Eram assim as faxinas das quartas-feiras. Das de olhar cada frestinha. Isso desde o tempo em que Laura morava com a mãe no Cariri. Além dos truques do varre, aspira, passa pano, ela obedece até hoje ao não se gasta sábado com Bombril. A mãe dizia: acorde às 4h se precisar, lave até dar vontade de lamber o chão, mas no meio da semana. Sábado é pra cerveja, cabelo e unha. Laura de avental, rabo de cavalo embaraçado e cara inchada de sono, como guardava a imagem da mãe, catucou tudo que é buraquinho nos armários, nas prateleiras, nos tacos de madeira de qualquer apartamento onde morou até hoje. O atual, tão micro, tão diferente do sobrado da infância, até lhe ajudava na redução de tempo da tarefa, mas era como se, com os minutos sobrando, ela ficasse em dívida com dona Quitéria. Daí que quanto menor a área, maior a exigência.
Nessa de enfiar palito em brecha, de olhar de perto, nessa de casa e de rua, de calor e de luz clara de sol, era cada grito que davam ela e a mãe. A casa ficava limpa e santa. Nossa senhora, Virgem Maria, meu Deus do céu, Jesus. Porque quem mexe em buraco, às vezes não quer, mas destampa, né? E arrancavam rato, barata, besouro, aranha, tudo espetado pela testa. No ap recém-construído, chegava a dar uma frustraçãozinha. O máximo que se puxava de uma fresta era um pedacinho de gesso, um resto de obra. Por isso a curiosidade, o empenho dela agora, deitada embaixo do móvel da TV, com a lanterna do celular acesa, na briga pra entender essa rebarba de papel, bem na quina do rodapé.
Passava das 8h, horário em que já deveria estar no ônibus. E ela lá, na pinça de sobrancelha, puxando com o maior cuidado do mundo. Precisou de um pouquinho mais de um centímetro pra identificar. Era dinheiro. Dinheiro gringo. Ela ligou pra Gabriel, chefe de turno na gráfica, e já foi metendo uma tosse no meio do alô, e um mais ou menos, pro tá tudo bem? que veio de lá. Ganhou o dia fora, porque tosses e espirros são perigosos pra turma do acabamento e, depois, eles já estavam há 33 dias sem acidentes.
Ela conhecia tanto Gabriel, que conseguiu ver, de casa, ele dando um gole no café garapa, fazendo que não com a cabeça, e digitando o ramal de Mario – único que consegue dobrar o turno da guilhotina sem mudar o placar. Conhecia também a rotina dos vizinhos, de quem chega a advinhar a escolha da roupa, só pelo movimento do outro lado da parede. E, pensando agora, talvez dê pra dizer que a vida de Laura é chata, talvez por isso mesmo o melindre com a faxina, talvez ainda lamber o chão e acompanhar qualquer passo do povo, feito quem assiste a uma novela, seja a maior ousadia a que se permite desde que deixou o Cariri.
Pois bem, ela sabia que a essa hora, os vizinhos já tinham saído, pra trabalhar, de jeans, camisa de botão, sapato e cinturão trançado de couro caramelo, cretininhos que só eles. Sabia que acordavam especialmente barulhentos na quarta, que o menor tinha tomado banho cantando Criolo, e que o outro prefere o som um pouquinho mais baixo. Grite não, amor. Vai incomodar o prédio inteiro. De maneira que dava pra quebrar um teco de nada, destampar um dedo de gesso, sem chamar atenção de ninguém, só pra entender o por quê daquele achado. E, quem sabe, se a nota tivesse companhia, diferente de Laura, ela não teria razão pra achar a cerveja do sábado um pouquinho menos amarga.
Crédito
Laura nao tinha marreta, martelo, nem de carne, ou nada que servisse pra quebrar parede. Mas desde quando gesso é parede? Pensou meio feliz, já que conseguiria seguir com a tarefa a que se propôs com o que quer que fosse. Pra um segundo depois, pensar meio triste: era só gesso mesmo que dividia a vida dela da dos vizinhos? Uma camada tão fina e frágil, não é?
Na cabeça, e só na cabeça, já que seguia escorada no móvel, passou a revisar cada item de cada gaveta dos 30m2 do apartamento buscando ferramenta. Não eram muitas gavetas, nem muitos itens. Saiu fugida do último endereço e trouxe somente o que teve tempo de colocar no jipe de Mario. Foi a partir da experiência dolorosa que passou a considerá-lo um amigo. Sentiu uma pontada de culpa por fazer, justo ele, dobrar o turno por uma besteira dessas. O dinheiro não vai a lugar nenhum de hoje pra amanhã.
Levantou já com o telefone na mão e, antes mesmo de desligar a lanterna, apertou o nome de Gabriel. Disse, sem se preocupar com a incoerência da mensagem, que, do nada, estava melhor, que não precisava ligar pra ninguém não, chego em meia horinha. E saiu de casa sem saber muito como. Só se deu conta do avental no segundo ponto de ônibus. Espantada com a falta de sentido da cena – ela de chinelo, calça de moletom e flanela no ombro, sem banho, sem óculos, sem maquiagem e com o crachá da gráfica pendurado no pescoço grudento de suor – apertou o botão e desceu na mesma avenida em que morava.
