Sebastião Domingues bloqueou você. Foi o que apareceu no Twitter assim que abri o aplicativo. Me deu um mal-estar terrível, não sabia direito o que tinha acontecido, se eu havia feito alguma coisa, lembrava vagamente de ter mandado uma foto dançando na frente do espelho do banheiro com um vestido rosa escuro. Saí abaixada, a minha axila aberta e o braço levantado com o punho torcido, como se um avestruz estivesse tirando uma self. Mas também podia ser por outro motivo que eu desconhecia.
Por ter ficado deprimida larguei o celular em cima do balcão jurando para mim mesma que nunca mais ia entrar numa rede social. Me consolei pensando que de alguma maneira ainda continuávamos ligados já que ele vivia nos meus pensamentos. Senti um vazio, daqueles que me deixavam de mau humor, estava com fome, tinha me esquecido de comer. Fui para cozinha e preparei um macarrão alho e óleo. Quando pus a última louça no escorredor, ouvi uma voz me chamando. Me assustei, não por medo de que alguém tivesse entrado no meu apartamento e sim pela surpresa, até porque a voz falava dentro da minha cabeça, era suave e tinha um tom acolhedor. Por um momento achei que pudesse ser o Sebas.
Nina, você precisa lavar o chão da cozinha, não é para passar pano, como você está acostumada a fazer, é para lavar mesmo, com água e sabão. Olhei para os azulejos, eles não estavam lá muito limpos, mas os rejuntes pareciam chumaços petrificados de um cabelo escuro. Agora? É. Hoje você não pode dormir.
Eu não conseguia dormir mesmo, pelo menos ia ter com que me ocupar. Enchi um balde no tanque e ao despejar na cozinha, percebi que tinha exagerado, uma parte da sala ficou inundada. E por ter jogado muita água, tive que colocar bastante sabão. Assim que os flocos dissolveram no azulejo, o chão ficou todo azul. Uma piscina, pensei. Resolvi começar pelos cantos, perto das paredes e do armário das panelas. Só de fazer a volta, a cozinha que era grande se tornou enorme. O meio foi até divertido, quanto mais eu esfregava as cerdas da vassoura, mais espuma subia. Em pouco tempo meus tornozelos sumiram. Era bonito. Como eu não enxergava mais o chão, esfreguei cada partezinha várias vezes.
O que você está vendo, Nina? Fala para mim. Permaneci imóvel olhando para a espuma. Nunca tinha ouvido falar num ritual de limpeza com sabão em pó. Quando eu era criança ganhei uma caixinha de kikos marinhos, não chegaram a crescer, alguém jogou fora. Mas aqui não tinha nada ver com monstrinhos (adultos ou marítimos), ou tinha? Fiquei com vergonha de chutar um suspiro gigante. Uma nuvem?, perguntei. Estamos no céu? A voz respondeu hã, hã. Me senti protegida, ainda mais por a espuma ter coberto parte das minhas coxas.
Coloquei o celular em pé em cima do balcão, ativei a câmera e corri de volta lá para o meio, sorri com todos os meus dentes na hora dos disparos. Não ia postar as fotos, lógico, era só para guardar de recordação. Deu certo e até eu me impressionei com o tamanho da nuvem.
Agora era só tirar o sabão, secar tudo e pronto. Quando joguei a água, lembrei que na cozinha não tinha ralo. Ia ter que puxar para o fundo da área de serviço. O trabalho foi insano, demorei muito, muito mesmo, até porque a espuma se multiplicava, não acabava nunca. O céu era infinito. E a voz não atendia aos meus chamados. Foram vários baldes para liquidar o sabão e alguns escorregões que não chegaram a machucar. Meus braços doíam e meus pés, de tão enrugados e vermelhos, pareciam dois hamsters recém-nascidos, dava para ver cada veia, até as mais finas.
O resultado foi bem meia boca. Os rejuntes não clarearam o suficiente, agora eram fósseis de minhoca de jardim. Aborrecida e exausta, me sentei ao lado do fogão e comecei a chorar. Se tivesse usado cândida, o chão ia ficar branquinho. Mas ao pensar nos meus pés corroídos, achei melhor esquecer essa possibilidade para sempre.
