Pássaro madrugador

Joelson desperta com o canto dos pássaros. Não por causa da sinfonia de pios, apenas ao mesmo tempo. O relógio mental do ex-lavrador ainda segue os sons da natureza. Antes, levantava-se no primeiro raio de sol, já ciscando. Quando Sônia e ele trocaram o sítio pela cidade grande, seu alarme biológico saiu de sincronia. Se no campo só o vento e os trovões soltam urros fora de tom, entre buzinas, helicópteros, britadeiras e muito tum-tum-tum, puts-puts, vruuum, eleva a voz em um cômodo se quiser que a mulher o ouça no outro. Às três e quinze da manhã, consegue escutar o coração bater. E acorda para fazer companhia ao sabiá, que, também insone, cantarola.

Só entraria no trabalho às sete. Mesmo assim, passa o café e come pão amanhecido. Depois, veste a camisa azul e o terno preto, passa um pente molhado nos cabelos e no bigode e liga o rádio comunicador no canal três. O aparelho emite um apito duplo clássico.

Valdécio, saindo aqui pra assumir o posto.

Eita, Bigode, muito cedo ainda.

Cobre uma esquina, fico na outra.

Você que sabe. Não vão te pagar mais por isso.

Faz meio ano que se mudaram. Sem o emprego de caseiro no interior, perderam a morada e ele aceitou a ajuda do cunhado, segurança residencial em bairro de classe média. A vantagem é morar em um quarto e sala para funcionários, nos fundos da garagem do prédio. Sônia também arrumou trabalho como faxineira no condomínio. Joelson nem rala muito, apenas gasta o dia em pé, olhando o movimento. No máximo, anda até a esquina e volta para entrada de carros, passando um rádio ao colega sempre que cruza com um pedestre, conhecido ou não.

Senhor de roupão, com cachorro.

O véio da peruca?

Positivo.

Maluco. Só pode.

Não sei.

É sim, Bigode. O desgraçado acorda o pulguento e sai a essa hora. Doidinho.

Vai ver o animal não faz em casa.

Nada. Trocou ideia comigo. O cara não dorme por causa do barulho da passarinhada.

Não é barulho. Eles cantam.

Ah, pro povo daqui é barulho.

O sabiá canta de noite porque de dia tem ruído demais.

Que seja. O sabiá acorda o velho, que acorda o cachorro.

A ave precisa cantar pra cuidar do território.

Aí o doido sai com o cão e a gente tem que ficar de olho nele.

Gritos ao fundo. Agressivos, incompreensíveis. Cada sílaba sai como um estampido, um tiro de perdigotos. É o Mendigo Que Berra, em algum ponto do quarteirão, discutindo com o vazio de novo. Joelson volta ao rádio.

Morador de rua. Sem visual.

Ih, outro maluco.

Deve tá em movimento.

Se não dorme na porta do restaurante, vaga a esmo.

Um coitado.

Só não deixa chegar perto dos latões de lixo.

É inofensivo. Só fala com o amigo imaginário.

De uma das milhares de janelas ao redor, alguém grita para os seguranças enfiarem o rádio no cu, que o conversê está invadindo sua privacidade. Como se os sons conhecessem fronteiras. Os dois homens o ignoram.

Bigode, aqui é terra de zumbi. Não dorme passarinho, velho, cachorro, nóia, a gente, ninguém.

Um último apito duplo do rádio. O sabiá responde em seguida. Parado na esquina, Joelson joga os braços para trás e estala o ombro. Ensaia uma arqueada à frente, tentando encostar os dedos no sapato e alongar o ciático. A gordurinha a mais, apertada pelo cinto, encavala o exercício. Ele imobiliza, cabeça para baixo. Algo se move no chão, perto dos pés. A iluminação pública, fraca, obriga o homem a esfregar os olhos para espantar a vista cansada. Não, é mesmo uma ave, um filhote, já com penas, mas ainda vulnerável. O segurança se ajoelha e pega o rádio. Mais um apito duplo.

Um filhotinho. Se perdeu dos pais.

Não entendi. Tem criança perdida aí?

Negativo. É um sabiá. Caiu do ninho.

Espera. Tá falando de passarinho?

Respirando. Só assustado.

Ele que não para de cantar?

Pega água e uma colher.

Oi?

Tô levando aí.

