Depois dos trinta, as pessoas acham complicado fazer novos amigos. Eu discordo. Pra mim, difícil mesmo é se desvencilhar das amizades antigas, aquelas que perderam o sentido há muito tempo, que você nem entende como, algum dia, deixou a pessoa chegar tão perto, grudando na gente como herpes. Por onze anos, aturei Eunice agarrada aos meus calcanhares, se alimentando das minhas sobras, contaminando qualquer ambiente em que eu entrasse com ela de sombra. É isso, ponto final. Encontrei um rumo na vida e não vou mais levá-la de carona. Esta manhã, desatei todos os nós que nos uniam como irmãs. Até me despedi com um “a gente se fala”. O metrô vai chegar à Sé, ela segue no trem para a Barra Funda e adeus pra sempre.
Quase lá. Até já dei as costas a ela. Nem olho sua cara no reflexo do vidro da porta. No curso de Publicidade, precisei aturá-la porque éramos colegas de classe e, desde o primeiro dia de aula, ela se apoderou da cadeira ao meu lado. Depois, tínhamos muitas amigas em comum e vivíamos nos esbarrando nas festas. Pior foi quando Eunice começou a trabalhar na agência de um tio e resolveu me indicar para outra vaga. Só aceitei porque era meu primeiro emprego. Queria ter recusado, pra não ficar em débito. Assim, quando a chata precisou de abrigo porque foi largada pelo noivo, não me sentiria pressionada a aceitar que dividíssemos um apartamento. É só por umas semanas, ela disse. Sei. Por três invernos, a gente conviveu no escritório e em casa, um inferno. Mas acabou. Tenho um novo emprego, em uma nova cidade, onde farei novos amigos. Só preciso sair do metrô. Por que essa merda está andando tão devagar? Deu até vontade de soltar uma última verdade.
Vê se me esquece, Eunice. Você sempre foi uma baita de uma mala sem alça.
Uma pena eu não ter esperado as portas se abrirem. Mas foram quatro anos refazendo os textos da incompetente nos trabalhos do curso. Mais duas temporadas levando a bêbada para casa em segurança após as baladinhas. Outro par de anos engolindo os destemperos dela como minha chefe. Por fim, em nosso apê, ouvindo inúmeras lamúrias de desilusões amorosas, reclamações de picuinhas corporativas e confissões sobre carências familiares. Não tinha privacidade nem no meu quarto. O desabafo estava encaroçado na laringe. Escapuliu. Mas, foda-se, né, só sair do vagão sem olhar pra trás. Infelizmente, o metrô acaba de parar no meio do túnel.
Estamos aguardando a movimentação do trem à frente.
Ela ouviu o que eu disse? Saiu meio no grito. Até os outros passageiros devem ter escutado. Aposto que, hoje de manhã, alguém pressionou o botão de soneca quando o alarme tocou. Saiu de casa na pressa e, mesmo assim, parou na padoca a caminho da estação e pediu um pão de queijo. Então, compensou o tempo perdido empurrando os outros usuários na catraca e descendo a escada rolante correndo. Ignorou o sinal de fechamento do trem, segurou as portas e, por causa do egoísmo de um estranho, preciso adiar a despedida da amiga pouco depois de cuspir na cara dela.
Quem segura as portas do trem atrasa a vida dos outros.
Concordo, senhor metrô, atrasa mesmo. Nem posso sumir de vista depois de espinafrar uma amiga na frente de todos. Vagão lotado. Há um minuto, estava todo mundo de conversinha. Agora, ninguém nem respira. Posso vislumbrar um metroviário observando a cena pela câmera de segurança e achando que seu monitor travou. Eunice está atrás de mim ainda? Até sinto seu bafo no meu cangote.
Puxa, Bárbara, você era minha colega de faculdade favorita, sabia?
Droga, ela ouviu. E vai começar essa DR aqui, na frente dessa gente? O senhorzinho de bigode troca olhares cúmplices com a moça de piercing no nariz sentada ao seu lado.
Achei que éramos amigas. Lembra das baladinhas daquela época? Eu era fraca pra bebida, mas tomava todas tentando acompanhar seu ritmo. Porque eu te admirava muito, viu?
Impressão minha ou tem uma mulher apontando a câmera do celular pra cá? Vou virar meme, já vi tudo.
Até te chamei pra trabalhar comigo. Lembra? Foi seu primeiro emprego em uma agência de verdade, quando cansou de andar por aí com currículo na mão só levando porta na cara.
Tem alguém rindo ali atrás. E por que todos me observam? Não sou eu dando escândalo no meio do trem. Estou quieta. Olhem pra maluca de voz esganiçada.
Bárbara, a gente dividiu a mesma casa por todos esses anos e eu nunca reclamei de você deixar a pia cheia de louça suja. Nem pedi para você gemer mais baixo quando transava com seu ex-namorado. Porra, todo dia eu raspava seu cocô da privada porque você tem nojinho de encostar na escova.
Estamos trabalhando para normalizar a circulação de trens o mais rápido possível.
Bom saber, senhor metrô. Mas o estrago está feito. Eu poderia estar na linha azul, indo para o Paraíso, passando agora pela Liberdade, talvez até pela São Joaquim, bem longe de Eunice e sua nuvenzinha escura, seu derrotismo, sua autoindulgência, sua insistência em lembrar os outros de como a vida é vazia. Ia passar o fim de semana com meus pais e pegar a ponte aérea, deixando a outra no vácuo. Celular e redes sociais bloqueados, nunca mais nos veríamos.
Se não gostava de mim, Barbara, disfarçou muito bem todos esses anos. Mas não tinha problema comigo quando eu te emprestava dinheiro pra cobrir o cartão de crédito. Nem quando me pedia pra enrolar o coitado do Rogério enquanto o corneava com o Luiz.
As pessoas nem disfarçam mais. Passaram dessa fase e já apontam pra mim. Logo, voltam à quarta série e destilam provocações. Canalhas, loucos para verem duas moças saindo no tapa.
Não sabia o quanto você era falsa, Barbe. Nem tem coragem de olhar na minha cara, não é?
O trem se movimenta. Há um suspiro coletivo no vagão. Em menos de dez segundos, chegamos à plataforma. A porta demora outra encarnação para abrir.
A gente se fala, Eunice.
Segue em frente. Rápido. Não para, não para. Acabou. Nunca mais.
