Sua cruz

por Américo Paim

Parecia um sábado comum de fevereiro. Cinco da tarde e o Bar do Cabeça Quente estava cheio. As pessoas se reuniam no lugar por causa da boa comida e da bebida gelada, mas também por histórias, nem sempre desse mundo, é preciso dizer.

Os garçons da casa, Firmino Notre Dame, e Romisael, mais conhecido como Todo Feio, mal davam conta de todas as mesas, porém, quem é esperto sempre presta atenção no cliente e o corcunda era especialista. Reparou, na mesa 9, o Dr. Fenelon Rodrigues, frequentador habitual, de cara fechada. Nada que tirasse o impacto de sua figura elegante, com a camisa branca de tecido fino e calça leve. Já era um senhor e as poucas marcas no rosto lhe mantinham jovial. Só tinha aquele olhar ilegível. Estranho que ainda estivesse no primeiro conhaque. Parecia ausente, ao lado da janela, com seu cigarro de palha. O fumo era proibido, mas o toleravam.

Às cinco e meia, ele chegou. Uma rara aparição. O tapa-olho e o crucifixo grosso no pescoço com a camisa de botão semiaberta eram inconfundíveis. A presença de Miro Fragoso ali, saído de seu retiro misterioso, era com algum fim. Firmino se benzeu, fingiu lavar uns copos no balcão e ficou de antena ligada. O homem forte seguiu direto para a mesa 9. Fenelon não pareceu surpreso. O visitante puxou a cadeira sem cumprimentar. Rápido, Notre Dame foi à mesa. Miro pediu cachaça, dose dupla. Não sorriu ou amaciou o rosto. Ele nunca fazia isso. O silêncio pesou por minutos.

– O que o senhor quer de mim?

– Está atrasado.

– Tive uns problemas.

– O assunto é José Paulo.

– O estrupício do Zé Todinho, aquilo lá?

– Guarde seus comentários.

– É um bêbado imprestável.

– E você sabe o porquê.

– O que houve, patrão?

– Não me chame assim, já avisei.

– É o costume.

– O homem está diferente.

– É de preocupar?

– Ele está voltando.

– Oxe, e aquilo saiu da cidade?

– Para a consciência, Miro, a memória.

A frase ajeitou o bruto na cadeira em um soluço. Passou a mão no queixo mal barbeado e olhou a fumaça do cigarro de Fenelon se misturar suave ao desenho das raras nuvens no céu azul lá fora, em falsa tranquilidade. Se entreolharam e ele falou, inseguro.

– Isso não pode acontecer.

– Calma.

– Se precisar, resolvo do meu jeito.

– Quem manda aqui sou eu.

Veio um olhar que Miro já conhecia. A dissimulada distribuição de gentilezas por onde aquele homem passava se convertia em frieza e crueldade de forma natural. Dava medo. Nunca se sabia com certeza o que se passava dentro dele. Sem disfarçar o estresse, acenou para o balcão e pediu mais uma dose da venenosa. O conhaque de Fenelon continuava no mesmo ponto e ele passava o dedo devagar sobre a borda, causando um fino ruído. Ele falou.

– Você está aqui hoje para ver de perto.

– Não podia ser em outro lugar?

– Ao contrário. Aqui no Cabeça Quente tem cara de tudo normal. 

– Que horas vai ser?

– Não vai mais esperar.

Meneou a cabeça para a direita. Zé Todinho entrou e o bar ficou festivo. O baixinho, com rosto de sapo, andar hesitante e gestos desconexos, era popular em Pedra Velha. Apareceu na cidade em uma noite perdida, há mais de cinco anos, vindo ninguém sabe de onde. Tinha cara boa, falava até bem, mas não sabia por que estava ali. Vivia dizendo “esqueci o passado todinho”. Assim ganhou o apelido. Muito afeito à bebida, vivia em um quarto pulguento no bairro do Chupa-molho. A dona do estabelecimento, Dona Fervorosa, não fazia ideia de onde vinha o dinheiro do aluguel, que recebia de forma pontual, no valor exato, em envelope insuspeito. Também chegavam roupas e coisas de higiene pessoal para ele. Zé não se ocupava de nada, sem conexão com o mundo real. Apenas bebia, vagava, dormia e falava.

De sua mesa, entre baforadas, Fenelon contemplou Zé com desdém. Roupas de favor, sujas e um pouco rotas. Rosto envelhecido, pernas erráticas, sorriso abestado permanente. Isso tudo e lembrar que suas vidas estavam conectadas, lhe davam ânsias. Ninguém percebeu seu riso mudo ao recordar sua intervenção para que as coisas chegassem àquele ponto com o pobre diabo. Imaginou bizarrices ouvindo o desfile de horrores da conversa sem noção de Zé, que todo o bar escutava com clareza. Sentia nojo daquele arremedo de ser. Dentes horrorosos, cabelo lambido, tremedeira nas mãos, inteligência limitada. Tudo lhe revolvia o estômago. Pensou como aquilo ainda arrastava sua condição de desastre ambulante por toda a cidade. Não fosse pela promessa feita à sua mulher em leito de morte, já teria resolvido o cidadão.

