A casinha não tinha nada que a destacasse das demais da rua João Moura. Talvez o fato de ser térrea entre tantos sobrados. Poucas fachadas exibiam letreiros: uma padaria ou bar na esquina, algumas poucas lojas de comércio local. Todos os outros imóveis eram residenciais, menos a casa pintada de cinza no número 613. Parcialmente oculta por uma tipuana gigantesca, ali, na virada do século funcionava a mais famosa clínica de aborto de São Paulo.
Dou a mão para Nanci se equilibrar no caminho entre o carro e a casa. Mesmo que ela esteja usando salto baixo, a calçada avariada pelas raízes da árvore oferece risco até alcançarmos o portãozinho de ferro. Não há campainha, por isso subimos os degraus que levam ao terraço. Bato com o nó dos dedos. Tenho de repetir três vezes para o postigo se abrir e uma voz de mulher perguntar o que desejo. Na verdade, desejo sumir dali, mas respondo que viemos ver o doutor Abrão. Um clique destrava a porta, por trás da qual a jovem vestida de branco da cabeça aos pés nos mede com ar sério. Faz sinal para que a acompanhemos. Nossos passos reverberam no piso de tábuas do corredor comprido. A porta de trás revela o quintal, situado num plano mais baixo. Seguindo os gestos imperativos da moça, descemos a escada externa e nos sentamos num banco de cimento entre vasos de plantas entulhados de bitucas.
Esperamos mais de meia hora naquela sala de espera ao ar livre. Quase não falamos; não tínhamos muito para dizer um ao outro àquela altura. Quando Nanci me contou, durante um almoço na semana anterior, que a tabelinha em que ela tanto confiava tinha falhado, num arroubo eu propus assumir a criança. Ela argumentou que não era tão simples e que tinha muito a perder. O marido, a filha de dois anos, o respeito dos pais, o emprego. Eu, não. Solteiro, advogado recém-formado, podia me dar ao luxo de atirar tudo para o alto (foi essa a expressão que usou). Não discuti. Talvez ela tivesse razão.
Sua ginecologista sugeriu que ela procurasse o estabelecimento do doutor Abrão. Mesmo com a disseminação da pílula anticoncepcional, as clínicas de aborto seguiam funcionando veladamente. Era um negócio que a sociedade da época tolerava, quase como no caso do jogo do bicho. De vez em quando os jornais publicavam que uma operação policial havia desbaratado uma “fábrica de anjinhos” ou uma “fortaleza do bicho”. Tanto num caso como no outro, intuía-se que alguém havia atrasado a propina do mês.
O mesmo ruído de destravamento e uma porta que não tínhamos percebido se abre no que devia ter sido originalmente um porão. É tão baixa que quase bato a cabeça ao entrar. A iluminação fraca mal permite divisar duas cadeiras, uma estante e uma escrivaninha, atrás da qual se senta um homem vestido de branco. Não diz seu nome nem pergunta os nossos. Usa uma máscara cirúrgica, que não tira para falar.
− Imagino que não são casados… − O tecido sobre sua boca se move de um modo estranho. Quem sabe haja um bigode ali.
− Sou solteiro, doutor. Isso é importante?
Nanci aperta a minha mão de forma que o outro não veja. Não se trata de um gesto de solidariedade, mas um alerta para que eu não faça o que ela sabe que estou prestes a fazer. Ela me conhece bem. À parte ser alguns anos mais velha, cultiva uma percepção extrassensorial que aprendi a respeitar. Trabalhávamos na mesma seção, quase lado a lado, e mesmo assim troquei poucas palavras com ela durante meus primeiros meses. Uma tarefa comum enfim nos aproximou. Passamos a conversar, depois a almoçar juntos, até que a intimidade das conversas acabou na cama redonda do Motel Swing em uma tarde de expediente.
− Os senhores sabem que a geração de uma criança é um encargo muito sério.
− Sim doutor, sabemos. – Nanci responde rápido, tomando a frente da conversa ainda que o médico se dirija a mim.
− Não pode ser uma aventura da qual vocês se arrependem sem custo.
Sem custo o cacete, grito eu, mas não em voz alta, porque ela agora esmaga minha mão. Nanci sabe que aquela pantomima estava me custando duas prestações do meu Fusca.
O que me atraía nela era a capacidade de fazer coisas que ninguém apostaria que era capaz. O jeito discreto de se vestir, o rosto comum e o corpo de curvas pouco visíveis não a tornavam um alvo preferencial dos conquistadores do escritório. Mal abria a boca, complexada por causa de um diastema nos dentes incisivos que a fazia ciciar. Acho que a convenci a sair comigo pela insistência. Porque não sei o que ela via em mim, um pirralho recém-saído da adolescência que só se preocupava com futebol e as leituras da faculdade. Quem sabe era isso mesmo, o frescor e a potência da juventude. Ela me instruía sem ensinar. Com o tempo, aprendi que montes desbastar, que ângulos contornar, que poços umedecer.
