Não saio

por Américo Paim

Circula há muito tempo em Pedra Velha, mas é preciso que se dê uma nova chance a essa história. Talvez por justiça com Bernadete. Ela não se ajudou, é verdade, e pagou a conta quase sozinha. Fazia mais de ano do escândalo do suposto caso dela com Tonho da Sunga, quando ainda era solteira. Algo sem prova ou testemunho, apesar de que até morrer, o vereador nunca negou ou confirmou. Bem ao seu estilo.

Ninguém explicava mesmo era o casamento de Dete, como ela é mais conhecida, com Melquíades, o estranho Tramela, ainda persistir. Ele, com a fama de ter umas habilidades não terrenas, cabelo duro e a barba cerrada já com uns fios brancos, as mãos grossas, o olhar frio feito corte de faca. Ela, com trinta e pouquinhos, uns oito a dez anos mais nova que o marido. Não usava calça porque ele não gostava, mas caprichava nas saias bonitas, o que mostrava um pouco da beleza das pernas. O rosto de um redondo suave, longos cabelos negros sobre os ombros estreitos de pele morena, a simpatia ambulante em um corpo sinuoso. A voz era rouca. Ela dizia que por causa de crises de garganta mal curadas na infância. Atraía olhares até sem querer. Apesar de seu perfil ou do que se pense, nunca havia feito Tramela de corno. Por índole ou medo, não se sabe. Isso tudo caiu por terra com Severino Azevedo.

Dizem que nasceu na vizinha Serra Quente, mas é incerto. Sempre foi discreto sobre as origens. Como comprou o mercado do falecido Josino, veio morar na cidade. Batizou o estabelecimento de São José, em homenagem ao santo de devoção do ex-dono. O povo achou um gesto bonito, só que alguns contam que ele seria pai de Severino, fora do casamento. Quem vai saber… O fato é que o jovem empresário era homem bonito, bem-falante, com rosto feliz como festa no parque, magro, porém forte. Caminhava a passos firmes. Era dedicado ao trabalho e vivia em uma casa confortável, com a mulher, Iraildes, apelidada de Salamandra, porque tinha um andar lento e rebolativo. Assim o povo falava. Injusto com ela, uma mulher interessante, só que misteriosa. Severino batia muitos papos com clientes e funcionários, era popular. Só tinha um problema: gostava de uma branquinha. Daí o apelido Sabora, da cachaça Saborosa, que colocaram em alguma ocasião de mesa de bar, ambiente do qual ele não se furtava. Foi um tributo a um bebedor já falecido, frequentador assíduo do local, que tinha a mesma alcunha.

O encontro entre Sabora e Dete foi em um dia qualquer entre as gôndolas. Ele ficou impressionado. Como volta e meia ela estava por ali, conversavam mais e mais. Tudo por um fio. Quando aconteceu, foi um tesão louco. Passaram por cima de tudo, como quem vai morrer amanhã. Muitos já olhavam aquela química com desconfiança. De qualquer maneira, uns seis meses de encontros furtivos depois, em uma tarde de sábado, Dete apareceu no mercado. Tramela tinha ido pescar. Sabora ficou louco com aquele perfume novo que ela usava. Quebrou as próprias regras e a levou para sua casa, pois Iraildes estaria fora o dia todo com amigas.

Os amantes estavam lá na quentura e a esposa chegou. Para sorte deles, Sabora ouviu o carro da mulher estacionando na garagem aberta da casa. Sem alternativa, a solução foi trancar Dete no closet do casal. Ainda deu tempo de levar todas as roupas que vestia. Sem perder tempo, o marido já puxou sua consorte para a cama, nem deixou raciocinar. Ela se surpreendeu, mas gostou.

O closet era quase uma sala, de tão grande. Piso de pedra fina, duas fileiras de armários e gavetas dos dois lados, cadeira confortável para apoio, um espelho enorme perto da porta e quatro luminárias modernas. As poucas paredes aparentes em bege discreto. Dete ficou ali no escuro. A primeira reação foi silêncio no celular. Se tocasse? E ainda pior, fosse Tramela? Se enfiou entre os ternos do amante, uma das áreas com mais espaço. Nervosa, ficou quieta o máximo que conseguiu, mas logo seu humor mudou. A curiosidade falou mais alto. Criou coragem para se mover com a lanterna do celular. Foi devagar e descalça até a porta, para ouvir o que estava rolando no quarto. Não gostou nada. Gemidos, gritos e risinhos cúmplices. Ouviu com nitidez as sacanagens preliminares que achava que eram só com ela! E a mulher? Quietinha como ele sempre falou? Não… Toda escolada, boca suja e tudo mais. Aquilo lhe deixou raivosa. A mão quase foi na maçaneta. Respirou e deu uns passos para trás, afinal, quem era ela na história toda?