Levantou-se e foi descontraído até onde dois ou três festejavam o Zé. Agiu como todos, parecendo interessado na presença dele ali. Fingiu atenção ao participar da conversa. Fazia parte de sua imagem do rico acessível. Convidou Zé para a sua mesa, como vários já haviam feito. Ninguém achou esquisito.

– Então, Zé, como vai a vida?

– Oxe, de boa.

– Quer tomar um negocinho?

– Só se for agora!

Firmino veio com uma garrafa fechada de marca boa e deixou sobre a mesa. Zé salivava. Miro olhou com asco a criatura sentada a seu lado, não sem perceber o prazer no rosto sonso de Fenelon ao servir dose generosa ao visitante, que deu duas talagadas de respeito, sem fazer careta.

– Zé, lembra da nossa conversa outro dia, ali na praça?

– Oxe, se esqueço tudinho?

– Ora, rapaz, aquela história da mulher.

– Mulher? Tenho não, senhor.

– Até porque tá precisado de um banho…

– Miro, que grosseria é essa?

– É mermo? Devo ter esquecido, óia…

– Falo da criatura que anda na sua cabeça esses dias.

– Ah, a mulher do sol?

Miro se chocou pela frase. Fenelon se manteve impassível. Apenas fitava aquela derrocada humana e em pequenos detalhes de gestos, revelava angústia, nojo ou desprezo. Parecia à beira de algo, mas nunca daria o último passo. Retomou.

– Isso. Sonhou com ela de novo?

– Foi. Nós pelo mato, dado a mão.

– O que mais?

– Ela caindo, voando no meio da fumaça.

– E quem é ela?

– Num vejo a cara, não, sabe?

– E vê o quê?

– Oxe, pode botá mais uma coisinha pra tomar? A garganta tá é seca.

– Claro, claro, beba.

– É uma mulher escura, é preta, com um sol na cabeça.

– Como assim?

– É feito um cabelo, sacudindo vermelho, grande.

Miro pegou da garrafa e se serviu duplo. Aquilo estava perigoso. Fenelon seguia frio e seguro.

– Ela fala com você?

– Sei dizer não, senhor. Acho que sim. Ela fica é me olhando.

– E sonha sempre?

– Agora é todo dia.

– Eu acho que posso lhe ajudar.

– Oxe, carece não.

– Faço questão. Quando acontecer, sempre me conte.

– É coisa à toa…

– Pode ir agora, Zé. E leve a garrafa.

– O senhor é bom. Até.

– Boa sorte.

– Óia, que coisa. Acho que foi isso que ela disse.

– O quê?

– “Boa sorte”.

– Coincidência, né?

Foi embora falando alto, feliz com sua bebida, ainda festejado no bar. Miro não se conteve.

– Ele sabe, ele sabe. Isso vai acabar mal.

– Não vai.

– Se ele lembrar de Maria? E da morte dela? E da menina?

O rosto de Fenelon se transformou. Curvou seu corpo de forma ameaçadora sobre a mesa em direção a Miro, que no instinto apalpou o crucifixo. Olhou frio, como um predador.

– Nunca fale desse assunto.

– Eu não quis…

– Não preza por sua vida, sua liberdade?

Ignorando qualquer ensaio de resposta de Miro, Fenelon acendeu outro cigarro. Bebeu a dose de conhaque de uma vez. Apertou os olhos. Respirou profundo. Lhe veio tudo de novo. O romance com Mariinha Nogueira, de rosto lindo e voz de calmaria. O bilhete premiado do casamento com a benção da família rica e tradicional. Não era pobre ou miserável, só que o sogro dominador simpatizou com ele.  A demanda por um neto, que demorou. Três bebês perdidos. Quando vingou, veio uma menina de pele escura, em um tom inexplicável, com seus cabelos vermelhos. Um escândalo para a família do velho, que abafou com rapidez, mas pressionou por explicações e fez a vida do casal um inferno. Foi batizada Maria Cristina quase na clandestinidade. Fenelon, ainda que se sentisse desconfortável com a situação, tentou conviver com a filha, mas a cada dia dava menos conta e fazia o que o sogro mandava. Maria cresceu, bela como a mãe. Um dia, conheceu o José Paulo, do açougue de Genovevo. Se apaixonaram. O romance foi sufocado pelo preconceito e o casal fugiu de Pedra Velha. Foram descobertos em outro estado, três anos depois. Já tinham uma filha. A cópia da mãe. O velho mandou dois homens de confiança atrás, Miro e Niginho. Não saiu como previsto. A família foi encurralada em um morro alto. Houve luta e Maria caiu no vazio, morrendo nas pedras. Diante do que viu, Zé se desconectou da realidade. Sobreviveu porque Dona Mariinha, em leito de morte de desgosto pelo destino da filha, pediu por ele. Miro, que tinha paixão secreta por Maria, salvou a criança para criar, a despeito da maldição lançada sobre ela ainda no morro.

– Por que o senhor ainda quer esse diabo vivo?

– Tenho minhas razões.

– Mas a menina é minha!

– Cale-se. Sua vida me pertence. Quer que a polícia saiba sobre Niginho?

– Só cumpri ordens.

– De quem? O velho Nogueira já morreu.

– O senhor não faria isso.

– Experimente me desafiar.

– Niginho mereceu. Me deixou cego de um olho!

– E com uma menina amaldiçoada.

– Ela é sua neta!

– Cada um que carregue sua cruz.

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