Susy Freitas
⎼ Égua! O que é isso, menino?
⎼ Mas sim, mãe. É o negoço que te falei, num lembra? Que cria as fotos, os rostos…
⎼ Não, eu não digo a cara da moça não, tá broco? Eu falo isso aqui, ó!
E aponto praquela bolota do lado do rosto da mulher que não existia. Que não é fake, porque fake é quando a gente rouba a foto de outra pessoa, e pode dar merda. Ele me explicou isso também. Quer dizer, a pessoa de verdade era fake, mas se eu uso a foto de uma pessoa que nunca existiu, que a internet que fez, então tá tudo bem. Mas a bolota, o que é aquilo bem do lado do rosto dela? Afemaria, parece feita de gente! Tem jeito de pele, cor também, tirando umas manchas que parece um esmalte vermelho num pedaço de carne, embolado feito papel.
Nem ele sabe responder, mas a foto é boa. A mulher assim morena, de olho caído, cara de pomba lesa. Meio cabocona, sabe? Daí eu salvo a foto como ele me ensinou e coloco para ser a foto do perfil novo. É bom que fazendo no celular, a letra fica bem grande e eu consigo ver. adrianarakel68 o nome. Se ele tivesse sido menina, o nome ia ser Adriana. O nome da tia dele, a que morreu afogada, lá em Urucurituba. Aí veio menino, ficou Adriano. Mas tratei de botar ele numa natação pequeno ainda, vai quê. Nome diz que traz coisa com ele, né. Boa, ruim. Esses menino criado assim longe do interior, não sabe jogar uma tarrafa, subir numa canoa. Se joga o menino dend’água na Ponta Negra, o rio leva.
A Drica não. Nadava bem ela, chega ia longe. Morreu porque tinha que morrer mesmo. Se ela visse aquela foto, mesmo com a bolota, duvido que ia achar que era de mentira. Ia dar um suspiro e falar bem baixinho, no pé do ouvido: “O nosso povo é muito feio, minha irmã. Muito feio”.
A gente já fez o que, uns quarenta perfis, só pela tarde? Chega as cabeça dos dedo tão doendo! Eu de saco cheio já também, sinceramente, mas ele quer porque quer que eu ajude a criar mais gente de internet, mais do que as centenas que ele diz que já criou pra tirar esses milzinho a mais por mês.
⎼ Agora o negoço é assim, mãe ⎼ e o Didi bota pra falar um monte de coisa, de Paiton, não sei mais o que de login automático, variável, código. E tome abrir uns troços no computador. Entendi foi nada. Mas ele fica tão animado ele, com essas coisas de tecnologia, que é só eu ficar fazendo ahãm, ahãm, e balançar a cabeça até ele terminar. Ele fala o que, por uns dez minutos sem nem respirar quase? Eu acho até que é mais. Chega fica em ar, vermelho da cor da camisa velha, podre em vida, do Flamengo, que ele não tira faz uns dois dias, de tão concentrado que fica na tarefa. Minha vontade é jogar esse menino breento numa bacia e escovar ele todo, acabar com essa cecezada e cortar esse cabelo, que já está que nem o rabo de uma pata, mas com um galagão desse de mais de cento e vinte quilos, como que faz?
⎼ A senhora entendeu como que é, mais ou menos?
⎼ Ahãm.
⎼ Faça a senhora então.
Puta que me pariu.
⎼ Não, mãe! A senhora tem que clicar aq… Não, não! A senhora vai renomear o arquivo assim, tem nada a ver com nada isso! Pera, deixe eu lhe mostrar, pare. Para de clicar, mãe, para!
⎼ Perainda, que eu vou botar meus óculos.
⎼ Mas sim, a senhora não tava vendo nada esse tempo todo?!
⎼ Meu filho, as letrinhas no teu notebook são tudo miudinha! Não é que nem no meu celular não. Tu não lembra que eu tô com esse olho bichado já? ⎼ eu aponto pro direito, mas o esquerdo também não está lá essas coca-colas todas não ⎼ Vou juntar o dinheiro desse tal de bot justamente pra ver essa catarata lá pelo Cedoa.