Ecoa pela vizinhança mais um grito de origem indefinida, agora dirigido às mães dos seguranças. Outra voz corta a primeira para exigir silêncio do vizinho reclamão. Joelson tira um lenço cinzento do bolso da calça e faz uma cuia com ele na palma da mão. E segura a ave como se fosse um floco de neve. Olha para o alto. O canto do sabiá vem de uma árvore de copa grande e alta, com tronco largo. Um pé de figo cercado por trepadeiras. Suas raízes estão no meio de um lento e brutal embate contra o calçamento. Ao caminhar até a portaria, ele passa de novo pelo velho de peruca e o cachorro. Agora, as mãos estão ocupadas demais para avisar da movimentação pelo rádio. Na entrada lateral de veículos, encontra o cunhado.

Não acredito. Pegou o pássaro?

E a água?

Serve café?

Que café, imbecil?

Os dois homens de terno se dirigem à guarita do portão principal. Arrancado do cochilo sobre o monitor das câmeras de segurança, o porteiro Ary pula da cadeira e quase cai.

Água. Rápido.

O quê?

Vai, Ary.

O que é, pô?

O passarinho caiu do ninho.

Passarinho? Puta que… Achei que era assalto.

A colher. Passa a colherinha do café. E água.

O porteiro atende o pedido e enche um copinho de água no filtro de galão. Os homens de terno cercam a bolinha plumada de olhos fechados enquanto Joelson, performando um neurocirurgião, coloca a colher com umas gotas próximo ao bico. Após alguns segundos, o líquido começa a ser sorvido por uma minúscula língua. Os olhinhos se abrem. Quase um gol do Corinthians, Valdécio solta um aêêê e dá um soco no ar. A cachorrada das redondezas protesta.

Joelson acomoda a ave-bebê sobre a mesa e ela solta um choro trêmulo, parecido com um celular no modo vibratório. Ao fundo, o sabiá adulto segue sua performance noturna.

Tive uma ideia. Cuida dele.

Pera aí. Vai onde, Bigode?

Devolver ele pra família.

Mas que família?

Joelson corre até a lixeira contêiner na frente do prédio e quase mergulha dentro dela. Tira de lá alguns sacos pretos e espalha tudo pela calçada. No mesmo instante, o caminhão de coleta de lixo vira a esquina e o motorista se anuncia engatando a marcha errada três ou quatro vezes seguidas. Os trabalhadores pulam da trazeira e recolhem montes de sacas ao pé de postes ou em caçambas elevadas. Um deles se aproxima da arte do salvador de pássaros.

Ô, que merda é essa?

Um minuto. Tô procurando um troço aqui.

Porra, meu. Pode fazer zona não.

Achei!

Joelson tira de um saco uma lamparina de madeira, dessas para velas de aromas, com furos no formato de pequenas estrelas. Ele volta correndo ao prédio.

Cara, não vou catar tua bagunça, viu?

Os trabalhadores abandonam o lixo largado no chão e jogam no caminhão só o que está fechado com um nó. O motorista dá a ré, tocando um alarme intermitente. Mais alguém se manifesta da janela, frisando a necessidade de trabalhar na manhã seguinte.

Com cuidado, Joelson coloca o passarinho dentro da lamparina, com lenço e tudo. O filhotinho continua choramingando. Até os rádios dos homens soltarem outro apito duplo e ele se aquietar.

Tudo bem aí embaixo?

Ixi, Bigode. É o chefe. Fala você.

Seu Ygor, tudo tranquilo.

Joelson? Mas seu turno é às sete.

O pássaro só tá assustado.

Hein? Que pássaro?

Ele caiu do ninho.

Tá de brincadeira?

Já sei como levar pros pais.

Rapaz, tô ouvindo a zoeira aqui de cima. Os moradores vão reclamar.

Mais um apito duplo. O pequeno sabiá agita a cabecinha, solta um pio e relaxa de novo. Joelson pega o rádio e coloca ao lado da lamparina.

Val, apita pra acalmar ele. Já venho.

Joelson entra correndo na garagem. Enquanto isso, Valdécio aciona o botão do aparelho de quando em quando. Não são nem seis horas e as luzes de alguns apartamentos já começam a se acender. Da porta de vidro do edifício, sai Cidinha, a síndica. Descabelada e ajeitando o penhoar florido, ela quase deixa escapar as pantufas, tamanha a pressa.

