A mulher que estendia a canga no gramado não podia ser a Laura. Seis da manhã de um domingo era hora de minha ex-colega de escola se preparar para dormir. Vídeos de pijamas e com a maquiagem borrada era o que ela exibia logo cedo depois dos seus posts sobre shows, teatro e lugares de São Paulo à noite. Há cinco anos, foi ela que me encontrou no Instagram, começou a me seguir e comentar postagens com perguntas que eu só respondia no modo privado. Não era desconhecimento de como funcionam as redes, Laura sabia o que estava fazendo com as perguntas pessoais. Ambas tentávamos ganhar seguidores e patrocínio depois de casamentos desfeitos, carreiras frustradas e filhos para criar. Eu tive a Íris e ela o Pedrinho em 2010.
– Então é verdade que você abraça árvore? – a pergunta veio da área próxima ao lago um pouco abaixo da tipuana. Soltei a casca grossa do tronco, firmei meus pés descalços na terra e apertei os olhos. A mulher, contra a luz ainda baixa da manhã, era um contorno escuro.
– Tininha!! É a Laura – os braços na sombra se agitavam para me chamar e o grito espantou um sabiá.
Não podia ser Laura, mas era a Laura. Pela voz e pela provocação. Esfreguei a sola dos pés na grama e fui me aproximando da amiga deitada de bruços, com uma mão no queixo e a outra no celular. Ela estava a uns quatro metros do meu tapetinho de ioga.
– Você tinha que estar dormindo, não tinha?
– Quero aprender a meditar. Você me ensina? – Laura ia logo dizendo o que queria. Sempre foi assim. O comportamento impulsivo, espontâneo e ousado, nas palavras com que ela se descrevia no perfil, representava uma vantagem no número de seus seguidores comparado aos meus.
– Não saiu para a noite?
– Cansei. Decidi mudar. O Pedrinho está numa idade difícil. Já não somos novinhas, não é? Preciso ficar bem-disposta de dia.
– Doze anos não é fácil. Estou vendo pela Íris.
Laura foi ligando a câmera.
– Galera! A Tininha, minha mais que amiga, tá aqui no Ibirapuera e ela faz leitura de íris.
– Que é isso, Laura? Larga de brincadeira. Você sabe bem que esta Íris é a minha filha.
– Gente! Desculpa, tá?? Não resisti – minha amiga gargalhava enquanto tentava me enquadrar também na cena – mas a Tininha aqui vai me ajudar neste novo ciclo e vocês vão me acompanhar.
Ia tirar o aparelho das mãos da Laura, mas o céu de outono tinha convidado mais gente a estender panos e esteiras pela grama. As chances de ser gravada e ter meu comportamento questionado eram grandes. Já estava perto dos dois mil seguidores e Laura exibia cinco. Um deslize podia significar o meu cancelamento e a sua ascensão. Ela sabia como me fazer de escada desde os tempos de representante de classe. Chegou a presidente do Grêmio Estudantil repetindo ideias que eram minhas. Laura tomava posse do que era meu e sabia como fazer um melhor uso.
– Laura!! – eu chamei num tom de voz natural insuficiente para fazê-la parar. – Laurinha – apelei para a forma carinhosa, fechei os olhos e invoquei as leis do retorno, da verdade e do merecimento antes de gritar:
– LAURA! PARE COM ISSO!
Por sorte, os vizinhos de gramado só tentavam se posicionar no fundo da cena gravada em vez de acionarem a própria câmera. Ela viu a plateia, passou também a filmar o público e a falar mais alto que ia se juntar a mim numa parceria imbatível de influencers: a coach e a promoter fitness. Era uma transmissão ao vivo e, em vez de atender à minha vontade de alcançar o aparelho e jogar longe, só pude sorrir e ajeitar os cabelos.
Minha colega disparou a falar sobre a manhã no parque. Eu, coadjuvante e muda na cena, me comparava a ela e mal ouvia. Laura sem o implante de cílios e os lábios preenchidos, seria igual a mim. Os mesmos quarenta e dois anos, os cabelos alisados, descoloridos de pontas irregulares. Vestíamos um top. O dela era branco e destacava os músculos dos braços bronzeados. O meu, cor de laranja, combinava com os brincos longos de canutilhos e a saia com motivos indianos. Assim que desligou a câmera, perguntei quantas pessoas estavam assistindo.
– Pouco mais de 400. Fica tranquila.
O casal com o Golden na coleira, o homem de bermuda sem camisa e as duas adolescentes de boné já voltavam para o seu lugar no gramado.
– Pra mim, é muita gente. Não gostei do que você fez!
– Ah, Tininha! Isso é só o começo. Pega lá o seu tapetinho e senta aqui.
