O hóspede

De bruços, Renel Mejia abraça os joelhos contra o peito, imaginando-se de volta à barriga de sua mãe. Estende a perna direita, enquanto mantém a esquerda flexionada, até forçá-la para a lateral oposta, contorcendo o quadril. Troca de lado e repete o exercício de alongamento. Então, ajoelha-se. Sentado nos tornozelos, estica os braços para frente, tirando a tensão da lombar. Para finalizar, coloca o queixo para o alto e tenta inverter a posição da coluna, apoiado nas mãos. Mas este novo útero é apertado demais.

O jovem haitiano se deita de novo, usando uma bolsa velha de ginástica como travesseiro. Ali guarda toda a sua vida desde a entrada em território brasileiro, há oito meses. Algumas roupas. Uma necessaire compacta guarda uma escova de dentes, algodão, curativos, tesourinha de unha e partes de cartelas de comprimidos para gripe e dor. Além da carteira de trabalho e do CPF, garantidos por lei ao obter status de refugiado, documentos mais importantes agora do que o passaporte fora da validade. E o dinheiro. Após cobrir seus gastos e enviar metade aos familiares no Haiti, sobra uns duzentos reais. Isso porque passou a economizar com o aluguel.

Fora da bolsa, ainda estão os três livros trazidos na bagagem. Aristóteles, Kant, Benthan, todos de empréstimo permanente da biblioteca do curso de Filosofia, em Porto Príncipe. Uma pena a escuridão dessa caverna não permitir a leitura. São tantas preocupações que não consegue dormir, apesar do cansaço do corpo pelas horas levantando paredes. Como diria Aristóteles, justificando o sistema escravocrata de sua época, quem só se ocupa em trabalhar garante o ócio dos que têm tempo e disposição de sobra. A pouca luz, que entra pelo puxador da porta de correr, destaca apenas os olhos do jovem e reflete o suor na pele preta. Poderia acender o celular, mas a bateria está nos quatro por cento e ali não há tomada. Talvez já esteja mesmo na hora de dar início ao dia.

Com movimentos vagarosos para não fazer ruído, Renel empurra a portinhola de lado. Depois, afasta as caixas de papelão que cobrem a frente de seu casulo, um armário de três andares onde depositam tranqueiras. Fica na área de serviço de uma casa. Há um tanque e uma lavadora, assim como um varal cheio de roupas a secar. De camiseta rasgada na manga e uma cueca samba-canção larga demais para a cinturinha dele, o imigrante sai do esconderijo, estala o pescoço e os ombros e dá uma olhada no celular: três e quarenta da manhã. Retira da bolsa o carregador do aparelho e coloca na tomada ao lado da saída para a cozinha.

Em passos de balé, ele vai até a pia enquanto pisca várias vezes para acostumar os olhos à baixa luminosidade e não acertar a mesinha. Primeiro, abre a torneira, só um pouquinho, e nem deixa a água espirrar na cuba, matando a sede na bica mesmo. Ao entrar na sala, encontra a mesa de jantar preparada. Toalha, prato, talheres, até guardanapo de pano, tudo limpinho. Sobre o aparador, há um panelão, um pote de feijão e uma travessa pequena pequena de arroz. O rapaz ergue a tampa, girando a parte interna para cima. Assim evita os pingos do vapor na toalha. O menu é frango acebolado e batatas assadas. Ele sorri e fecha outra vez. Quando contorna a mesa, tropeça em algo. O tintilar amadeirado do piso o imobiliza. Tudo bem. Ainda se ouve um ronco profundo vindo dos quartos. 

Renel pega o taco solto, assopra uma camada de poeira e analisa a peça e o buraco no chão. Deixa-o sobre a antiga máquina de costura e espreita os demais cômodos. Uma porta fechada, o banheiro e o outro quarto, onde uma senhora baba no travesseiro com a cabeleira branca cobrindo metade da cara. Ele encosta a porta e se afasta. Volta à ceia de comida fria. Não importa. Melhor assim do que lidar com os apitos nada discretos do microondas. Escolhe a cadeira que geme menos e se serve. Cada corte com a faca leva uma eternidade, pois faz de tudo para os talheres não cantarem na louça.