Chamaram a polícia?

Ô, dona Cida. Tem nada rolando, não.

Ué? Acordei com o zum-zum-zum de vocês, vi meio que um tumulto…

Não, foi só o pass…

Ai, o mendigo revirou a lixeira de novo, é?

Valdécio e Ary trocam olhares. A mulher vai até o portão espiar a calçada cheia de lixo. O rádio segue de babá eletrônica na lamparina. Então, toca o interfone e o porteiro atende rápido.

Bom dia. Oi, dona Heloísa. Não, não. Tá tudo bem. É sim, senhora.

Joelson retorna com um rolo de barbante na mão. Ele toma o rádio de Valdécio, pega a gaiola improvisada, aciona o portão e leva para fora, passando por Cidinha.

Joelson, alguém tem que limpar essa…

Um minutinho, dona Cida.

Sob o olhar da síndica, dos dois colegas e de outros moradores, empoleirados nas janelas, o segurança vai até a esquina, do outro lado da rua, embaixo da figueira. O canteiro parece que explodiu de repente, com o escape do tronco. E o solo congelou em ondas, todo irregular. O homem ergue seu rádio e emite dois apitos curtos. Dos galhos, o sabiá adulto interage. Com a folhagem densa e a pouca claridade, é difícil ver de onde vem o pio. Ele tenta de novo e a resposta se repete.

Tá ali, tô vendo.

A menos de dois metros de distância, o Mendigo Que Berra aponta para o céu. Ele está de cócoras, coberto por mantas entrelaçadas, imundas, só com a cabeça e o braço à mostra, como se saísse de uma oca. Do sebo de seu rosto, sobram apenas os olhos, que brilham, mareados.

Que lindinho. Ali, ó, ó.

Joelson chega mais perto do sujeito e empresta seu ângulo de vista. Aperta o botão do rádio e aguarda. As folhas se agitam em um dos tentáculos de madeira. Lá está o sabiá. Dois deles. E eles cantam, atendendo ao chamado. O segurança desenrola o barbante, enquanto calcula um lançamento oblíquo, desenhando no ar a trajetória parabólica. Ao pescar, vovô tinha uma técnica secreta para jogar o anzol bem longe. O ídolo do pai era o Gérson, dono de uma canhotinha mágica, que colocava a bola com precisão no pé do companheiro, a quarenta metros de distância. Na turma do vilarejo, ninguém batia o pequeno Jojo no desafio de pendurar pares de tênis, pelos cadarços, nos fios de alta tensão.

A luz do sol começa a empurrar a noite pelas bordas quando Cidinha, Valdécio, Ary e agora Ygor vão à rua, largando o portão aberto. Das janelas, vizinhos observam, tentando absorver o cenário. Alguns operários, que chegam para trabalhar nos canteiros de obras, também param por ali. E um ônibus, que descia quase vazio, freia diante do homem de terno no meio da rua, olhando para cima. Sem tirar os olhos das aves, o Mendigo Que Berra se levanta. Ninguém solta um pio.

Joelson tira um dos sapatos e o amarra na ponta do barbante. Depois, começa a girá-lo no ar feito boleadeiras, até arremessá-lo na direção da árvore. O calçado voa, passa certeiro por cima do galho grosso sobre o casal de sabiás e cai do outro lado. O segurança, que o mantém seguro pelo fio, deixa o peso descer até suas mãos. Na argola sobre a lamparina, enrosca o barbante que sobrou. Ainda tira do bolso uma linha de costura e dá outro nó, agora no trinco da portinhola.

Boa sorte, amiguinho.

Ao puxar o barbante pelo lado preso ao sapato, Joelson iça a gaiolinha devagar, enquanto o rolo de linha se desfaz no chão. Só para na altura dos pássaros e puxa com jeitinho o fio, abrindo a portinhola. Ninguém respira na plateia. Não há motores, bateção ou falatório. Por uns minutos, a cidade se cala para esperar um dos sabiás romper a barreira de desconfiança e, no seu tempo, ir ao encontro do filhotinho, despertando-o com leves bicadas. Quando o pequeno sai, as pessoas se permitem engolir saliva.

Joelson calça os sapatos, baixa a lamparina e se afasta. O motorista do ônibus dá a partida de novo. Todos se dispersam e o dia, enfim, começa.

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