Junto à porta, percebeu o interruptor. Era um dimmer e o acendeu fraco. Ia para os ternos outra vez, mas preferiu observar todo o lugar. Ficou abismada. À sua direita quatro portas grandes e mais à frente duas meias portas com lugar para vários calçados de Sabora na parte de baixo. À esquerda, o que lhe cativou mais, seis portas e o mesmo desenho para sapatos, só que maior. Caminhou lenta, tocando as peças de roupa, cheirando, detendo-se nas mais bonitas. Se perguntou: tudo isso pra Pedra Velha? Logo desistiu da lógica e se concentrou na beleza. Vestidos para todas as cores e ocasiões. A situação complicou quando ela, cuidadosa e sem ruído, abriu umas gavetas. Na primeira, roupa íntima, caixas e embrulhos pequenos. Já não gostou porque havia modelos de calcinhas e sutiãs idênticos aos que ele lhe deu de presente! Cachorro desgraçado, pensou. Até as mesmas cores! Severino, seu filho da… – o pensamento foi interrompido por algo vindo do quarto. Ouviu encostada na porta: “Isso, minha pantera!”. Gritou em silêncio: É o quê? Chama a coisinha do mesmo jeito que faz comigo? Ou o apelido é dela? Essa salamandra vadia…

Teve ímpetos de abrir a porta de novo, mas se controlou. Continuou a explorar o local. Voltou-se curiosa para uma caixa comprida e estreita. Abriu e ficou bestificada: um brinquedinho, um pênis plástico cor de rosa. Não acreditou que fosse “o deles”. Olhou de perto e confirmou ao abrir o compartimento das baterias e encontrar a Rayovac média, que ele reclamou da marca na época. Ainda atônita, foi às gavetas estreitas: joias das mais variadas. Brincos, colares, pulseiras. Ela nem sabia para onde olhar com tantas opções. Quase deu um ataque ao ver a gargantilha com pingente de onça que ele prometeu comprar para ela, que sem querer abusar da sua condição, o demoveu. Veio um gosto de fel na boca, arrependimento era pouco. Sim, ela era a reserva, não havia mais ilusões. A cada fuçada, achou outros itens que havia dito a ele que tinha gostado, naquela ida ao shopping, tarde da noite. Iraildes estava fora.

Ela capitulou e se dissolveu até o chão. Chorou agarrada a uma das calças do amante. Amassou e arranhou com tanta força que a perna de uma delas rasgou, mais ou menos na hora em que os gritos aumentaram no quarto, superando o solo de guitarra que rolava em uma das pisadeiras bregas que ele tanto adorava. Ao se apoiar no chão, perto de umas caixas pequenas que ali estavam, tocou em algo que caiu e fez um barulho típico. Uma garrafa chique, diferente. Estava escrito “conhaque de salamandra”. Bebida rara e com efeitos imprevisíveis e rápidos. Foi a gota que faltava! Indignada, tirou a rolha, sentiu o cheiro bom, tomou um gole grande, fez careta e caiu no choro outra vez. E outro gole e outro. Se ergueu da decadência na raiva, se apoiando na tal calça pendurada e percebeu algo no bolso esquerdo. Um pedaço roto de papel pautado com um texto manuscrito: “Venha me ver, gostoso! Leide”. Ela congelou. Dete sentiu o cheiro inconfundível no bilhete. Pensou que estava ficando louca, mas era improvável que não fosse do perfume da dona do salão onde ela fazia as unhas, Maricleide, que todos chamavam de Mari e que também era Leide, pelo visto. Que canalha, quase falou alto. Quantas mais ele pegou? Outro gole longo. A pergunta se repetia na sua cabeça, enquanto ela mexia em tudo quanto é roupa de Sabora. Outro gole exagerado acompanhou a decepção de não encontrar a cueca de seda xadrez que deu a ele há poucos dias. Achou foi uma pequena embalagem onde estava o brinco liso de ouro branco com uns ressaltos, outro do tal passeio ao shopping. Para quem iria aquele mimo? Lembrou das vezes em que ele não foi lhe ver e sua mulher não estava na cidade. Devia estar com outras tantas. Mais choro e goles. Percebeu que a música parou e os gemidos já eram de fim de festa. Aí bateu o olho no fim do armário do lado esquerdo.

Esqueceu tudo, hipnotizada por alguns dos exemplares. Um em especial lhe deixou louca. Não pensou duas vezes.

– Que barulho é esse, amor?

– Hein?

– É no closet.

– Oxe, tá doida, mulher?

– Pera, não aumenta a música não.

– Vem cá, vamos continuar, volta aqui, apaga essa luz.

– Quem tá aí?

– Abre, tô presa!

– Que porra é essa, Severino? É voz de mulher!

Iraildes abriu a porta com raiva e ficou paralisada com o que viu. Ali, de pé, nua, fazendo pose sensual, uma mulher com uma gargantilha de pingente de onça, um par de sapatos, uma garrafa de conhaque pela metade na mão esquerda, lhe sorriu e disse:

– Irá, menina, o que é isso? Não saio daqui até você me contar onde comprou esse Scarpin!

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