Ao ouvir Nina, Nina, engoli o soluço e fechei os olhos. Você fez tudo certinho, agora tenta relaxar. Toma um banho, põe uma roupa seca e come mais alguma coisa. Eu só vou embora depois que o dia amanhecer, não falta muito. Certo, certo, estou indo.
Depois de passar uns quarenta minutos ou mais em baixo do chuveiro recuperei minhas forças, o cansaço tinha sumido, só o que não sumia era o cheiro de sabão em pó do meu nariz. Eu me sentia leve, quase flutuando. Será que a voz era de um anjo? Ela não disse mais nada, mas dava para perceber que estava por perto. Bom ter permanecido quieta, não queria conversar, fazia tempo que eu não estava tão bem, precisava me manter nesse sossego. Tomei o café da manhã de pijama. Alguns raios de sol começaram a iluminar o céu de um jeito tímido. Fui para a cama, não demorou para que eu pegasse no sono.
Levantei perdida, sem saber as horas. Ao abrir a janela do quarto, pela sombra do poste vi que devia ser meio-dia, uma hora, no máximo. Depois de fazer um café tirando as ramelas do olho, fui para o terraço com a xícara e o celular. Era difícil me mexer, meus músculos estavam destruídos.
Descobri que o elevador para o inferno era veloz. Em cinco segundos meu céu desabou e a minha nuvem virou motivo de piada. Acabei compartilhando uma foto ontem sem perceber, várias pessoas comentavam, queriam saber o que era aquilo, o que eu estava fazendo, se tinha tomado alguma coisa. Risadas e mais risadas.
Com bastante esforço cliquei na foto para olhar melhor. A espuma chegava até o meu nariz, não me recordava da nuvem ter ficado tão alta e tão gorda. Um pouco mais para cima, ao meu lado, numa ponta da nuvem, tinha duas manchas, a ponta dos meu dedos? Ao aumentar muito a imagem, vi dois olhos azuis grandes e redondos. Por um momento achei que fossem do Sebas, meu coração chegou a bater, mas depois percebi uma asa lá no fundo, perto da geladeira.
Sebastião Domingues bloqueou você. Foi o que apareceu no Twitter assim que abri o aplicativo. Me deu um mal-estar terrível, não sabia direito o que tinha acontecido, se eu havia feito alguma coisa, lembrava vagamente de ter mandado uma foto dançando na frente do espelho do banheiro com um vestido rosa escuro. Saí abaixada, a minha axila aberta e o braço levantado com o punho torcido, como se um avestruz estivesse tirando uma self. Mas também podia ser por outro motivo que eu desconhecia.
Por ter ficado deprimida larguei o celular em cima do balcão jurando para mim mesma que nunca mais ia entrar numa rede social. Me consolei pensando que de alguma maneira ainda continuávamos ligados já que ele vivia nos meus pensamentos. Senti um vazio, daqueles que me deixavam de mau humor, estava com fome, tinha me esquecido de comer. Fui para cozinha e preparei um macarrão alho e óleo. Quando pus a última louça no escorredor, ouvi uma voz me chamando. Me assustei, não por medo de que alguém tivesse entrado no meu apartamento e sim pela surpresa, até porque a voz falava dentro da minha cabeça, era suave e tinha um tom acolhedor. Por um momento achei que pudesse ser o Sebas.
Nina, você precisa lavar o chão da cozinha, não é para passar pano, como você está acostumada a fazer, é para lavar mesmo, com água e sabão. Olhei para os azulejos, eles não estavam lá muito limpos, mas os rejuntes pareciam chumaços petrificados de um cabelo escuro. Agora? É. Hoje você não pode dormir.
Eu não conseguia dormir mesmo, pelo menos ia ter com que me ocupar. Enchi um balde no tanque e ao despejar na cozinha, percebi que tinha exagerado, uma parte da sala ficou inundada. E por ter jogado muita água, tive que colocar bastante sabão. Assim que os flocos dissolveram no azulejo, o chão ficou todo azul. Uma piscina, pensei. Resolvi começar pelos cantos, perto das paredes e do armário das panelas. Só de fazer a volta, a cozinha que era grande se tornou enorme. O meio foi até divertido, quanto mais eu esfregava as cerdas da vassoura, mais espuma subia. Em pouco tempo meus tornozelos sumiram. Era bonito. Como eu não enxergava mais o chão, esfreguei cada partezinha várias vezes.