No final da refeição, o hóspede quase deixa escapar um arroto, mas consegue devolvê-lo ao estômago. Sem perder mais tempo, leva tudo à cozinha. Encontra espaço na geladeira para as panelas e esfrega a bucha no prato e nos talheres, mais uma vez, abrindo a torneira de leve. Ele guarda a louça e volta ao seu armário só para separar a camisa social branca, a calça bege e o par de sapatos gastos. Hoje é dia de ir ao abrigo no centro, ver as ofertas de emprego. Em geral, são trabalhos temporários, a maioria em construção, o que o trouxe pela primeira vez ao bairro onde vive. Chegam até empresários de outros estados, atrás de mão de obra barata para fábricas ou fazendas. Mas prefere ficar em São Paulo. Com curso superior e fluente em cinco idiomas, visa algo no ramo de hotelaria, nem que seja um albergue.

Melhor tomar banho de verdade, não só no tanque. Puxa uma toalha qualquer do varal. Já ia sair quando se lembra de um detalhe e volta ao armário, não na porta do seu quarto secreto, mas na de cima. No meio de toda aquela tralha, já viu algo que teria utilidade. Muitos trapos de panos de chão, sacolas de lojas que nem existem mais, umas pastas de arquivo soltando poeira, fita adesiva, duas latas de tinta pela metade, a caixa de ferramentas com a qual havia feito reparos no encanamento do banheiro sem que a dona da casa notasse. Descansam também na prateleira diversos álbuns de fotos amareladas, nas quais a mulher aparece bem mais nova, com homem grandalhão e sério, o marido já falecido ou desaparecido. Mas o que busca é o tubo de cola especial para madeira.

Com as roupas debaixo do braço, Renel vai até a sala, pega o taco de cima da máquina de costura e se agacha. Passa a cola tanto no buraco como na peça solta, que recoloca no lugar, pressionando-a. Em seguida, larga suas coisas no chão e corre de novo até a lavanderia. Retorna com seus três livros e os empilha sobre o remendo do piso, para fazer peso. Aprecia sua obra por alguns instantes e relembra das horas. Daqui a pouco a passarinhada começa a piar como se o mundo estivesse prestes a acabar. Na caixa de força, desliga a chave cinco, referente ao banheiro.

A água fria não é problema. Está acostumado, desde o terremoto, a abstrair qualquer desconforto. Ainda é melhor do que passar tantos dias sem banho, como na travessia para o Brasil. Pagou três mil dólares para os coiotes. Partiu pela República Dominicana e chegou ao Acre, carregando um monte de falsas promessas de enriquecimento. Não aguentou ficar muito tempo na selva. Aristóteles de novo, reverberando em sua cabeça: “fora da polis, o homem é uma besta ou um deus”. De divindade não tem nada. Buscou logo a maior comunidade possível e veio acabar em São Paulo, ser um animal racional em sua totalidade.

Desliga o chuveiro, mas ainda fica um tempo pingando. O perfume do sabonete da senhora o inebria. Tinha uma tigela deles ao lado da pia, em formato de coração, flor, borboleta, uns detalhes em dourado. Pegou três de uma vez, um de cada cor. E o xampu? Tinha um tom verde-limão e dava uma sensação mentolada na pele. Delícia. Passou até nos pelos do saco. Agora, o haitiano pinga e assiste sua sujeira, na forma de espuma, girar em espiral sobre o ralo.

Benício?

Renel se vira ao mesmo tempo que se encolhe. A velha está na porta entreaberta do banheiro. E ele nu atrás da cortininha de plástico do chuveiro.

Já vai pra delegacia? Não acorda as crianças. Vou passar café.

Ela se afasta, arrastando os chinelos, na direção da cozinha. O jovem fica em silêncio, mas é inútil. O barulho da água escoando pelos canos já entrega sua presença. Pega a toalha e se enxuga com pressa. Nem está tão seco quando veste a roupa. Umedecida, a camisa gruda em suas costas. As calças se contorcem nas pernas. Os sapatos e as meias ficaram na área de serviço. Sai descalço, carregando a toalha molhada no braço, colando, a cada passada, toda a sola dos pés no chão, como se fosse possível diminuir seu peso a partir da sutileza e calar o piso ranheta.

