
Dostô é Dostô, não requer apresentações. Este texto, escrito no leito de morte de sua mulher, é o ponto de virada em sua literatura – quando deixa de lado os enredos mirabolantes escritos para jornais para se concentrar no arco psicológico de seus personagens. Nietzsche bebeu daí para criar o seu Super-Homem; Camus usou suas questões para inspirar o existencialismo; todo o anarquismo e o niilismo dos séculos 19 e 20 passaram por aqui; é uma bíblia para incels e reacionários, para terroristas islâmicos e combatentes da sociedade capitalista. Influenciou toda a literatura moderna: é o pai de todos os grandes personagens solitários, de Kafka e Beckett a Hilda e Fonseca. É livro pra ser relido todo ano.








PROPOSTA
Eis o que você vai escrever: o relato de um sujeito que mora escondido.
Ele mora em um porão? Um sótão? Um estacionamento, uma garagem? Um terreno baldio? Um quarto escuro? Uma edícula? Uma cozinha industrial abandonada? Uma caverna? Um galpão? Um depósito abandonado? Um esconderijo em um lugar comercial? Uma casinha no mato? Um automóvel?
Ele tem um pet que o acompanha. Cachorro, gato, hamster, peixe, cobra, iguana, guaxinin, porco, capivara, rinoceronte, passarinho? Como ele chama, como é seu comportamento, seu personagem conversa com ele?
Ele tem alguém de quem ele depende. Criado, funcionário, escravo, parente, assistente, enfermeiro, amigo, aproveitador?
Ele tem um profundo ressentimento, um enorme recalque, um atroz rancor contra algo ou alguém. Portanto aqui sua narrativa vai se dirigir a um passado de onde seu personagem não consegue escapar – é o passado que o conecta ao seu pequeno mundo de onde ele não sai.
Mas o que vai puxá-lo na direção do futuro é que algo acontece colocando em xeque sua existência em seu mundinho: uma carta, uma pessoa que bate à porta, um evento exterior, um acidente, um incidente, uma notícia aparece para que ele seja obrigado a deixar seu cafofo.
Temos portanto aí duas forças contrárias: uma, que o prende, e outra, que o impele.
Seu personagem também deverá ser contraditório. Se por um lado ele aparenta ser horrível, ele deve fazer grande figura de si mesmo. Precisa sofrer de uma enorme autoconsciência. Ele deve parecer ruim, mas no fundo pode ser bom – ou vice-versa.
Escreva a partir do momento em que acontece o tal fato que empurra o sujeito para fora de seu cafofo.
Você vai ter de escolher um trabalho para ele fazer aí dentro. Descreva esse trabalho.
Como se trata em um mergulho nesse personagem, você precisa descrevê-lo bem, tanto física quanto psicologicamente, ao longo do conto. Vá fazendo isso enquanto conta, não precisa descrever tudo de uma vez.
Importante descrever também este lugar onde o sujeito vive.
Escreva na primeira pessoa – como um monólogo, ou uma carta dirigida a alguém específico, ou um fluxo de consciência – em até 9 mil toques.