⎼ Tá bom, tá bom. Deixe pra lá então, que eu faço essa parte aqui pra senhora. Mas só essa parte!
E tome o menino falar mais uns vinte minutos sobre bots. Se deixar, é o dia inteiro isso. Nesse último ano, ele já foi ficando meio pálido, e essas beira dos olho tudo inflamada de tanto ficar do celular pro notebook, do notebook pro outro celular, e pro outro, e pro outro, do Instagram pro Facebook, do Facebook pro YouTube, do YouTube pro TikTok. Pela fé! Ele diz que é temporário, enquanto não consegue coisa melhor. Mas da vez que ele tinha bem uns 500 perfis e perdeu tudo de uma vez, também disse que ia parar. Só se afundou mais nessa vida. Agora pergunte se adianta falar pra esse menino pegar um sol, soltar um papagaio, sei lá?
⎼ Resumindo bem, é isso. Agora quando eu morrer a senhora vai ficar como herdeira da minha fazenda. Pena que é fazenda de cliques!
E a gente se abre, rindo. O café frio frio na xícara já. O notebook só os farelo de pão em cima. Um menino inteligente desse, merecia coisa melhor. Terminar a faculdade. Começar uma, pelo menos, ao invés de aprender esses trabalho velho doido, vendo tutorial no YouTube.
Dessa vez, eu me esforço um pouco mais pra acompanhar a cabeça do Adriano. É isso ou nem conseguir falar com ele, de tão afundado que fica no sofá, com o notebook no colo. Daí ele diz que tem um jogo da velha, e ele vem junto de alguma palavra ou frase. Hashtag, diz que é o nome. O Paiton dele, quando tá ligado, fica procurando essas hashtags, mas só as que falam da música nova da Jorja Teixeira. Daí o Paiton vai dando like e comentando em todas as fotos que tem essa hashtag, de uma por uma, e colocando hashtag por cima de hashtag, pra dar um monte na hora de contar tudo. Só não me pergunte quem conta isso, nem por que diabos isso é importante. Acaba que é só falar um monte de coisas, tudo mentira. Quer dizer, não é mentira, porque mentira é se o bot falasse coisa nada a ver com nada, é assim que a rede pensa. Daí o Adriano criou os comentários pro Paiton dele falar. Uns de verdade.
⎼ Bote seus óculos, olhe aqui a senhora como é nas linhas de código.
Aperto bem os olhos e consigo ver um
driver.execute_script(‘window.scrollTo(0, document.body.scrollHeight);)
try:
comentarios = [“Eh do AM pro mundo ❤️❤️❤️❤️ #ematagal #jorjasensual”, “Orgulho da Jorja!!! Guenta que foguete nao dá rééé #ematagal”, “Jorja a mais gostosa perfeita quando tem show em Recife de novo????? 👩🎤🎤 #ematagal”, “saludos de Colombia #jorja #ematagal” “e matagal suingue aqui de cima nao tem igual jorja pisa menooooos #ematatal”, “avisa que eh ela jorja teixeira #ematatal #jorjaeuteamo #suingueaquidecima”, “Jorja representa muito nossa cultura leva o amazonas pro planeta inteiro conhecer #ematagal”, “já vi umas 50x no youtube o clipe bora gente top mundial vem 🔥🔥🔥 #ematagal”]
Ô leseira.
⎼ Me diga um aí pra eu colocar aqui também.
⎼ Um o quê, filho?
⎼ Um comentário. Eu vou colocar o da senhora aqui também.
⎼ Mas pra quê?
⎼ Bora, fale logo!
⎼ Eu nem conheço essa mulher, o que que eu vou falar dela?
⎼ A senhora conhece sim. Ela tava no Caldeirão semana passada, usando uma roupa meio cunhã poranga ciborgue. Cantou uma do Garantido no bis, a senhora até dançou ali na frente da tevê. A senhora não lembra?
