(Bruno Vicentini)
Creio em Deus-Pai, Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra, que me abandonou na casa das máquinas, onde eu tenho as minhas coisas, tenho gaveta, tenho escova de dente, deixo tudo em ordem, e agora querem que eu saia, quando o prédio tá fechado eu durmo lá com os elevadores, o vigia da noite sabe, mas vai jurar que não, tem trinta anos que ele tá lá sentado na mesma cadeira, feito um palerma, ouvindo a rádio universitária, simpático com todo o mundo, eu antes vinha aqui só pra imaginar que tinha feito exatamente o que essa garota fez agora, antes de dormir na casa das máquinas, ninguém repara num moribundo que entra num centro comercial, eu subia escondido no parapeito da sacada do terceiro, perto da lavanderia, e ficava pensando se a queda seria o suficiente, porque o prédio não é assim tão alto, se eu me atirasse de cabeça, não tem nada mais deprimente que um suicídio frustrado, alguém que quis tirar a própria vida e que nem mesmo disso foi capaz, acabou numa cama, todo fodido, os dois joelhos em frangalhos e de certa forma ainda mais vivo que antes, dando trabalho pros parentes, mas comigo não, eu ia mesmo mesmo me atirar de cabeça, meu cabelo à escovinha, vou no barbeiro da rodoviária uma vez por mês, a primeira parte do meu corpo a atingir o pavimento, eu não ia correr o risco de não dar certo, de sobreviver, que nem parente pra me cuidar eu tenho, a julgar os vivos e os mortos, a vida passando lá embaixo, comecei a reparar nas copas das árvores, vistas de cima formam uma espécie de tapete, um mar de folhas verdes, a gente esquece que Maringá tem assim tantas árvores, os troncos ficam distantes uns dos outros na rua, os galhos crescem até que suas folhas encontrem a próxima árvore, estão todas ligadas, não seria isso também uma espécie de desespero, a gente passa na rua e ignora, estamos acostumados ao desespero das árvores, de cima eu via uma coisa só, um organismo, um oceano, mergulhar de cabeça na calçada com um baque seco, as pessoas iam me ver, alguém que elas cruzam na rua, aqui mesmo no Centro, a cidade não é tão grande, todo mundo me conhece, assim na terra como em Maringá, nessa hora eu escutei um miado, antes do meu crânio aberto, meu pescoço rompido, braços e pernas num ângulo impossível, um som que se destaca por sobre os barulhos indiscriminados da rua, um choro de animal curto e triste, vi uma gata gorda em cima de um papelão, alguém deixou a bichinha ali, soube que era fêmea porque tinha as tetas inchadas, a barrigona prestes a explodir de quantos filhotes, miava baixinho, seja feita a Vossa vontade, como se reclamasse do destino desgraçado de seus filhos, mesmo que não soubesse qual seria, ou então justamente por saber é que chorava, eu desci do parapeito, chamei a gata de Nininha, me deixou chegar perto, contei sete gatinhos, três nasceram mortos, nunca mais voltei pra casa, comecei a dormir na casa das máquinas, vendia laranja no sinal, vendi bala, bala vende mais do que laranja, cuidava dos carros na frente do Aldo, roubei uma faca boa na loja de um e noventa e nove, briguei na rua muitas vezes, desci à mansão dos mortos, tudo que eu trazia era pra Nininha, nunca bebi na casa das máquinas, os filhotes sumiram logo, Nininha em algum outro telhado, eu não tinha mais pra onde ir, ninguém nunca me procurou, a garota se parecia comigo, sentada naquele mesmo parapeito do terceiro, sabia que pular não seria o suficiente porque eu avisei, o prédio não é muito alto, tem que pular de cabeça, na última hora quis rezar, não nos deixei cair em tentação, por respeito eu escondi a faca, rezei junto com ela, ainda que talvez a oração errada, quando criança eu via minha mãe rezando o tempo todo, o pão nosso de cada dia nos dai hoje, eu queria saber quem diabos era o Malaman, imaginava o Superman mas diferente, eu dormia com medo do Malaman, minha mãe pedia pão e pedia pra que nos livrássemos dele, nessa hora ela rezava com mais fé, apertava os olhinhos com força, hoje eu entendo o que ela dizia, acho que o Malaman sou eu, livrai-nos de mim, eu sou o Mal, amém, amém, amém.