Era também frágil a camada que separava a Laura de hoje cedo – que tinha planos, ordem para realizar cada um deles, que tinha o controle da própria vida, da dos vizinhos e da do chefe – dessa que se arrepiou quando encostou um pedacinho do pé na calçada da Cardel, molhada sabe-se lá do quê. Antes de seguir descendo a rua, centralizou o corpo nas Havaianas de faxina e retomou, um pouco pelo menos, a direção dos próximos passos. Vai voltar pra casa, tomar um banho de cinco minutos e chegar apresentável na gráfica. Melhor atrasar mais um hora do que apavorar Gabriel. Ela precisa do trabalho e ele confia em pouca gente para operar a guilhotina.
Mesmo que o salário e a vida real tivessem voltado a ser guias, o pedacinho de dinheiro entre o apartamento 81, o dela, e o 82, o dos vizinhos, deu ordem para que Laura descesse mais uma quadra e entrasse na Precolândia da Cunha Gago atrás de um martelo. Chegaria na gráfica em uma hora e dez. Mas amanhã, almoça em casa. Nem que sobrem vinte minutos entre ir e voltar, ela já vai quebrar parede como se deve. Não tem erro. O da tramontina é R$24,79, senhora. Fez as contas, dava perto de cinco dólares. Vou levar. Débito ou crédito?
Processo
Laura saiu da loja pronunciando com estranhesa as palavras que sobraram. Subiu quatro quadras no mantra: crédito, Tramontina, Preçolândia. Anos de fono e ainda sofria com os erres duros. Combinou consigo que, para o banho, daria play em qualquer vídeo do dr. Drauzio, só pra ouvir os erados, coretos, iresponsáveis, que ele solta com tanta naturalidade. Dr. Drauzio, o Rivotril de Laura.
Já na entrada do prédio, cruzou o porteiro e a notícia. Fala, Laura. Tá sabendo da conversa do 82? Vão reformar. Quando? Parece que começa amanhã. Mas é o quê? De primeiro foi o mofo na parede da sala. Capaz de estragar a tua. Mas a galera tá com grana, parece que vão trocar piso e tudo. Ainda bem que tu passa o dia fora.
Ela subiu sem segurar o elevador pra moça que chegava com o carrinho de pet. Foi um alívio, uma espaço pra vazar crítica à cena que sempre lhe deixava de herança o Rock da Cachorra do Eduardo Dusek. Do átrio até o oitavo: primeiro, galera, grana, trocar, primeiro, galera, grana trocar. Pois se a galera já tava cheia da grana e sempre primeiro, sempre antes dela, tava na hora de trocar. Aquela tesouro lá -também vazando pela parede -já tinha dona. E a dona era Laura.
Começou pelo cantinho em direção à lateral, numa força que sequer imaginou ter no braço. Cada pancada deixava mais clara a arquitetura. O buraco não fazia 81 e 82 encontrarem, era um vão de, no máximo dez centímetros. E, embora essa palavra seja feia, não há nada que se aproxime mais do que dizer que o vão parecia socado de dinheiro. Ela seguiu, mesmo que o telefone gritasse a dúvida de Gabriel: vem ou não vem? Mario também insistiu, conhecia a amiga. Já tinha a visto faltar o trabalho, mas uma única vez, aquela da carona, e não foi bonito de ver não. Aos toques do celular somavam-se agora o latido de Amora do 91 e o interfone. Era meio dia, horário proibido para grandes barulhos.
Ela criou faixas paralelas na cabeça, e com o autoridade que tinha nos acabamentos da gráfica, não perdeu um milímetro do alinhamento. Saiu quebrando da porta, no extremo esquerdo da sala, até a janela, no lado oposto. Deitada, sentada, acocorada e de pé. Sentiu como se tivesse tomado banho de dinheiro, nota que não acabava mais. Para um lado e pro outro e de novo e de novo. Isso sem parar um único segundo. O braço cansado de Laura não desobedecia à ordem de seguir batendo, mas já batia meio descordenado. Ouviu o toque da campainha? Ouviu os gritos do zelador? De um Mario que baixou na Cardeal no meio do expediente? O alvoroço dos vizinhos? O barulho das sirenes lá fora? Ouviu. Mas a pressa, minha gente, se não é surda, também não é besta. Abro não. É meu, ela gritava. Meu.
Já em pé, gesso caindo pra tudo que é canto, marreta da polícia arrombando a porta na mesma velocidade em que martelo quebrava a parede, perdeu a mão. E, na volta de uma ida, danou o Tramontina na testa. Com a força do mundo inteiro. Traumatismo craniano. Trinta e três dias de coma profundo. Dizem que pode até ser que volte. Mas Gabriel já abriu processo seletivo. Horível.