Da sala, ouve o metal de uma panela badalar ao tocar a grade do fogão. Deve fugir pela porta da frente? Talvez possa correr até os fundos e pegar a tralha antes de ir embora. Ou embarca na fantasia da mulher e se senta à mesa para tomar um café? Ela nem acendeu as luzes. Capaz de não se dar conta do que está acontecendo, que não é o marido há muito tempo sumido, que há um estranho escondido em sua casa nos últimos meses. Antes de decidir qual rumo tomar, Renel chega à entrada da cozinha. O cheiro de gás estapeia as narinas. De frente para o fogão, a senhora tenta riscar um fósforo, duas, três vezes.

Não vou tomar café hoje, Zica.

Por trás, Renel segura as mãos dela. Com cuidado, pousa palito e a caixinha sobre a pia. A panela, sem água alguma, espera sobre uma boca do fogão cuspindo muito gás. Ele gira o botão e a desliga, enquanto ampara as costas da senhora, guiando-a até a mesinha, onde puxa uma cadeira para ela se acomodar. De frente um para outro pela primeira vez. Mas o olhar da anciã se perde em um ladrilho qualquer do chão. Está dormindo. Caminha pela casa com a mente presa a outro tempo. Sonâmbula.

Ele a observa, curioso por, enfim, conhecer sua anfitriã de perto. Repara nos cabelos brancos longos e lisos, que ela sempre esconde em um coque redondo. Está sem a dentadura e a pele do queixo aparenta uma frouxidão, como se faltasse uma mandíbula para sustentá-la. As rugas profundas nas têmporas entrincheiram os olhos sem cor. O braço esquerdo apresenta movimentos involuntários, trêmulos. Por reflexo, o haitiano envolve os dedos inquietos na concha de suas mãos.

Hora de dormir, Zica.

Ela aceita o leve puxão e se levanta. Entrelaça seu braço no do rapaz e eles seguem, devagarinho e em silêncio, até o quarto. A senhorinha se deita de lado e ele puxa a coberta até proteger a nuca.

Toma cuidado, Benício.

Renel repara na respiração forte, que se normaliza quando ela relaxa. O que Aristóteles diria agora? Enxergaria alguma virtude na invasão da morada de uma mulher senil? Capaz de criticá-lo por ter feito isso sozinho. Mas, como imigrante, só poderia ser feliz dentro de um grupo à parte desta comunidade? Kant talvez visse boas intenções no seu ato, mas reprovaria a exploração de outro ser humano como um meio e não como um fim. Depois, se todos começarem a invadir casas, seria o caos. Ao mesmo tempo, com centenas de imóveis vazios, sem uso, não parece justo tantas pessoas dormirem na rua. Ou em um armário. E Bentham e todo aquele papo de menos dor e mais prazer. Onde se encaixa aqui?

O filósofo sai do ciclone de dilemas ao ouvir os pássaros na jabuticabeira lá fora. Pelas frestas da janela já entra a luz da manhã. Encosta a porta do quarto e aperta o passo. Na sala, passa desatento pelos livros no chão de taco. Joga a toalha no cesto de roupa suja, calça umas meias esportivas brancas com os sapatos, separa o CPF e a carteira de trabalho, mais um dinheiro para transporte e comida, e volta a ocultar seu cafofo por trás das caixas de papelão. Então, aproxima-se da claraboia no fundo da área de serviço, dá dois empurrões para abri-la e se arrasta pelo vão. Por ali, entrou pela primeira vez no imóvel, que pensava estar abandonado, um par de meses atrás. Seria um ótimo lugar para morar depois que o abrigo no centro lotou com a chegada de cada vez mais imigrantes. Na verdade, poderia trazer muito mais gente. Mas a casa já estava ocupada. Uma única moradora, de quem ninguém na vizinhança se recorda.

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