ajudinha de alguém. De todo jeito, o desenho final está com esses garranchos inteligíveis. Fica a dúvida? O olho é de ser humano ou é de um coelho? Reparem os traços, reparem a cor, o espelho, o puxadinho.
Joana sente todos os pelos do seu rosto congelados. Sente gotículas de suor saírem pulando carnaval dos seus poros. Um a um, os funcionários dão palpites. É de gente. É coelho. É de águia. Empate. Renan olha de soslaio para Joana: sei de alguma coisa que só eu sei? Joana sabe que Renan comprou sua monografia da monogata. Renan não sabe quem é a super-heroína que o salvou. Mas, por outro lado, Renan não tem a pinta de ser o tipo sujeito detetive, seus neurônios não vão ligar coelho-lápisgrafite-olhodesenhado, será?
— Então, Joana, sua vez. É olho humano ou olho de coelho?
Joana pega o trabalho. Examina de baixo, examina de cima e diz, com toda certeza:
— Humano. Eu tenho um coelho em casa!