O que você está vendo, Nina? Fala para mim. Permaneci imóvel olhando para a espuma. Nunca tinha ouvido falar num ritual de limpeza com sabão em pó. Quando eu era criança ganhei uma caixinha de kikos marinhos, não chegaram a crescer, alguém jogou fora. Mas aqui não tinha nada ver com monstrinhos (adultos ou marítimos), ou tinha? Fiquei com vergonha de chutar um suspiro gigante. Uma nuvem?, perguntei. Estamos no céu? A voz respondeu hã, hã. Me senti protegida, ainda mais por a espuma ter coberto parte das minhas coxas.
Coloquei o celular em pé em cima do balcão, ativei a câmera e corri de volta lá para o meio, sorri com todos os meus dentes na hora dos disparos. Não ia postar as fotos, lógico, era só para guardar de recordação. Deu certo e até eu me impressionei com o tamanho da nuvem.
Agora era só tirar o sabão, secar tudo e pronto. Quando joguei a água, lembrei que na cozinha não tinha ralo. Ia ter que puxar para o fundo da área de serviço. O trabalho foi insano, demorei muito, muito mesmo, até porque a espuma se multiplicava, não acabava nunca. O céu era infinito. E a voz não atendia aos meus chamados. Foram vários baldes para liquidar o sabão e alguns escorregões que não chegaram a machucar. Meus braços doíam e meus pés, de tão enrugados e vermelhos, pareciam dois hamsters recém-nascidos, dava para ver cada veia, até as mais finas.
O resultado foi bem meia boca. Os rejuntes não clarearam o suficiente, agora eram fósseis de minhoca de jardim. Aborrecida e exausta, me sentei ao lado do fogão e comecei a chorar. Se tivesse usado cândida, o chão ia ficar branquinho. Mas ao pensar nos meus pés corroídos, achei melhor esquecer essa possibilidade para sempre.
Ao ouvir Nina, Nina, engoli o soluço e fechei os olhos. Você fez tudo certinho, agora tenta relaxar. Toma um banho, põe uma roupa seca e come mais alguma coisa. Eu só vou embora depois que o dia amanhecer, não falta muito. Certo, certo, estou indo.
Depois de passar uns quarenta minutos ou mais em baixo do chuveiro recuperei minhas forças, o cansaço tinha sumido, só o que não sumia era o cheiro de sabão em pó do meu nariz. Eu me sentia leve, quase flutuando. Será que a voz era de um anjo? Ela não disse mais nada, mas dava para perceber que estava por perto. Bom ter permanecido quieta, não queria conversar, fazia tempo que eu não estava tão bem, precisava me manter nesse sossego. Tomei o café da manhã de pijama. Alguns raios de sol começaram a iluminar o céu de um jeito tímido. Fui para a cama, não demorou para que eu pegasse no sono.
Levantei perdida, sem saber as horas. Ao abrir a janela do quarto, pela sombra do poste vi que devia ser meio-dia, uma hora, no máximo. Depois de fazer um café tirando as ramelas do olho, fui para o terraço com a xícara e o celular. Era difícil me mexer, meus músculos estavam destruídos.
Descobri que o elevador para o inferno era veloz. Em cinco segundos meu céu desabou e a minha nuvem virou motivo de piada. Acabei compartilhando uma foto ontem sem perceber, várias pessoas comentavam, queriam saber o que era aquilo, o que eu estava fazendo, se tinha tomado alguma coisa. Risadas e mais risadas.
Com bastante esforço cliquei na foto para olhar melhor. A espuma chegava até o meu nariz, não me recordava da nuvem ter ficado tão alta e tão gorda. Um pouco mais para cima, ao meu lado, numa ponta da nuvem, tinha duas manchas, a ponta dos meu dedos? Ao aumentar muito a imagem, vi dois olhos azuis grandes e redondos. Por um momento achei que fossem do Sebas, meu coração chegou a bater, mas depois percebi uma asa lá no fundo, perto da geladeira.