− É preciso que vocês entendam que o trabalho que faço aqui é acima de tudo social. A população precisa dos serviços que ofereço com toda a segurança − prossegue a cloaca sob o pano branco.
Nesse caso, por que você não doa seu lucro para um orfanato?, berro sem emitir nenhum som.
− Bom, se os senhores estão convictos de sua intenção, não serei eu a demovê-los – pronuncia o homem pela ostra oculta, encerrando o sermão.
− Sim, doutor, estamos todos de acordo −, concede Nanci, sorrindo de lábios comprimidos.
O médico se levanta, pega Nanci pelo braço e a conduz por um corredor ao fundo. Fico sozinho na sala. Tento retomar o fio da meada. Quando foi que o relacionamento capaz de unir de forma tão especial duas pessoas em tudo diferentes havia descambado para uma descida aos infernos? Como uma ligação quase inocente (tirando o sexo) tinha virado uma cachoeira de culpas? Da mesma forma que faço quando na cadeira de dentista, me concentro em trazer cenas de prazer à memória. Uma boca aberta com a língua hesitante. Suor nas covinhas de vênus. O cheiro represado sob a massa de cabelos pretos. Um pé de unhas vermelhas e curtas que percorre minha barriga. A lágrima depois da cópula.
Saio do transe e vou fumar no quintal. No meio do cigarro, o médico ressurge com uma xícara de café nas mãos e a máscara ainda no lugar.
− Ela quer falar com você antes.
− Lá dentro?
− Onde mais? Primeira porta.
Percorro o corredor escuro do porão. Bato na madeira e entro. Nanci está apoiada na borda da cama de metal. Os cabelos que sempre a distinguiram se escondem em uma touca azulada que parece de papel. A camisola semitransparente, do mesmo material, revela sua nudez da cintura para baixo. A visão de seus pelos não me excita. Ao contrário. Nanci me olha de baixo para cima, como uma criança órfã de novela.
− Temos de aguentar essa – fala com a mesma voz grave que costumava me fazer estremecer. Não faz efeito.
− Se eu encontrar esse sujeito na rua algum dia, juro que atropelo.
− Outro dia, não hoje. Não agora.
− Não hoje – me dou por vencido. Penso em abraçá-la, mas recuo. Ela também não faz nenhum movimento em minha direção.
Aquela seria a última vez que eu a veria nua. Eu não tinha consciência disso na hora, mas ela, tenho certeza, sempre soube.
Voltamos para o escritório mudos. Eu nem consigo perguntar como tinha sido o procedimento, e ela não faz questão de contar. Com os dias, tentei retomar nossa amizade do ponto interrompido sem sucesso. Nem sei se tentei tanto assim, porque finalmente fui transferido para o setor jurídico, onde pude pôr em prática o que tinha aprendido na faculdade.
Nanci continuou na repartição executando a mesma atividade ano após ano. Teve mais duas filhas. Se aposentou e mudou para o interior. Conheceu o primeiro neto já doente de um câncer no útero. Sua agonia foi breve.
Eu me casei três vezes. Minha carreira avançou até eu terminar como juiz de direito. Acumulei bens, alguns dos quais perdi nos processos de divórcio. Deixei três esposas bem de vida e nenhuma prole. Às vezes sonho que tenho um filho meu. Também tenho a estranha certeza de que Nanci teria dado à luz um menino. Seria o único filho homem dela.
Em 2008, li na Folha que a clínica tinha sido fechada definitivamente por falta de alvará e péssimas condições de higiene. O responsável, que não se chamava Abrão, foi preso por porte ilegal de arma de fogo, e não pelos milhares de abortos que praticou desde 1974. Ao levantar seu passado, as autoridades descobriram que o médico havia colaborado com a ditadura militar, tendo assinado como legista 58 laudos falsos para encobrir a tortura e morte de militantes da oposição.
Vejo no Google Maps que a tipuana segue firme arrombando a calçada diante da casinha da João Moura. A fachada foi descascada para deixar à mostra os tijolos originais, como é da moda hoje. Está pintada de branco com frisos pretos. No lugar da veneziana, um grande vidro blindado me lembra um olho vigiando a rua. Outras fotos mostram o interior que abriga um bar e restaurante com música ao vivo. O tema da decoração é praiano. No quintal, jovens sorridentes em roupas informais se sentam em cadeiras de lona enquanto exibem drinques coloridos para a câmera. O porão, ao qual se tem acesso por uma porta estreita, abriga a pista de dança.