⎼ Ah, aquela que é a Jorja? Menino, se tu não fala, não ia achar que era daqui não aquela mulher. Bonita, né? Parece de fora.
⎼ É, tecnicamente ela não é daqui, né? A família dela é de São Paulo. Mas ela nasceu aqui e ficou até uns 15 anos.
⎼ Agora faz sentido. Nosso povo é muito feio. Muito feio. Ela não, é bonitona, grandona.
⎼ E aí, o que a senhora quer que eu coloque no comentário pra ela?
⎼ Bote aí: deus lhe abençoe e lhe proteja sempre.
⎼ Huum, não é bem a vibe não, mas beleza.
⎼ Bote deus com letra maiúscula, viu?
⎼ Assim?
⎼ Cadê?
⎼ Bote seus óculos de novo.
⎼ Isso… não, não, meu filho. É com maiúscula.
⎼ Mas já tá!
⎼ Bote tudo.
⎼ Assim?
⎼ Isso, assim: DEUS.
⎼ Top. Agora a senhora vai ver a mágica acontecer!
Eu mesma não vejo mágica nenhuma, só uma bolinha rodando e depois uns negoços piscando rápido, uns coraçõezinhos, sabe? E depois o Adriano apontando, todo orgulhoso, pra tela de um dos celulares:
adrianarakel68 comentou: DEUS lhe abençoe e lhe proteja sempre #ematagal
Os olhinhos do Adriano só brilham quando tão mexendo nisso. Ele ainda insiste em tentar explicar alguma coisa do que tá acontecendo na internet, mas prefiro espremer a cabeça de um formigão na toalha de plástico da mesa a tentar entender isso de lei que ele tá falando.
⎼ Lei não, mãe; delay! O bot espera tipo uns dois segundos pra postar, entre um comentário e outro. Pra ficar mais orgânico.
A tarde começa a escurecer. Com ela, as carapanãs vão dando a deixa pra gente se trancar tudo, fechar as janelas e ficar no calor. O Adriano começa o ritual de responder ele mesmo o comentário em cima do comentário do bot, também pra ficar mais orgânico. Depois da cirurgia, vamo instalar um ar, pelo menos no quarto dele, se deus quiser. Rumo logo pro fogão, pra esquentar o resto do surubim. Peixe novinho é outra coisa. Liso, liso, quem nem gente. Mais liso que a bolota. Vixi, muito mais! Afundo os pedaços do bicho no caldo, por debaixo das verduras tudo. E depois sirvo o Adriano, o caldo e uma rodela menorzinha do surubim, pra ver se o menino para de ganhar peso. Ele já nem me olha mais, nem quando mete a colher com caldo na boca, nem quando joga a farinha até fazer o caldo virar um pirão, nem quando as horas avançam depois disso.
⎼ Vou deitar, filho.
⎼ Bença, mãe. Boa noite.
⎼ DEUS lhe abençoe.
Lá pras duas, eu acordo de um sonho muito doido. Tenho oito anos e olho pro rio. A água bem calma, toda cinza, num dia velho feio, nublado. Meu cabelo é longo e bem pretinho de novo, preso num rabo de cavalo que repuxa alguns fios, e dói que só! Alguém acena pra mim das águas, mas não consigo enxergar direito quem é. Tem horas que acho que é uma mulher, depois acho que é um homem, e às vezes parece só um farrapo. Vermelho ele. Aperto os olhos mais ainda. Só não aceno de volta porque estou com as mãos ocupadas, tentando ajeitar o cabelo para que ele pare de doer tanto na cabeça.
Quanto mais eu tento enxergar, mais o que eu achava que era um braço me dando tchau vai ganhando outra forma, até eu não ter a mínima ideia do que é aquilo. Não sei se virou uma boia, não sei mesmo! A água do rio vai ficando toldada e dificulta ainda mais de entender o que é aquilo. Aflita, só quero tirar o laço do cabelo, mas parece impossível! No rio, a correnteza leva a coisa pra longe, bem devagarzinho. Será que o Didi ainda tá na sala?
