Segredo do subsolo

                Contam que Leonel chegava todos os dias sem ninguém ver. Era só às sete horas, quando baixavam as portas da papelaria, do açougue e da floricultura, que abria a lateral da guarita e se deixava enxergar. Quem subia a avenida avistava o perfil redondo e as suas pernas curtas acomodadas na cadeira macia de couro sintético preto.

                – Boa noite, Leonel – ele não deixava de responder e acenar aos pedestres de sempre, aos moradores e comerciantes da avenida.

                Leonel, às vezes, colocava um dos pés para fora ou ,perto das nove horas, caminhava até a esquina em passos curtos que balançavam os quadris e às vezes sugeriam uma leve inclinação para a direita. A cabeça erguida sempre na linha do horizonte. Depois voltava para a sua cadeira com a vista empoeirada para a pracinha. Não era sempre que limpava o pó da janela de cantos ovais e vedação em borracha. Nos dias frios, ficava trancado só com a luz de um programa de TV pelo celular. Seu contrato era com o dono do mercadinho, mas os vizinhos, que deixavam seus carros na rua, faziam um contribuição mensal para se sentirem também seguros.

                – Está tudo em ordem aqui pelo bairro. Pode ficar tranquilo – ele dizia tirando a carteira com uns filetes brilhantes do bolso de trás da calça jeans. Dobrava a nota de cem do pagamento informal e engatava conversa com o morador que estivesse disposto a ouvir histórias de outras ruas e outros vigias.

                Dalva, que morava do outro lado da avenida, no sobrado sem garagem com porta para a calçada, era das que mais paravam para conversar. Ela precisava dar pelo menos duas voltas na quadra, todas as noites, para acalmar Bella, uma shih-tzu branca de manchas pretas e latido estridente. Depois do passeio, a cadelinha suportava tranquila uns trinta a quarenta minutos de conversa fora de casa.

                – Ela está latindo menos? – Isaura notou que Leonel ia fazer um carinho na cabeça da cadela, mas recolheu a mão.

                –  A Bellinha tá se acostumando sem os meninos em casa e a Dona Isaura não reclamou mais – Dalva respondeu com os olhos buscando as mãos de Leonel que tinham ficado escondidas quando ele torceu o corpo para alcançar as luvas do lado esquerdo da cadeira e vesti-las ainda de costas.

                –  Ela fecha as janelas e gosta de dormir à tarde.

                – A Dona Isaura? – Dalva estranhou que Leonel tivesse esta informação da vizinha.

                Leonel  juntou com a mão direita umas cascas de pão sobre o parapeito entre o vidro e a sua cadeira, aparou a sujeira com a outra mão enluvada e jogou tudo no lixo improvisado em uma embalagem de sorvete. Ele tinha acabado de jantar um sanduíche de presunto com o café da garrafa de todas as noites.

                –  Ela repete a história toda vez que sai para caminhar – Leonel esfregava uma luva na outra.

                – Hoje nem está tão frio – Dalva já conhecia o hábito da vizinha e sabia que este era o motivo de reclamar dos latidos à tarde. Ela mudou de assunto. Não podia constranger Leonel com a desconfiança de que ele morava na guarita e ao mesmo tempo pensava em alongar a conversa para entender melhor o gesto do vigia ao esconder as mãos.

                – Ainda bem que passou – Leonel parecia aliviado com o novo assunto –  passei a última noite enrolado no cobertor.           

                 – O pior deve ser quando vai embora e sai do quente para a manhã fria.

                –  Já me acostumei – de novo Leonel esfrega as luvas – a Bella está quietinha parece que cansou do passeio – desse vez, foi o vigia quem mudou o assunto.

                Dalva entendeu que se ficasse mais um pouco, Leonel poderia desconfiar da sutil investigação. O gesto tinha despertado na mulher recém-aposentada, a mesma curiosidade dos outros vizinhos desocupados, como Isaura que cochilava todas as tardes. Ninguém reclamava do trabalho do vigia. Poucas foram as vezes que o pegaram dormindo e tinham muito a agradecer como no dia que ele mesmo primeiro chamou a polícia depois a concessionária de energia e por fim cada um dos vizinhos sobre o roubo de cabos na parte mais deserta da rua.

                –  Amanhã trago uma sopa para o senhor.

                – Obrigada, Dona Dalva.  Hoje o Seu Wuang falou para o Seu Liu me trazer o café.

                  O dono do mercadinho era um chinês que deixava o negócio nas mãos de Liu, o funcionário de pouca conversa.  Wuang aparecia no fim do dia e não ficava para a hora de fechar. Uma vez por mês, fazia contato com o vigia para o pagamento. Do dono e do funcionário, não se tirava qualquer informação sobre Leonel e nem de Leonel alguma informação sobre eles.  Dona Isaura contava que havia um túnel que ligava o mercado à guarita e que sob a guarita, ficava a casa do vigia. Ninguém via o pequeno homem chegar ou sair logo cedo porque ele morava no subsolo da estrutura de plástico cinza com cortina azul. Uma lenda que corria o bairro.

                – Mas o senhor costuma fazer o seu café, não costuma? A guarita tem cheiro de café fresco – a afirmação de Dalva era provocativa e Leonel percebeu.

                – A senhora aceita um? – o homem puxou um copinho descartável da embalagem e serviu à mulher.

                Dalva sentiu que havia exagerado na provocação, pegou o copo e agradeceu. Ela havia se lembrado da lenda da casa no subsolo quando o vigilante além de esfregar as mãos, tinha se abaixado para puxar as meias sob as calças jeans. Meias grossas que pareciam estar com os elásticos soltos. Ela olhou para os pés, mas o interesse estava no chão forrado por um tapete felpudo cor de laranja. Embaixo do tapete que tomava todo o piso da guarita devia haver uma porta e embaixo da porta, o esconderijo de Leonel para as visitas furtivas da mulher que às vezes entrava no espaço apertado. Não era uma casa, o lugar devia guardar o segredo que a conversa dos vizinhos fazia aumentar.

                – Hoje teve oferta de café? – os preços sem concorrência para alguns produtos que ficavam em destaque na frente do mercado eram tema preferido das lendas. Supunha-se que o dono chinês tinha acesso a mercadorias roubadas e que Leonel se mantinha no emprego e ainda morava no serviço por conta de conhecer os segredos.

                –  Não sei, Dona Dalva. Chego com o mercado quase fechando e venho direto pra guarita.

                Dalva se conteve antes de lançar mais uma provocação. Ia dizer que ninguém nunca via Leonel nem chegando e nem saindo para tentar tirar de vez a verdadeira história da casa no subsolo da guarita, mas ela se conteve e dobrou os joelhos para pegar a cachorrinha e trazê-la para o colo. Quando ergueu o corpo, pela primeira vez reparou nos olhos de Leonel e notou além da sinceridade no que o vigia tinha acabado de dizer, um leve borrão preto na pálpebra esquerda. As conversas curtas com o homem prescindiam dos olhares.  O que contava era uma amigável troca de assuntos banais para garantir a simpatia e sensação de segurança.

                Leonel percebeu a leve transformação no olhar de Dalva, tirou as luvas para mexer no pelo macio de Bella e se sentiu seguro para perguntar:

                – A senhora quer saber por que ninguém me vê chegar ou sair?

                Dalva entendeu que a lenda da casa sob a guarita era uma bobagem quando viu as unhas esmaltadas de Leonel.

                  – É a Virgínia quem chega e sai todo dia – ele respondeu.

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