Gostei da ideia de conversar com mais conforto. Vi que o Golden do casal tinha tomado conta do meu yoga mat. Cachorros nunca foram os meus preferidos. Precisei fingir um sorriso gentil para os donos lembrarem de chamar o cão. Parei diante do tapetinho , inspirei contando até quatro e expirei do mesmo jeito antes de recolher a peça , aceitar a sujeira de pelos e me sentar sobre eles para continuar o assunto. O Golden nem notou minha repulsa, os donos talvez.
– Você decidiu uma parceria sem me consultar.
– Abaixe seu tom de voz – minha amiga sabia me testar, sabia que o casal , o homem e as meninas estavam interessados na conversa e lembrou que , se não eram , poderiam virar seguidores – E precisa consultar? Entrega, confia e aceita. – ela falava para o pequeno público ouvir.
– Pera aí. Este bordão é meu.
– Tá brincando, Tininha! Isso aí é frase de placa decorativa, de pano de louça em feira de artesanato.
– Você pode falar alto e eu não? – dessa vez, não baixei o tom .
– Xiuuuuu! – ela soprava o pedido de silêncio como uma panela de pressão. Ela sabia me provocar. Laura acabou com meu plano de gravar uma aula sobre as frequências mágicas vibracionais. Foi então que entreguei tudo para as forças do Universo e liguei minha câmera.
– Fala aí, Laurinha! Explica direitinho o que você quer e a gente grava a conversa.
– Aehhhh!! – a ex-promoter e agora influencer fitness conseguiu. Ela já estava com o batom passado pronta para falar. Os planos eram simples como ela tinha tentado me dizer logo que me viu. Sabia das minhas gravações no parque aos domingos e só teve o trabalho de acordar cedo para me encontrar. Passou a expor as ideias de uma forma que me pareceu previamente estudada.
Laura dividiu seu projeto em quatro semanas. A primeira seria dedicada a vídeos de sua adaptação em acordar cedo, acompanhar Pedrinho se acostumando ao período da manhã na escola, uma dieta detox relaxante e exercícios de alongamento. Aos hábitos incorporados na primeira semana, ela começaria , na segunda , um curso de introdução à respiração relaxante e meditação. Na terceira, ocuparia os dias com foco na atenção plena, conversas sobre transformação pessoal, harmonia nas relações humanas, positividade e conexão com a natureza. Na última, traria palestras sobre purificação de cristais com água sagrada, a busca da verdadeira essência, empatia e revolução interior para frequentadores da noite.
Coloquei em prática todas as técnicas de respiração para relaxar e permiti que ela expusesse seus planos sem qualquer interferência minha. Meu desejo profundo era o de mandar minha amiga se calar. Enquanto ela expunha as ideias, um casal com criança e dois homens com um dog alemão se juntaram aos outros vizinhos de gramado. Assim que Laura terminou, comentei que o planos, exceção feita à parte da “revolução interior para frequentadores da noite”, eram exatamente o que eu apresentava para o meu público. Acusei minha amiga de plágio e perguntei onde eu entrava naquilo tudo.
Os frequentadores daquele pedaço do parque deixaram suas distrações para, de novo, acompanhar a nossa conversa. Laura não se incomodava com o público. Virtual ou real, ela gostava de colecionar plateias. Para me responder, ela se levantou, pediu que eu fizesse o mesmo, jogou os cabelos de lado, mirou a todos como se fosse anunciar a chegada de um meteoro e cochichou no meu ouvido:
– Você é sem graça. Não tem carisma. Você só vai me ensinar o que sabe e a gente divide os ganhos.
Era visível que o público ao redor tinha se frustrado com o cochicho. Olhei um por um. A câmera não conseguiu captar a opinião de minha amiga e a proposta de trabalho. Ambos doeram no meu ouvido. Fingi sorrir para a plateia enquanto processava uma resposta. O Golden escapou dos donos, veio até mim e ,antes que subisse nos meus ombros, voltei a me sentar. O cachorro peludo seguiu para cheirar o dog alemão. Laura também se sentou. Aproximei minha boca do seu ouvido e foi minha vez de cochichar:
– Tenho vergonha desse seu jeito escandaloso, da tua voz estridente, da tua necessidade de público. Eu aceito. Ensino o que sei, você divulga . Quero sessenta por cento do negócio e jamais aparecer ao seu lado.
Laura se admirava na minha tela , olhava o pequeno público particular e antes que as pessoas começassem a se dispersar, ligou também a sua câmera.
– Tem novidade na página! Pra saber de tudo, é só seguir @laurinhadasnuvens nas redes sociais – deu um giro com a câmera pelo espaço do parque e então me abraçou. O homem sem camisa e a dupla do dog alemão quase bateram palmas, o casal abraçou o Golden e as meninas de boné filmaram tudo.
